sexta-feira, 21 de junho de 2019

VOCÊ É CAPAZ DE DAR SENTIDO À SUA CRUZ?

Missa do 12º. dom. comum. Palavra de Deus: Zacarias 12,10-11; 13,1; Gálatas 3,26-29; Lucas 9,18-24.

            Crise: palavra que suscita em nós uma espécie de repulsa, porque entendemos “crise” como algo totalmente desagradável, negativo e indesejado. No entanto, todo ser humano passa por momentos de crise. Ouvimos falar de crise financeira, crise política etc., mas a crise principal e que pede a nossa atenção é a crise existencial, ou a crise de sentido de vida. Jesus teve que enfrentar essa crise e nós também temos.
            Quando estamos vivenciando uma crise existencial ou de sentido de vida, nos fazemos perguntas do tipo: É este o caminho que eu devo seguir? Vale à pena este sacrifício? Devo mudar minhas escolhas? Que sentido tem esse sofrimento? Não estaria na hora de abandonar tudo isso e ir atrás da minha felicidade? A vida tem algum sentido? A cruz tem algum sentido? Embora nem sempre temos respostas para todas essas perguntas, Santo Inácio de Loyola nos oferece uma indicação muito importante: quando não estamos bem, não devemos tomar decisões importantes, porque normalmente estamos sendo aconselhados pelo mau espírito, pela tristeza, pelo cansaço, pelo esgotamento, pelo pessimismo etc. Se tomarmos alguma decisão que mude fortemente a direção da nossa vida, podemos vir a nos arrepender mais tarde, e talvez não haja mais como desfazer o erro que cometemos.
            Jesus, como qualquer ser humano, passou por momentos de crise, de questionamento a respeito de quem ele era e de qual era a sua missão, de qual era o sentido da sua vida. Onde ele foi buscar resposta? Em Deus, na oração: “Jesus estava rezando num lugar retirado, e os discípulos estavam com ele. Então Jesus perguntou-lhes: ‘Quem diz o povo que eu sou?’” (Lc 9,18). Essa pergunta de Jesus revela a crise interior que ele estava vivenciando. Seu coração estava cheio de questionamentos. E Jesus entendeu que ninguém melhor que o Pai para ouvi-lo; ninguém melhor que o Pai para ajudá-lo a entender o que estava se passando com ele.
            Após ouvir o Pai na oração, Jesus quis ouvir seus discípulos, tanto a respeito de como o povo o via, como a respeito de como os próprios discípulos o viam. Aqui o Evangelho nos oferece uma pista muito importante: as únicas pessoas que podem nos ajudar a nos manter fiéis à nossa própria verdade são aquelas que nos conhecem mais intimamente. Quando nos sentimos perdidos, precisamos tomar muito cuidado com quem conversamos, isto é, quem procuramos para nos orientar e para nos ajudar a reencontrar nossa bússola ou o nosso GPS interior. A Internet atualmente está cheia de “gurus”, de “conselheiros” que são guias cegos, pessoas com claros sinais de problemas mentais, mas que se acham capazes de opinar corretamente sobre política, religião e vida afetiva, e são seguidas fanática e cegamente por milhões, nas redes sociais.     
            Quando Jesus questionou seus discípulos a respeito de como o viam, Pedro disse: Tu és “o Cristo de Deus” (Lc 9,20). Ótimo! A resposta de Pedro veio de encontro ao que Jesus havia entendido na sua oração: Ele é o Ungido de Deus, o Salvador de todo ser humano. No entanto, imediatamente após a resposta de Pedro, “Jesus proibiu-lhes severamente que contassem isso a alguém” (Lc 9,21) porque, enquanto Pedro e os outros discípulos entendiam a missão de Jesus como destinada ao brilho, à fama, ao sucesso e a uma vitória bombástica, Jesus havia entendido, no seu diálogo com o Pai, que o seu caminho seria marcado por dor, sofrimento, rejeição, violência, morte e, somente depois, ressurreição. Eis a grande diferença entre Jesus e a maioria das pessoas: enquanto Jesus busca, na sua espiritualidade, encontrar-se com a sua verdade, a maioria busca uma espiritualidade da fuga de si mesmo, do não confronto com seus medos, seus traumas e suas feridas. Enquanto Jesus busca em Deus força para lidar com a sua cruz, nos buscamos anestésicos cada vez mais potentes para não sentirmos a dor que a nossa cruz nos causa.
            Jesus jamais aceitou ser uma droga que nos mantenha inconscientes a respeito daquilo que somos chamados a enfrentar. Jesus nunca admitirá que nós transformemos seu Evangelho em livro de autoajuda, em receita barata de felicidade egoísta e individualista, em manual de como se livrar de todo tipo de dor, de sofrimento e de cruz. É por isso que ele diz: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará” (Lc 9,23-24).
                 Seria Jesus um masoquista, uma pessoa que sente prazer em sofrer? Seria Deus Pai um sádico, alguém que sente prazer em causar sofrimento aos seres humanos. Não! Se há alguém doente nessa história não é Jesus, nem o Pai, mas a nossa sociedade, que insiste em rejeitar a vida com suas perdas, dores, sofrimentos e cruzes, para tentar criar um mundo onde não haja nenhum tipo de perda, de dor, de sofrimento, de cruz. O sentido da vida não está em não sofrer, mas em dar um sentido ao sofrimento que cabe somente a nós enfrentarmos. Jesus entendeu, na sua oração, que cabia somente a ele dar sentido à cruz que deveria enfrentar, e isso dissipou o mal estar que sua crise estava lhe causando.
Eis, portanto, o convite de Jesus a cada ser humano: não fuja de si mesmo; vá de encontro à sua verdade; não se faça de vítima, implorando que as pessoas sintam pena de você; não viva reclamando, achando que isso fará a vida “pegar mais leve” com você; acolha a vida com tudo o que ela tem de alegria e tristeza, vitória e derrota, luz e sombra, perda e ganho, altos e baixos; não se desvie da dor ou da cruz que cabe somente a você enfrentar, porque aquilo diz respeito justamente ao seu crescimento, ao seu amadurecimento, à sua redenção e à sua libertação.    

            Oração: Deus Pai, dentro de cada um de nós há uma pergunta existencial que pede para ser respondida: “Que sentido tem a vida?”, ou então: “Que sentido tem essa cruz, esse sofrimento?” Hoje eu entendo que o Senhor nunca aceitou ser um remendo em nossa vida, uma resposta fácil para perguntas que são sérias e dolorosas, porque estão em nós para nos abrir à Tua verdade e nos revelar o sentido verdadeiro da nossa existência.
            Principalmente quando temos que lidar com algum tipo de cruz, é ali que Teu Filho nos pergunta: “Quem eu sou para você? O que você espera de mim?”. Peço-Te a graça de não me acovardar diante da minha cruz e de não fugir daquelas perguntas que são essenciais para que eu viva conscientemente a minha vida e saiba dar sentido à minha própria dor.
Que a graça do Teu Espírito me liberte de todo tipo de vitimismo, de autopiedade, e me ajude a compreender que, se eu nem sempre posso escolher o tipo de cruz que atravessa o meu caminho, sempre posso escolher a maneira como lidar com essa cruz, e é essa liberdade de escolha que faz de mim sujeito da minha história, a exemplo de Teu Filho Jesus. Amém.

Pe. Paulo Cezar Mazzi 

quarta-feira, 19 de junho de 2019

JESUS – CORPO DOADO, SANGUE DERRAMADO



Palavra de Deus: Gênesis, 14,18-20; 1Coríntios 11,23-26; Lucas 9,11b-17

Todo ser humano sente fome, porque todo ser humano depende de “algo” que está fora dele para viver. A fome nos diz que ninguém de nós é autossuficiente e que nós precisamos uns dos outros para viver. O alimento que sacia a nossa fome só chega à nossa mesa porque inúmeras pessoas que nunca iremos conhecer trabalharam para que a nossa fome fosse saciada. Mas a fome que o ser humano carrega dentro de si não é só de pão. A própria Escritura diz: “O homem não vive somente de pão” (Dt 8,3; Mt 4,4). Alguns têm fome de justiça, outros têm fome de paz; alguns têm fome de saúde, de alegria, de esperança; outros têm fome de um lugar no mercado de trabalho; alguns têm fome de perdão; outros têm fome de se sentirem amados. Além disso, da mesma forma, assim como existem crianças e adultos subnutridos, existem também crianças e adultos bem alimentados, mas “subnutridos” no que diz respeito à educação, à maneira de tratar os outros, à falta de sensibilidade para com a dor dos outros...
Jesus sempre foi alguém capaz de compaixão, isto é, ele deixava-se afetar pelo sofrimento do outro. No entanto, nós temos a tendência a agir como os discípulos, que disseram a Jesus: “Despede a multidão, para que possa ir aos povoados e campos vizinhos procurar hospedagem e comida, pois estamos num lugar deserto” (Lc 9,12), ao que Jesus respondeu: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Lc 9,13). Se Jesus nos manda dar de comer a quem tem fome, é para nos lembrar de que o problema da fome não é a falta de alimento, mas o desperdício de alimento. O Brasil é o quarto produtor mundial de alimentos, produzindo 25,7% a mais do que necessita para alimentar a sua população (FAO). Além disso, por ano são jogadas no lixo 41 mil toneladas de alimentos em nosso país (http://www.bancodealimentos.org.br/o-desperdicio-de-alimentos-no-brasil/). Isso nos faz lembrar as palavras do Papa Francisco, “A comida que se joga fora é como se fosse roubada aos pobres”.
O desperdício de comida no Brasil mostra que não é verdade que “só temos aqui cinco pães e dois peixes” (Lc 9,13). Assim como é verdade que no Brasil não faltam recursos – o que falta é vontade política, assim também é verdade que não nos faltam recursos para agir com compaixão para com quem sofre – o que nos falta é vontade; o que nos falta é olhar a vida para além do nosso umbigo ou da tela do nosso celular; o que nos falta é tirar os fones de ouvido, ainda que seja por um momento, para ouvir o pedido de socorro de pessoas à nossa volta; o que nos falta é nos permitir sentir um saudável sentimento de culpa pela fome que também existe perto de nós.
“Então Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes, elevou os olhos para o céu, abençoou-os, partiu-os e os deu aos discípulos para distribuí-los à multidão. Todos comeram e ficaram satisfeitos” (Lc 9,16-17). Os cinco pães e os dois peixes nos dizem que Deus nos dá diariamente os recursos de que precisamos para nos ajudar mutuamente, para resolvermos os nossos problemas, inclusive dentro de casa, no relacionamento com as pessoas. Na verdade, não falta pão, falta doação; falta a vontade de tomar a decisão de “partir” e de “distribuir” aos outros aquilo que temos a tendência de guardar somente para nós. 
            As mesmas mãos que se abrem e se estendem para receber o Corpo de Cristo precisam se abrir e se estender para o irmão que cruza o nosso caminho. Se na Eucaristia nós comungamos o “corpo entregue” de Jesus e o seu “sangue derramado”, isso significa que, assim como Jesus, devemos viver também para o bem dos outros, como se Jesus continuamente nos dissesse: “Eu me dou a você para que você possa continuar dando-se aos outros”. Em outras palavras, cada um de nós, que comunga do Corpo e do Sangue de Cristo, é chamado a ter a disposição de oferecer-se a Deus como Seu Filho se ofereceu, vivendo sua vida neste mundo como Jesus viveu a d’Ele: como “corpo doado” e “sangue derramado” em favor da salvação da humanidade.
            Enfim, lembremo-nos de que o pão nasce do “sacrifício” dos grãos de trigo que se entregam para serem triturados, assim como o vinho nasce do “sacrifício” das uvas que se entregam para serem esmagadas. Pão e vinho, Corpo e Sangue de Jesus, alimento de vida eterna, convite a não fugirmos daqueles sacrifícios que são necessários serem abraçados, enfrentados, em vista da nossa edificação e do bem da família, da Igreja e da sociedade humana.

Pe. Paulo Cezar Mazzi



quinta-feira, 13 de junho de 2019

TRÊS PESSOAS, NÃO UMA; PONTES, NÃO MUROS; COMUNHÃO, NÃO ISOLAMENTO


Missa da Santíssima Trindade. Palavra de Deus: Provérbios 8,22-31; Romanos 5,1-5; João 16,12-15.


            O que nós, seres humanos, temos construído mais: muros ou pontes? Nós construímos muros quando nos sentimos ameaçados, quando queremos nos proteger, nos distanciar, nos isolar, não sermos incomodados, perturbados etc. Nós construímos pontes quando queremos nos aproximar, criar laços, conviver, estar com os outros, nos envolver com o que acontece à nossa volta. Se pararmos para observar o mundo em que vivemos, o mundo que estamos ajudando a construir, vamos perceber que nele há muito mais muros do que pontes: há muito mais medo do que confiança, muito mais separação e isolamento do que convivência e comunhão, muitos mais ódio do que tolerância, muito mais inimizade do que amizade, muito mais indiferença do que compaixão para com quem sofre...
            Onde estão esses muros? Eles estão, em primeiro lugar, dentro das casas, no seio das famílias: pessoas que habitam sob o mesmo teto, mas não dialogam, não partilham seus sentimentos, não se dão conta do que se passa com o outro, cada um com o olhar hipnotizado na tela de um celular, computador, smartfone etc. Além disso, esses muros estão em nosso ambiente de trabalho, onde tentamos sobreviver em meio a antipatias, inimizades, armadilhas, trapaças etc. Esses muros estão em nossa própria comunidade de fé, onde não nos importamos em saber quem é e como está a pessoa que se sentou ao nosso lado. Esses muros estão até mesmo nas redes sociais, lugar onde expressamos nosso ódio e nossa intolerância em relação àqueles que pensam diferente de nós.
            Embora muitas pessoas estejam convencidas de que, para sobreviver no mundo de hoje, muros são muito mais necessários do que pontes, profissionais da saúde (médicos, psiquiatras, psicólogos etc) e pessoas que lidam com o espiritual (padres, pastores etc) constatam que nunca como hoje as pessoas estiveram tão doentes: depressivas, ansiosas, com distúrbios mentais, sem esperança e sem sentido para a vida. Em outras palavras, os muros favorecem o surgimento de doenças em nós, ao passo que as pontes podem nos trazer cura.
            Os textos bíblicos que ouvimos hoje nos falam da “casa” de Deus, uma casa onde habitam três Pessoas; o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Nesta “casa” não existem muros, nem fora, muito menos dentro dela; pelo contrário, nela só existem pontes. Em primeiro lugar, há uma ponte eterna que sempre ligou o Pai ao Filho e o Filho ao Pai: uma ponte chamada Espírito Santo. O Pai ama o Filho; o Filho ama o Pai, e o amor que os une, que os mantém em comunhão, é o próprio Espírito Santo, amor que, como afirma hoje o apóstolo Paulo, foi derramado em nossos corações! (cf. Rm 5,5).
            Deus nunca foi muro; Ele sempre foi ponte. Deus nunca foi só; Ele sempre foi Pai que nos criou, Filho que nos salvou e Espírito Santo que nos sustentou. Justamente por isso, ao criar o ser humano, Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1,26), e não “Faço... à minha imagem...” (Ele usou o plural, não o singular). Além disso, Deus disse: “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2,18). Não é bom quando deixamos de construir pontes e passamos a construir muros. Não é bom quando nos isolamos, nos mantemos distantes das pessoas, nos fechamos em nosso quarto, em nossa casa, em nosso mundo virtual, como se não fizéssemos parte da humanidade e como se estivéssemos totalmente protegidos do que acontece lá fora.
            Justamente pelo fato de Deus ser ponte e não muro, Ele enviou seu Filho ao mundo, para procurar e salvar todo ser humano que estava perdido. O Filho, por sua vez, após ter concluído a obra da redenção do ser humano, voltou para o seio do Pai e de lá nos enviou o Espírito Santo, para ser o nosso Consolador, Aquele que nos sustenta com Sua força, até que possamos concluir o nosso caminho na terra, atravessar a ponte e chegar à “casa” celeste, onde habitam o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Portanto, segundo o apóstolo Paulo, essa é a nossa condição atual: apesar das tantas tribulações que temos neste mundo, “estamos em paz com Deus, pela mediação do Senhor nosso, Jesus Cristo” (Rm 5,1). Por isso, podemos entender essas tribulações como um processo de amadurecimento espiritual, “sabendo que a tribulação gera a constância, a constância leva a uma virtude provada, a virtude provada desabrocha em esperança; e a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,3-5).
            Assim como a Sagrada Escritura nos revelou que Deus é Pai, Filho e Espírito Santo, ela também nos revelou que a história da salvação, na qual estamos incluídos, é feita de três etapas ou três tempos: no Antigo Testamento encontramos a revelação do Pai, o tempo em que o Pai fala com a humanidade a partir do povo de Israel; no Novo Testamento encontramos a revelação do Filho, o tempo em que o Filho forma a Igreja a partir dos apóstolos, para dar continuidade à Sua obra de redenção em favor da humanidade. Por fim, ainda no Novo Testamento, após a volta de Jesus ao Pai (Ascensão), temos a revelação do Espírito Santo e o início do tempo em que Ele atua na Igreja e no mundo, para completar a obra que o Pai e o Filho começaram em cada um de nós. É neste sentido que Jesus afirma que o Espírito Santo nos “conduzirá à plena verdade” (Jo 16,13). Nós já conhecemos a verdade do Evangelho, mas a “plena” verdade daquilo que somos chamados a ser só nos será revelada quando pudermos contemplar a face do Pai, do Filho e do Espírito Santo na eternidade (cf. 1Cor 13,12).
Ao final desta reflexão sobre a Santíssima Trindade, contemplemos esta representação simbólica dela e procuremos nos perceber no seio da mesma:

    
                       
A Trindade Misericordiosa envolve a criatura humana por todos os lados. O sentimento do Pai é de ternura e cuidado, seu rosto se aproxima e beija o rosto inerte da pessoa ferida. Ele revela seu amor misericordioso no calor do abraço, que acolhe e regenera o ser humano. O Filho revela o Deus Amor-serviço, que se põe aos pés da humanidade decaída para restaurá-la, e revela o caminho do serviço como caminhada para a vida. Em Jesus, Deus se abaixa para estar mais perto da miséria do ser humano. O Espírito Santo, figura que desce do alto e se aproxima do ferido, tanto pode ser a figura de uma pomba, de chamas ou de mãos que trazem vida. Beija a pessoa e lhe transmite o Sopro de vida. A Pomba de fogo voa sobre o ser humano caído e o aquece.

            Pe. Paulo Cezar Mazzi

terça-feira, 11 de junho de 2019

AFETIVIDADE E EUCARISTIA


AFETIVIDADE E EUCARISTIA
Pe. Timothy Radcliffe o.p.

Afetividade não implica só a capacidade de amar, mas também nossa forma de amar como seres sexuados, dotados de emoções, corpo e paixões. Deus, Ele próprio, se fez corporal no meio de nós, um ser humano como nós. Jesus nos deu o sacramento de seu Corpo e prometeu a ressurreição de nossos corpos. Temos que aprender a amar os seres sexuados e apaixonados – às vezes um pouco desordenados – que somos, ou não teremos nada que dizer sobre Deus, que é amor.

As palavras centrais da última ceia foram “Este é meu corpo e o dou a vocês”. A Eucaristia, como o sexo, se centram no dar o corpo. Para nossa sociedade é muito difícil entender isso porque tendemos a ver nossos corpos simplesmente como objetos que nos pertencem. Mas o corpo não é simplesmente uma coisa que possuo, sou eu, é meu ser recebido como presente de meus pais, e de seus pais antes deles, e em última instância, de Deus. Por isso, quando Jesus disse ‘Este é meu corpo eu o entrego a vocês’, não está dispondo de algo que lhe pertence, está passando aos demais o dom que Ele é. Seu ser é um dom do Pai que Ele está transmitindo.

Geralmente a ética sexual cristã é vista como restritiva quando comparada com os costumes contemporâneos. A Igreja diz exatamente o que não é permitido fazer! Na realidade, a base da ética cristã é a aprendizagem de como viver relações de entrega mútua. Chegar a ser gente madura, que ama, significa que nos encontraremos com crises inevitáveis. Podemos atravessar várias crises de afetividade durante a nossa vida. Um beneditino irlandês chamado Mark Patick Hederman escreveu: “O amor é o único ímpeto suficientemente transbordante para forçar-nos a abandonar o confortável refúgio de nossa bem armada individualidade, despojarmo-nos da impenetrável concha de autossuficiência, e sair engatinhando desnudos para a zona de perigo que está mais além, o ponto purificador onde a individualidade é purificada para fazer-se pessoa”. Só o amor rompe nossa dureza de coração e nos dá um coração de carne.

Amar é perigoso! Abrir-se ao amor é muito perigoso. A gente pode se machucar. Diz C.S. Lewis: “Amar em qualquer caso é ser vulnerável. Ama algo e teu coração certamente estará partido e possivelmente rasgado. Se queres ter certeza de mantê-lo intacto, não deves entregar teu coração a ninguém, nem sequer a um animal. Envolve-o cuidadosamente em hobbies e pequenos luxos; evita todo envolvimento amoroso; encerra-o com segurança na urna ou no ataúde do teu egoísmo. Mas nesta urna - segura, escura, imóvel, sem ar - mudará. Não se quebrará; se tornará irrompível, impenetrável, sem salvação. A alternativa à tragédia, ou ao menos ao risco de tragédia, é a condenação. O único lugar além do céu onde podes estar perfeitamente a salvo de todos os perigos e perturbações do amor é o inferno”.

Quais são as fantasias com que o desejo pode nos apanhar? Eu sugiro duas: Uma é a tentação de pensar que a outra pessoa é tudo, tudo o que buscamos a solução a todas as nossas aspirações. Isso é um capricho passageiro. A outra tentação é não ver a dimensão humana da outra pessoa, fazendo-a simplesmente carne de consumo. Isso é luxúria. Essas duas ilusões não são tão diferentes como parece à primeira vista, uma é o reflexo exato da outra.

Suponho que todos nós já conhecemos momentos de total teimosia, quando alguém se converte no objeto de todos os nossos desejos e no símbolo de tudo o que havíamos sonhado, na resposta a todas as nossas necessidades. Se não chegarmos a ser um com essa pessoa, nossa vida não tem sentido, está vazia. A pessoa amada chega a ser para nós a resposta a esse poço de necessidade grande e profunda que descobrimos dentro de nós. Pensamos nesta pessoa todo dia. Divinizamos a pessoa amada e a colocamos no lugar de Deus. Talvez quase todo amor verdadeiro passe por esta fase obsessiva. A única cura para isso é viver dia a dia com a pessoa amada e ver que não é Deus, mas só uma filha, um filho. O amor começa quando somos curados de nossa ilusão e estamos cara a cara com uma pessoa real e não com uma projeção de nossos desejos.

O que buscamos com os nossos afetos? O desejo de intimidade. É o desejo de ser totalmente um, de acabar com os limites entre mim e a outra pessoa, para perder-se na outra pessoa, para buscar a comunhão pura e total. Mas o sonho de comunhão plena é um mito, que leva alguns religiosos a desejarem ser casados, e a muitos casados a desejarem estar com uma pessoa diferente. A intimidade verdadeira e feliz só é possível se aceitamos as limitações da intimidade. 

O poeta Rilke entendeu que não poderia ter verdadeira intimidade entre um casal até que se deem conta de que cada um, de certa forma, permanece só. Cada ser humano conserva solidão, um espaço ao seu redor que não pode ser eliminado. Nenhuma pessoa pode oferecer-nos a plenitude de realização que desejamos. Isso só se encontra em Deus, como nos lembra Jean Vanier: “A solidão é parte do ser humano, porque não existe nada que possa encher completamente as necessidades do coração humano”.

Quando nos deixamos levar pela luxúria, isto é, pela força cega do erotismo, fazemos da outra pessoa um simples objeto, algo com que satisfaço minhas necessidades sexuais. A luxúria nos torna caçadores, predadores que veem no outro algo para devorar. Queremos simplesmente um pouco de carne, algo que possa devorar. Justamente por isso, a castidade é um convite a viver no mundo real. A castidade nos abre os olhos para ver que o que está diante de nós é efetivamente um corpo bonito, mas este corpo é alguém. Este corpo não é um objeto e sim um sujeito.

O primeiro passo para superar a luxúria não é suprimir o desejo, mas restaurá-lo, descobrir que o desejo é por uma pessoa e não por um objeto. Não somos nem divinos, nem um pedaço de carne. Ambos somos filhos de Deus. Temos nossa história. Fizemos votos e promessas. O outro tem compromissos, talvez com uma esposa, um esposo. Nós como religiosos ou sacerdotes nos entregamos à nossa Diocese. É assim como estamos, comprometidos e ligados a outros compromissos, que podemos aprender a amar com corações e olhos abertos.


Pe. Paulo Cezar Mazzi – Texto resumido

quinta-feira, 6 de junho de 2019

VEM SOBRE NÓS, ESPÍRITO SANTO!

Missa de Pentecostes. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 2,1-11; 1Coríntios 12,3b-7.12-13; João 20,19-23.      
     
            Pentecostes: uma festa celebrada pelos judeus cinquenta dias após a Páscoa. Foi neste dia que o Pai, por meio do Filho, enviou o Espírito Santo sobre os discípulos (cf. At 2,1.4). Passados alguns anos, o apóstolo Paulo perguntou a alguns cristãos, assim que chegou à cidade de Éfeso: “Vocês receberam o Espírito Santo quando abraçaram a fé?”, ao que eles responderam: “Mas nem ouvimos dizer que existe um Espírito Santo” (At 19,2). Quantos de nós desconhecemos o Espírito Santo? Se muitos têm um relacionamento com o Pai e com o Filho, quem de nós tem algum relacionamento com o Espírito Santo? Afinal, quem é o Espírito Santo? Como imaginá-Lo? Onde encontrá-Lo? Como experimentá-Lo?      
            Através do profeta Ezequiel, Deus havia feito uma promessa: “Eu darei a vocês um coração novo... Porei no íntimo de vocês o meu espírito... Porei o meu espírito em vocês e vocês viverão” (Ez 36,26.27; 37,6). Esta promessa foi feita também por meio do profeta Joel: “Derramarei o meu espírito sobre todo ser humano” (Jl 3,1). Na verdade, o Espírito de Deus já havia sido mencionado desde o início da criação, quando Ele pairava como vento sobre as águas (cf. Gn 1,2). Depois, Ele se manifestava no momento em que um rei era ungido com óleo (cf. 1Sm 16,13) ou um homem era escolhido para ser profeta (cf. Is 42,1; 61,1). João Batista, o último dos profetas, afirmou que Jesus nos batizaria com o Espírito Santo e com fogo (cf. Mt 3,11). No momento em que Jesus foi batizado, o Espírito Santo foi visto descer e permanecer sobre Ele como se fosse uma pomba (cf. Mt 3,16). Desse modo, Ele se reconheceu como o Ungido do Senhor (cf. Lc 4,18), sendo chamado de Cristo (Ungido). Finalmente, como vimos domingo passado, no momento da Ascensão de Jesus ao céu, Ele prometeu enviar o Espírito Santo sobre seus discípulos como força do alto (cf. At 1,8).
            Ao descrever a presença misteriosa do Espírito Santo como vento, a Bíblia nos ensina que, se Deus retirar de nós Seu espírito, nós morremos: “Retiras o teu sopro e eles morrem. Envias o teu sopro e eles renascem” (citação livre de Sl 104,29-30). Desse modo, Jesus ressuscitado comunica o Espírito Santo aos discípulos soprando sobre eles. Este sopro é vida interior, é força que nos anima a partir de dentro, é vento que sopra sobre nós e nos vivifica, nos põe em pé (cf. Ez 37,10) e nos reanima. Foi este vento que encheu a casa onde os discípulos estavam no dia de Pentecostes (cf. At 2,2).
            Se o vento ou o sopro não podem ser vistos, mas apenas sentidos, o Espírito Santo se mostrou visível no dia de Pentecostes em “línguas como de fogo”. O fogo exprime a força purificadora e transformadora do Espírito Santo. Assim como o fogo tem o poder de derreter o metal mais duro, assim o Espírito Santo pode dobrar a dureza do nosso coração ou transformar nosso caráter. Assim como o fogo purifica o ouro e a prata, assim o Espírito Santo remove nossas impurezas e nos santifica. Se esse fogo toma a forma de “línguas” é porque o Espírito Santo nos dá a capacidade de comunicar palavras de conforto a toda pessoa abatida, palavras de reconciliação e de perdão, palavras de fé, de esperança e de orientação.
            Jesus chamou o Espírito Santo de “força do alto”. Quando alguns homens piedosos se puseram a reconstruir o Templo em Jerusalém, Deus lhes disse: “Não pelo poder, não pela força, mas sim pelo meu espírito” (Zc 4,6). Existem situações em nossa vida e na vida do mundo que não podem ser mudadas pelo nosso poder e força humanos, mas unicamente pela graça do Espírito Santo. Além disso, devemos nos lembrar mais uma vez que “Deus não nos deu um espírito de medo, mas um espírito de força...” (2Tm 1,7). Desse modo, o Espírito Santo sempre nos impulsiona para enfrentar os desafios e os problemas, e nunca para fugir deles. Por sua vez, o apóstolo Paulo nos lembra hoje que “a cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum” (1Cor 12,7). Ninguém recebe o Espírito Santo para si, mas para fazer algo pelo bem e pela salvação dos outros. Portanto, toda pessoa que age movida pelo Espírito Santo, trabalha pela unidade e pela comunhão, jamais pela divisão ou separação dentro da Igreja (cf. 1Cor 12,4-6.12-13).  
            Jesus gostava de chamar o Espírito Santo de “Espírito da Verdade” (Jo 15,26; 16,13), porque somente Ele pode penetrar no mais íntimo do coração humano e livrá-lo das suas mentiras, dos seus erros; somente a Verdade do Espírito Santo pode nos convencer a abandonar o pecado e a desejar caminhar segundo a vontade de Deus. No entanto, o apóstolo Paulo afirma que nós precisamos nos deixar conduzir pelo Espírito de Deus (cf. Rm 8,14). Ele não nos obriga a nada; Ele não nos violenta e não Se impõe, mas Se propõe a nós. Por Ele sempre visar o nosso bem, o bem que Deus quer para nós (cf. Rm 8,27), a melhor coisa que temos a fazer é entrar neste rio de água viva e deixar-nos levar calma e confiantemente pela sua correnteza, ao invés de ficarmos nadando contra a corrente e nos desviando da direção certa, do desígnio que Deus tem para nós.
                O apóstolo Paulo afirma que o Espírito Santo atesta, isto é, comprova que somos filhos de Deus; somente Ele faz nascer em nós uma súplica espiritual, uma palavra que dirigimos a Deus proclamando-O como nosso Abbá, nosso Papai (cf. Rm 8,15-16). Ora, ao mesmo tempo em que declaramos que não somos órfãos e que nossa vida não está nas mãos do acaso, mas do Papai, Jesus nos ensina que a coisa mais importante que nós, filhos de Deus, podemos pedir ao nosso Papai é o Espírito Santo (cf. Lc 11,13); pedir Aquele que nos enche de ânimo, de força e de esperança; pedir Aquele cujo amor tudo cura e restaura, cujo perdão reconcilia, reaproxima, recria comunhão; pedir Aquele cujo fogo tudo transforma e cuja água é viva e tudo vivifica; pedir Aquele que é a própria unção que nos consagra como pessoas que pertencem a Deus, Aquele cujo bálsamo cura nossas feridas e cuja graça transforma nosso coração de pedra em coração de carne; enfim, pedir Aquele que renova a face da terra...

Pe. Paulo Cezar Mazzi

Antigo hino ao Espírito Santo

Vinde, Santo Espírito, e do céu mandai luminoso raio. Vinde, Pai dos pobres, doador dos dons, luz dos corações. Grande defensor, em nós habitais e nos confortais. Na fadiga, pouso; no ardor, brandura e na dor, ternura. Ó luz venturosa, que vossos clarões encham os corações. Sem vosso poder, em qualquer vivente nada há de inocente. Lavai o impuro e regai o seco, curai o enfermo. Dobrai a dureza, aquecei o frio, livrai do desvio. Aos vossos fiéis que oram com vibrantes sons dai os sete dons. Dai virtude e prêmio e no fim dos dias eterna alegria. Amém.

Hino – Vésperas de Pentecostes – Liturgia das Horas

Ó, vinde, Espírito Criador, as nossas almas visitai e enchei os nossos corações com vossos dons celestiais.  Vós sois chamado o Intercessor, do Deus excelso o dom sem par, a fonte viva, o fogo, o amor, a unção divina e salutar. Sois doador dos sete dons e sois poder na mão do Pai, por Ele prometido a nós, por nós seus feitos proclamai. A nossa mente iluminai, os corações enchei de amor, nossa fraqueza encorajai, qual força eterna e protetor. Nosso inimigo repeli, e concedei-nos vossa paz; se pela graça nos guiais, o mal deixamos para trás. Ao Pai e ao Filho Salvador por vós possamos conhecer que procedeis do seu amor fazei-nos sempre firmes crer. Amém!

quinta-feira, 30 de maio de 2019

E O PADRE DECIDIU DEIXAR O MINISTÉRIO



            Houve um dia em que você se encantou por alguém, por algum sonho, por um projeto de vida, por uma vocação ou profissão, ou, quem sabe, por Deus, por Jesus, pela causa do Evangelho. Mas, com o passar do tempo, pode ser que inúmeros acontecimentos tenham esfriado seu amor, seu entusiasmo, de modo que o seu encanto, aos poucos, transformou-se em desencanto, e hoje você se pergunta: Vale a pena continuar? Por que continuar? Ainda existe sentido na escolha que eu fiz, na decisão que eu tomei, na resposta que eu dei ao chamado de Deus?  
Algo estranho acontece com a nossa geração: muitos não estão sustentando suas escolhas, suas decisões, seus compromissos. O evangelista João resumiu a vida de Jesus nesta frase: “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). No entanto, a muitos de nós cabem essas palavras que Deus dirigiu a Israel por meio do profeta Oseias: “O amor de vocês é como a neblina da manhã, como orvalho que rapidamente evapora” (Os 6,4). Diferente de Jesus, muitos não amam até o fim, mas até que a novidade se transforme em rotina, até que a decepção apareça, até que a cruz comece a pesar.
Tudo o que não cuidamos, perdemos; tudo o que não alimentamos, morre. As coisas mais importantes da nossa vida precisam ser cuidadas e alimentadas diariamente. Quando duas pessoas decidem se casar, precisam assumir o compromisso de alimentar diariamente o relacionamento conjugal. Da mesma forma, quando um padre ou uma irmã religiosa decide abraçar a vida consagrada, precisa alimentar diariamente sua consagração a Deus, a Jesus, à causa do Evangelho, como está escrito: “Irmãos, cuidem cada vez mais de confirmar a vocação e a escolha que Deus fez de vocês. Procedendo assim, vocês jamais tropeçarão” (2Pd 1,10). Assim como muitos casamentos morrem por falta de cuidado, de alimento, assim também pode acontecer com a vocação de um padre ou de uma irmã religiosa.
Embora muitos de nós pensemos que a causa da desistência de padres do ministério seja a exigência do celibato, do não poder casar-se, diversas pesquisas realizadas dentro da Igreja revelam que a causa é outra: a perda de fé, uma perda relacionada diretamente com o descuido (para não dizer abandono) com a vida espiritual, a vida de oração. Como disse Jesus aos cristãos da Igreja de Éfeso: “Você abandonou o seu primeiro amor” (Ap 2,4). E Deus, por sua vez, fez uma denúncia semelhante em relação ao povo de Israel, sua esposa: “Eles me abandonaram, a mim, fonte de água viva, para cavar para si cisternas, cisternas furadas, que não podem contar água” (Jr 2,13).     
Há uma sede dentro de cada um de nós: sede de felicidade, de amor, de sentido. Sempre que descuidamos do nosso relacionamento com Deus, o único que pode nos dar “água viva”, acabamos por improvisar cisternas, ou seja, formas de captar água de uma maneira mais prática, mas essas cisternas não funcionam porque são furadas: a água que às vezes conseguimos pegar vaza pelos vãos dos nossos dedos, e assim continuamos com sede. É por isso que a bebida e a droga não nos preenchem; a pornografia e a masturbação não nos preenchem; as relações sexuais adúlteras e promíscuas não nos preenchem; as comidas, bebidas e festas não nos preenchem; as roupas de marca, os paramentos luxuosos e caros, os altares ricamente ornamentados e as missas celebradas para cultuarem nosso próprio ego não nos preenchem; nem mesmo as reformas nas casas paroquiais e os carros novos que adquirimos nos preenchem. Tudo isso são cisternas furadas. Enquanto isso, nossa vocação murcha, definha, morre aos poucos, seca definitivamente, porque não cultivamos a nossa intimidade com Aquele que é fonte de água viva.
Há muitas outras coisas que precisariam ser abordadas sobre esse assunto do abandono do ministério, mas o espaço aqui não permite. Sendo assim, quero apenas considerar mais uma questão: nossa incapacidade de renúncia, de dizer “não” aos nossos desejos, aos nossos instintos, à nossa “carne”. O mundo no qual vivemos nos ensina que a coisa mais importante é ser feliz, é este “ser feliz” se traduz em deixar-se arrastar cegamente por suas emoções e seus desejos. Esta é uma felicidade profundamente egoísta: se para me sentir feliz eu precisar destruir meu casamento, ou o casamento de uma outra pessoa, ou prejudicar a Igreja da qual eu faço parte ou a qual eu represento, eu o faço sem nenhum sentimento de culpa, sem nenhum arrependimento.
Portanto, queridos irmãos leigos, vocês precisam estar cientes de que alguns de nós padres estamos tão doentes e mundanos quanto alguns de vocês estão. Embora o apóstolo Paulo tenha dito que não devemos nos “conformar com este mundo” (Rm 12,2), alguns de nós, que deveríamos nos portar como “homens de Deus”, decidimos tomar a forma do mundo e nos tornamos “homens mundanos”; melhor dizendo: “padres mundanos”. Enquanto um ou outro dentre nós tem perdido o sentido em ser padre, há alguns que, apesar de ainda se manterem padres, desviaram-se do modelo – Jesus Cristo, o verdadeiro Pastor – e se tornaram “ladrões e assaltantes” (Jo 10,1), e por isso estão precisando ser denunciados, afastados, interditados. E graças a vocês, cristãos leigos que têm amado a Igreja e cuidado dela mais do que alguns de nós, essa purificação está acontecendo.
Quero terminar esta reflexão com essas palavras do Pe. José A. Pagola: “Jesus se oferece como o caminho que podemos percorrer para entrar no mistério de um Deus que é Pai. São muitos hoje os homens e as mulheres que ficaram sem caminhos para Deus. Não são ateus. Nunca recusaram Deus de maneira consciente. Parecem ter abandonado a Igreja porque não encontraram nela um caminho atrativo para buscar com alegria o mistério último da vida que nós crentes chamamos ‘Deus’. A essas pessoas eu quero dizer que Jesus é maior do que a Igreja. Não deveis confundir Cristo com os cristãos (nem muito menos com os padres mundanos). Nem confundir o Evangelho com nossos sermões. Ainda que abandoneis tudo, não deveis ficar sem Jesus. Nele encontrareis o caminho, a verdade e a vida que nós não soubemos mostrar-vos”.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

QUEM SE DESVIA DAQUELES QUE NA TERRA SÃO INJUSTIÇADOS DESVIA-SE DO CÉU

Missa da Ascensão do Senhor. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 1,1-11; Efésios 1,17-23; Lucas 24,46-53.

            Ouvimos no texto dos Atos dos Apóstolos que Jesus “se mostrou vivo (aos discípulos) depois da sua paixão, com numerosas provas. Durante quarenta dias, apareceu-lhes falando do Reino de Deus” (At 1,3), e depois de ter-lhes prometido enviar o Espírito Santo, “foi levado ao céu, à vista deles. Uma nuvem o encobriu, de forma que seus olhos não mais podiam vê-lo” (At 1,9). Hoje celebramos aquilo que professamos em nossa fé: cremos que Jesus Cristo “subiu aos céus; está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso, de onde há de vir a julgar os vivos e os mortos”. A ascensão de Jesus é a sua elevação, a sua subida ao céu. Hoje, de maneira especial, é oportuno recordar o convite que o apóstolo Paulo nos fez no dia da Páscoa: “Esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde Cristo está, sentado à direita de Deus; aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres” (Cl 3,2).   
            Em cada um de nós, em cada ser humano, existe o terrestre e o celeste. Nós somos terrestres enquanto corpo, e o nosso corpo carrega consigo necessidades como comer, beber e proteger-se. Mas este mesmo corpo, por ser dotado de afetividade e de sexualidade, também pede intimidade, amor, carinho, afeto. Enfim, segundo a Bíblia, nós não somos somente corpo e alma (físico e psíquico); somos também espírito, e o nosso espírito anseia por Deus, clama pelo Transcendente. Dizendo de outra forma, nós estamos na terra, mas não somos meramente terrestres; nascemos na terra, mas estamos destinados ao céu. Dentro de cada ser humano existe um anseio, um desejo por Deus: “Minha alma suspira por ti, ó meu Deus! Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo” (Sl 42,2-3); “Minha alma tem sede de ti, minha carne te deseja com ardor, como terra árida, esgotada, sem água” (Sl 63,2).  
            Antes de subir ao céu, Jesus mandou Maria Madalena dizer aos discípulos: “Subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus” (Jo 20,17). Essas palavras significam que Jesus ligou o nosso destino ao seu: “Na casa do meu Pai há muitas moradas... Vou preparar-vos um lugar... Virei novamente e vos levarei comigo, a fim de que, onde eu estiver, estejais também vós” (Jo 14,2-3). Assim como Jesus não pertencia a este mundo, nós também não pertencemos (cf. Jo 17,14). Assim como Ele fez a sua Páscoa, nós um dia faremos a nossa. Assim como a ressurreição de Jesus envolveu todo o seu ser – corpo, alma e espírito – assim também nós seremos ressuscitados, pois está escrito: “Assim como trouxemos a imagem do homem terrestre, assim também traremos a imagem do homem celeste” (1Cor 15,49).    
            Voltemos à nossa profissão de fé: Jesus Cristo “subiu aos céus; está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso”. Por que Jesus subiu ao céu? Por que não ficou conosco aqui na terra? Na verdade, ele está conosco por meio do Espírito Santo, conforme a sua promessa: “Eu estarei convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28,20). Mas era preciso que Ele subisse ao céu por nossa causa: “Cristo entrou no céu a fim de comparecer na presença de Deus em nosso favor” (Hb 9,24). Desse modo, a subida de Jesus ao céu significa o fortalecimento da nossa esperança: “A esperança é para nós como uma âncora da alma, segura e firme, penetrando para além do véu, onde Jesus entrou por nós, como precursor” (Hb 6,19-20). Enquanto estivermos neste mundo, enfrentaremos momentos de tempestade, momentos em que o mar da vida estará muito agitado, mas nossa alma tem uma âncora, uma âncora segura e firme que nos liga ao céu, que liga o nosso destino ao de Jesus!
            Hoje é um dia oportuno para refletirmos sobre o céu. O que é o céu? O céu não é um lugar, mas uma situação, um estado de vida ou ainda um estado de espírito. Na verdade, o céu é uma Pessoa! Estar no céu é estar no coração de Deus; estar no céu é estar no colo do Pai, do Pai que prometeu enxugar as lágrimas de todos os rostos e remover para sempre a morte da face da terra: “Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor, e nem dor haverá mais” (Ap 21,4; cf. também Is 25,8.9). Este Pai que está no céu nos disse algo muito importante por meio do profeta Isaías: “Eu habito em lugar alto e santo, mas estou junto com o humilhado e desamparado, a fim de animar os espíritos desamparados, a fim de animar os corações humilhados” (Is 57,15).
            Ao celebrarmos a ascensão, a subida de Jesus ao céu, precisamos nos lembrar de que Aquele que subiu ao céu foi o mesmo que escolheu descer do céu para se colocar junto a toda pessoa que se encontrava no abismo do pecado, do sofrimento, da desorientação, da desolação, da injustiça e da morte. Por isso, Jesus deixou claro que a porta que nos dá acesso ao céu se chama caridade, solidariedade, socorro aos necessitados: “Eu estava com fome e me destes de comer” (Mt 25,35). Os pobres aos quais socorremos, são justamente eles que nos receberão nas moradas eternas (cf. Lc 16,9). Quem se desvia daqueles que na terra são injustiçados desvia-se do céu. É da terra que o ser humano toma impulso para chegar ao céu. Justamente por isso, Jesus se despede de seus discípulos com essas palavras: “Esperai a realização da promessa do Pai... Sereis batizados com o Espírito Santo, dentro de poucos dias... Recebereis o poder do Espírito Santo que descerá sobre vós, para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e na Samaria, e até os confins da terra” (At 1,4.5.8).
Ao voltar para o Pai, Jesus nos confiou uma missão: testemunhar o seu amor pela humanidade, especialmente pelos que sofrem; testemunhar o céu na terra, tornando-nos uma presença de Deus junto aos abatidos e humilhados; viver segundo o Espírito Santo, na verdade, na justiça e na santidade, mantendo-nos firmes na esperança de que o nosso homem terrestre será um dia revestido do homem celeste, e nós estaremos para sempre com o Pai, com o Filho e com o Espírito Santo, além daqueles que já partiram e já se encontram no céu, no coração do Pai. Em relação à dor e à saudade que sentimos dessas pessoas, lembremos as palavras de Carlos Drummond de Andrade: “Não importa a distância que nos separa, se existe um céu que nos une”.

            ORAÇÃO: Pai do céu, meu corpo está na terra, mas meu coração se eleva até o céu para clamar por toda a humanidade, especialmente pelos que se encontram abatidos, humilhados, injustiçados. Visita a nossa terra, desce aos nossos abismos; faça com que todo ser humano deseje o céu, se reconheça destinado ao céu.
            Senhor Jesus, nossa esperança está em Ti. Cremos que o Senhor está diante da face do Pai, orando por nós, pela salvação de cada ser humano. Ajuda-nos a reconhecer Tua presença em cada pessoa que sofre, que necessita da nossa caridade, da nossa defesa, do nosso socorro. Que o nosso “homem terrestre” se deixe conduzir pelo Espírito Santo, até que nos tornemos “homens celestes”, alcançando a meta para a qual fomos destinados: o céu, o coração de Deus, o colo do Pai.
            Divino Espírito Santo, água viva que escorre do trono do Pai e do coração do Filho, nós Te aguardamos e Te desejamos como terra árida, sedenta e sem água. Derrama-Te sobre nós! Alcança-nos e retira-nos do mais profundo do nosso abismo. Ilumina com a Tua verdade aquilo que temos de mais oculto e obscuro em nós mesmos. Configura-nos ao Filho Jesus, devolve-nos a filiação divina e destina-nos a todos ao céu. Amém!

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 23 de maio de 2019

NÃO DEFENDER-SE DA VIDA, MAS SIM DAQUILO QUE NOS INTIMIDA PERANTE A VIDA


Missa do 6º. dom. da Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 15,1-2.22-29; Apocalipse 21,10-14.22-23; João 14,23-29.

            O ventre da mãe que ama o filho que está gerando é um lugar confortável e seguro, mas chega o momento em que o filho precisa deixar o conforto e a segurança do ventre materno e vir ao mundo, para percorrer o caminho que foi chamado a percorrer e realizar a missão para a qual foi chamado à existência. Enquanto a indústria da propaganda e do consumo, associadas à tecnologia, nos vendem produtos que prometem tornar a nossa vida sempre mais confortável, os psicólogos e palestrantes sobre motivação e liderança nos ensinam que, se quisermos crescer, temos que sair da nossa “zona de conforto”, pois ela é o maior obstáculo ao nosso amadurecimento humano e espiritual.
            Jesus está se despedindo dos seus discípulos. Ele vai voltar ao Pai e de lá enviar o Espírito Santo à sua Igreja. Justamente por ser um momento difícil para os discípulos, Jesus lhes diz: “Não se perturbe nem se intimide o vosso coração” (Jo 14,27). É como se Jesus nos dissesse: ‘Eu escolhi e formei vocês como meus discípulos não para ficarem perturbados e intimidados pelos conflitos que terão que enfrentar no mundo, mas justamente para que vocês encarem a realidade e enfrentem os desafios como pessoas que estão abertas ao crescimento, ao amadurecimento, como pessoas que desejam viver a vida com realismo, intensidade e profundidade, e não fugir dela’. O discípulo de Jesus não é alguém alienado, que vive uma espiritualidade que o afasta da realidade e que o mantém distante do sofrimento das pessoas à sua volta; pelo contrário, o discípulo de Jesus é alguém que se deixa questionar pela realidade para perceber nela o que Deus está lhe dizendo e realizar plenamente a sua missão.
            Por mais estranho que pareça, Jesus está dizendo aos discípulos que chegou a hora de fazer uma inversão. Até agora, eles estavam sendo gestados no coração do Pai e do Filho, mas a hora do parto está chegando e ela trará uma mudança importante: o Pai e o Filho passarão a habitar o coração dos discípulos por meio do Espírito Santo, capacitando-os assim para a missão. É por isso que Jesus diz: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada” (Jo 14,23). Deus não quer apenas estar perto de nós ou junto a nós; Ele deseja habitar em nós, morar em nosso coração, no coração de cada ser humano. E quando o Pai e o Filho habitam no coração humano, ele se torna pleno de paz.  
            “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; mas não a dou como o mundo” (Jo 14,27). A paz que o mundo nos promete depende de inúmeras condições externas: se tivermos saúde e dinheiro, se formos notados e valorizados pelos outros, se não tivermos dificuldades ou obstáculos, se não houver inimigos a combater e problemas a resolver, só então experimentaremos paz. Mas a paz de Jesus não depende de nenhuma circunstância externa; ela é fruto da harmonia interna conosco mesmos, com a nossa verdade e com a vontade de Deus. Santo Agostinho dizia que o nosso coração foi feito para Deus e só achará paz quando estiver em Deus. Quando o Pai e o Filho habitam em nós, nenhum acontecimento externo tira a nossa paz, mesmo porque o Pai e o Filho nos orientam e nos fortalecem diante dos desafios que a vida nos apresenta. Além disso, lembremos do discernimento de Santo Inácio de Loyola a respeito da paz: sempre que alinhamos o nosso coração à vontade de Deus, nos sentimos em paz; sempre que nos afastamos da vontade de Deus, a paz vai embora e no lugar dela vêm a perturbação, a inquietação, a ansiedade e o medo.  
            O Tempo Pascal caminha para o seu final e se encerrará com a festa de Pentecostes, na qual se deu a vinda do Espírito Santo. Por isso, hoje acolhemos com alegria esta promessa de Jesus: “o Defensor, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos tenho dito” (Jo 14,26). Jesus chama o Espírito Santo de “Defensor”, no sentido de que Ele estará sempre ao nosso lado nas lutas do dia a dia, orientando-nos, protegendo-nos, fortalecendo-nos. Aqui é oportuno recordar a palavra do apóstolo Paulo a Timóteo: “Deus não nos deu um espírito de medo, mas um espírito de força, de amor e de autodomínio” (2Tm 1,7). Justamente porque não é um espírito de medo, mas de força, o Defensor que Jesus nos prometeu não nos defenderá daquilo que temos que enfrentar, mas nos encherá de coragem e nos lançará para frente, para superarmos os obstáculos e continuarmos em nosso caminho de crescimento, de amadurecimento, de libertação e de santificação.   
Todo ser humano, mas sobretudo todo cristão, tem um combate a combater, e não se trata apenas de um combate em vista da sobrevivência neste mundo, mas em vista do fortalecimento da nossa fé e dos nossos passos no caminho da salvação. Justamente porque a nossa luta é espiritual, nosso Defensor é o Espírito de Deus. Ele nos ensinará aquilo que ainda temos que aprender – e nós sempre temos o que aprender! – e também nos recordará tudo aquilo que Jesus já nos ensinou, para que em cada situação possamos agir como Jesus agiria se estivesse em nosso lugar.   
Foi justamente no momento em que nos ensinou a oração do Pai nosso que Jesus afirmou: “o Pai dará o Espírito Santo aos que o pedirem” (Lc 11,13). Sendo assim, nós oramos: ‘Pai, em nome de teu Filho Jesus, pedimos a presença do Espírito Santo junto a nós, junto a todo ser humano, especialmente junto a cada coração que se encontra perturbado e intimidado diante dos problemas, das angústias, das incertezas e das ameaças do mundo atual. Confirma a graça do Teu Espírito em nós! Divino Espírito Santo, vem com a Tua força socorrer a nossa fraqueza. Tu és o nosso Defensor! Defende-nos do inimigo espiritual, que combate contra a nossa fé. Defende-nos de nós mesmos, do nosso medo, da nossa covardia, da nossa indiferença e da nossa acomodação egoísta. Defende-nos do pecado, da infidelidade, da desonestidade, da corrupção e da perda de sentido da vida. Defende-nos da violência, das guerras, da fome, do desemprego, das drogas e das doenças... Em nome de Jesus, que nos prometeu a Tua vinda, amém!     

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 16 de maio de 2019

SÓ O AMOR NOS SALVARÁ

Missa do 5º. dom. da Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 14,21b-27; Apocalipse 21,1-5a; João 13,31-33a.34-35.

            “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13,34-35). Jesus disse essas palavras num discurso de despedida dos discípulos, como se dissesse: ‘Cuidem da essência de vocês! Cuidem daquilo que é essencial na Igreja que eu construí a partir de vocês! Cuidem de não perder a identidade de vocês! Muita coisa mudará ao longo dos anos, ao longo dos séculos; muita coisa mudará na humanidade, no mundo e na própria Igreja, mas uma coisa não pode mudar, não pode se perder: a essência de vocês como meus discípulos. Amem os outros como eu amei vocês!’.
            Antes de nos esforçarmos em viver o mandamento do amor, precisamos compreender melhor o que é o amor. “Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e enviou-nos seu Filho... E nós temos reconhecido o amor de Deus por nós e nele cremos” (1Jo 4,10.16). João nos revela que a nossa existência não se deve tanto ao amor entre um homem e uma mulher – muitos não foram gerados de um ato de amor – mas se deve ao Deus que é amor (cf. 1Jo 4,8). O amor de Deus estava à nossa espera antes de virmos a este mundo, e esse mesmo amor estará à nossa espera depois que deixarmos este mundo. Também o livro da Sabedoria afirma: “Sim, tu amas tudo o que criaste, (...) se alguma coisa tivesses odiado, não a terias feito” (Sb 11,24).
            A essência de Deus é amor e nós fomos criados à sua imagem e semelhança. Quando desistimos de amar, traímos nossa essência, adoecemos e começamos a morrer. É por isso que João afirma: “Aquele que não ama permanece na morte” (1Jo 3,14). Aquele que não ama ainda não ressuscitou. O problema não é que não existe amor em nós; o problema é que o nosso amor é frágil, inconsistente, um amor que se desfaz com facilidade, como o próprio Deus afirma: “O amor de vocês é como a neblina da manhã, como o orvalho que rapidamente desaparece” (Os 6,4). Diante de uma experiência de traição, de decepção, de não correspondência das nossas expectativas, de não retorno do nosso investimento, nós desistimos de amar. Nos esquecemos de que “amar não é um sentimento, mas uma decisão, uma escolha” (Santa Edith Stein), e não existe amor sem dor.  
            Não existe amor sem dor. Paulo e Barnabé procuravam encorajar as pessoas do seu tempo “a permanecerem firmes na fé, dizendo-lhes: ‘É preciso que passemos por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus’” (At 14,22). Por causa da maldade e da violência que existem no mundo, muitas pessoas estão deixando de crer e de amar. Está se tornando cada vez mais difícil encontrar pessoas que ainda decidam e queiram amar. Mas aqui precisamos lembrar as palavras do apóstolo Paulo: “Se eu não tivesse amor, nada seria... O amor tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Cor 13,2.7). Da mesma que Jesus amou seus discípulos até o fim (cf. Jo 13,1), nós também somos chamados a amar: até o fim. Além disso, o que movia o amor de Jesus não era o merecimento, mas a necessidade da pessoa. O amor ama preferencialmente aquele que sofre. É o sofrimento do meu irmão que me leva a amá-lo de maneira mais intensa e profunda.     
            Voltemos novamente a olhar para o amor de Deus. No livro do profeta Isaías há uma afirmação importante a respeito de como Deus escolheu e decidiu nos amar: “Os montes podem mudar de lugar e as colinas podem abalar-se, porém meu amor não mudará” (Is 54,10). Muitas certezas que tínhamos ontem desapareceram; muitos sonhos e muitas esperanças que ontem nos animavam, evaporaram-se. Muita coisa pode ter mudado ao longo da nossa vida, mas há uma certeza que jamais mudará: o amor de Deus por nós, pela humanidade, por cada ser humano. É sobre a rocha dessa certeza inabalável que precisamos construir a nossa existência e nos unir a Deus na construção de um mundo novo, apresentado por João no livro do Apocalipse.
            Num momento de forte perseguição para a Igreja e para os cristãos, Jesus ressuscitado concedeu a João uma visão, testemunhada por ele nessas palavras: “Vi um novo céu e uma nova terra... Vi a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, de junto de Deus... Então, ouvi uma voz forte que saía do trono e dizia: ‘Esta é a morada de Deus entre os homens... Deus enxugará toda lágrima dos seus olhos. A morte não existirá mais, e não haverá mais luto, nem choro, nem dor, porque passou o que havia antes... Eis que faço novas todas as coisas’” (Ap 21,1.2.3.4.5). Aqui entendemos porque o apóstolo Paulo afirmou que “o amor tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Cor 13,2.7): ele está assentado sobre essas palavras do Apocalipse, “dignas de fé e verdadeiras” (Ap 21,5), conforme o Senhor ressuscitado disse a João. Enfim, lembremos de que o mesmo Jesus que nos convida a amar as pessoas como ele nos amou, também nos fez um alerta: “A maldade crescerá a tal ponto que o amor de muitos se esfriará. Aquele, porém, que perseverar até o fim, esse será salvo” (Mt 24,12-13). Só o amor nos salvará.

Pe. Paulo Cezar Mazzi 


Frases de Madre Teresa de Calcutá sobre o amor

O senhor não daria banho a um leproso nem por um milhão de dólares? Eu também não. Só por amor se pode dar banho a um leproso.

É fácil amar os que estão longe. Mas nem sempre é fácil amar os que vivem ao nosso lado.

A falta de amor é a maior de todas as pobrezas.

Não é o que você faz, mas quanto amor você dedica no que faz que realmente importa.

O amor, para ser verdadeiro, tem de doer. Não basta dar o supérfluo a quem necessita, é preciso dar até que isso nos machuque.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

ÀS MÃOS DE QUEM EU ME CONFIO A CADA DIA?

Missa do 4º. dom. da Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 13,14.43-52; Apocalipse 7,9.14b-17; João 10,27-30.

            Quem conduz você? Por quem ou pelo quê você se deixa conduzir no mundo de hoje? Na verdade, nós não gostamos de “ser conduzidos”. Por nos julgarmos pessoas autônomas e livres, queremos nos conduzir por nós mesmos. No entanto, a liturgia deste quarto domingo da Páscoa nos fala de Jesus como nosso Pastor e de nós mesmos como ovelhas do seu rebanho, e a imagem da ovelha remete para uma verdade que precisamos admitir: todos nós buscamos uma direção, todos nós precisamos de algo ou de alguém que nos conduza, sobretudo neste tempo de grande desorientação em que vive a humanidade. Desse modo, cada um de nós poderia fazer sua esta súplica que o salmista dirige a Deus: “Eu me desvio como ovelha perdida: vem procurar o teu servo!” (Sl 119,176).  
            O Pai enviou seu Filho como modelo de verdadeiro e bom Pastor, aquele que veio curar a ovelha que está doente, procurar e salvar aquela que se encontra perdida, trazer de volta aquela que se desgarrou do rebanho, proteger aquela que está em perigo, corrigir aquela que está se comportando de maneira inconsequente, até mesmo quebrando sua pata, se for necessário, para que aprenda a ficar junto do Pastor e pare de se expor desnecessariamente a situações de risco. Mas o próprio Jesus deixa claro que só existe uma coisa que liga a ovelha ao Pastor: escutar e obedecer a sua voz: “As minhas ovelhas escutam a minha voz” (Jo 10,27).   
            Escutar Jesus no Evangelho pode parecer algo fácil, mas não é, sobretudo quando sua Palavra denuncia as nossas atitudes injustas, nos torna conscientes dos nossos erros ou vai contra os nossos interesses mundanos. A experiência de Paulo e Barnabé em Antioquia da Pisidia revelou isso: enquanto muitos judeus rejeitaram a pregação deles e se tornaram indignos da vida eterna (cf. At 13,46), muitos pagãos acolheram a Palavra, de modo que Lucas, autor dos Atos, afirma: “todos os que eram destinados à vida eterna, abraçaram a fé” (At 13,48). Portanto, quando não damos ouvidos à voz de Jesus, nosso Pastor, acabamos por nos excluir da vida eterna.
            Muitas igrejas estão sofrendo hoje uma crise muito séria, quando se trata da figura do pastor. Muitos pastores deixaram de lado o ideal de se configurarem a Jesus, o Bom Pastor, e acabaram se tornando ladrões, assaltantes ou mercenários (cf. Jo 10,1.12-13), isto é, pastores que têm como interesse principal não o bem das ovelhas, mas enriquecer-se desonestamente às custas da ingenuidade religiosa delas. Outros se tornaram “guias cegos”, pastores desorientados internamente, alguns viciados em bebida ou em droga; outros, viciados em jogos ou em pornografia. São autoridades moralmente desautorizadas, homens incapazes de conduzir pessoas para Deus porque nem eles mesmos se esforçam por viver em Deus: além de não terem vida de oração séria e profunda, não se esforçam por viver aquilo que pregam aos outros. Por fim, existem os pastores vagabundos, aqueles que estão sempre “muito atarefados em não fazer nada” (2Ts 3,11). Se não cuidam com zelo e dedicação das ovelhas que ainda estão junto deles, imagine se eles se darão ao trabalho de irem atrás daquelas que estão afastadas!    
            Contudo, diante da atual crise de bons e verdadeiros pastores, precisamos tomar cuidado para não jogar fora o bebê junto com a água do banho. Neste sentido, creio que as palavras do Pe. Pagola podem nos ajudar: “Que nós estejamos em crise, não significa que Deus está em crise. Que muitos cristãos tenham perdido o ânimo, não quer dizer que Deus tenha ficado sem forças para salvar. Que nós não saibamos dialogar com o homem de hoje, não significa que Deus não encontre caminhos para falar ao coração de cada pessoa. Que algumas pessoas se afastem das nossas igrejas, não quer dizer que elas não possam ser alcançadas pelas mãos protetoras de Deus. Deus é Deus. Nenhuma crise religiosa e nenhuma mediocridade da Igreja poderão arrancar das suas mãos os filhos e filhas que ele ama com amor infinito. Deus não abandona ninguém. Ele tem seus caminhos para cuidar e guiar cada um dos seus filhos, e seus caminhos não são necessariamente aqueles que nós pretendemos traçar”.
            Jesus deixa claro que, como verdadeiro Pastor, ele vigia, guia e protege cada ovelha do rebanho que o Pai lhe confiou: “Eu dou-lhes a vida eterna e elas jamais se perderão. E ninguém vai arrancá-las de minha mão. Meu Pai, que me deu estas ovelhas, é maior que todos, e ninguém pode arrebatá-las da mão do Pai” (Jo 10,28-29). No meio desse imenso rebanho que é a humanidade, é cada vez mais perceptível a presença de lobos, isto é, de pessoas e de situações que ameaçam a nossa vida. Nunca como hoje temos sentido tanto medo, tanta insegurança, tão ameaçados. Nosso nível de ansiedade – sentimento de ameaça, de que algo ruim vai nos acontecer – está cada vez mais alto. Mas, assim como Paulo disse a Timóteo: “sei em quem coloquei a minha fé” (2Tm 1,12), nós precisamos dizer: ‘sei nas mãos de quem eu confiei a minha vida’.
            É muito confortadora esta verdade: o Pai confiou cada um de nós às mãos de seu Filho, e ninguém pode nos arrancar das mãos de Jesus. Isso é confirmado pelo livro do Apocalipse: “E aquele que está sentado no trono os abrigará na sua tenda. Nunca mais terão fome, nem sede. Nem os molestará o sol, nem algum calor ardente. Porque o Cordeiro, que está no meio do trono, será o seu pastor e os conduzirá às fontes da água da vida” (Ap 7,15-17). Contudo, se é verdade que nenhum acontecimento ruim, nenhum problema e nenhuma pessoa pode nos arrancar das mãos de Jesus, também é verdade que algumas pessoas, ao invés de se confiarem às mãos de Jesus, estão se confiando a mãos erradas, permitindo que pessoas e situações as adoeçam, as machuquem e as levem para a destruição e morte... Cada ovelha é livre para escolher a quais mãos confiar-se...
            Uma verdade precisa ser recuperada e meditada neste Evangelho: “Meu Pai é maior do que todos, e ninguém pode arrancar pessoa alguma das mãos do Pai” (citação livre de Jo 10,29). Precisamos não ser ingênuos diante dessa afirmação de Jesus: basta nos confiar ou confiar aqueles que amamos às mãos do Pai e do Filho e nada de mal acontecerá. Quantas vezes, na oração, confiamos às mãos do Pai e do Filho pessoas que amávamos, mas elas foram arrancadas de nós através de uma doença, de um acidente ou da violência cega dos lobos que intimidam e controlam até mesmo as autoridades em nosso País? As mãos do Pai e do Filho nunca vão anular o fato de que, enquanto estivermos neste mundo, sempre seremos cordeiros vivendo no meio de lobos, e o perigo maior não é o de sermos atacados por algum lobo, mas o de nos transformarmos em lobos por uma questão de sobrevivência.
            “Meu Pai é maior do que todos”. Deus é maior que tudo o que nos acontece. Ele nos confiou aos cuidados de Jesus, o Bom Pastor. Ainda que passemos pelo vale escuro da morte, ainda que sejamos machucados por algum lobo, não devemos temer, pois o bastão e o cajado do nosso Pastor nos protegerão, nos defenderão e nos darão segurança para continuarmos o nosso caminho rumo aos prados da vida eterna (cf. Sl 23,4; Ap 7,17). Enfim, que a nossa comunidade se configure ao Bom Pastor, dispondo-se a ir atrás de cada ovelha que se afastou ou se perdeu, para trazê-la de volta (cf. Mt 18,12-14), pois “não é da vontade do vosso Pai, que está nos céus, que um desses pequeninos se perca” (Mt 18,14).

Pe. Paulo Cezar Mazzi