quinta-feira, 21 de março de 2019

TODA TRAGÉDIA TEM ALGO A NOS DIZER

Missa do 3º. dom. da quaresma. Palavra de Deus: Êxodo 3,1-8a.13-15; 1Coríntios 10,1-6.10.12; Lucas 13,1-9

            Uma das perguntas mais antigas da humanidade é esta: “Por que algumas pessoas sofrem mais do que outras?” Ou então: “Por que meu casamento não deu certo, mas o dos outros deu?” Ou ainda: “Por que meu filho morreu de câncer ou de acidente, mas os filhos dos outros estão vivos e esbanjando saúde?” Por trás da pergunta “por quê?” há uma outra pergunta: “De quem é a culpa?”, ou então, “Quem é o responsável pelas tragédias que atingem algumas pessoas?”
            Desde a época de Jesus até hoje, muitas pessoas julgam ter encontrado a resposta para essas perguntas: “Deus é o responsável pelo mal que existe no mundo, e Ele envia o mal para punir toda pessoa que peca”. Portanto, quando alguma tragédia atinge determinadas pessoas é porque aquelas pessoas fizeram por merecer; elas tinham alguma culpa e esta culpa tinha que ser expiada, redimida, através daquele sofrimento. 
            Jesu rejeita totalmente essa teoria. Assim como de uma fonte de água não tem como jorrar água doce e salgada, assim também é com Deus: Ele é amor, Pai rico em misericórdia e em perdão. Ele não se alegra com a morte do pecador, mas deseja que ele se converta e viva (cf. Ez 18,23). Além disso, todos nós estamos num mundo onde o mal encontra espaço de sobra para agir, e Deus não vai colocar uma redoma de vidro para proteger alguns das tragédias e deixar propositalmente outros expostos a essas mesmas tragédias. Ao invés de julgarmos as pessoas atingidas por tragédias merecedoras das mesmas, devemos refletir seriamente sobre essas palavras de Jesus: “Se vocês não se converterem, morrerão todos do mesmo modo” (Lc 13,3.5).
            No início da quaresma, meditamos sobre a importância da conversão por meio de um exemplo muito simples: se você se dá conta de que está dirigindo seu carro numa estrada que vai terminar num abismo, você mudaria de direção? Embora a resposta pareça óbvia, não são poucas as pessoas que se recusam a mudar suas atitudes, mesmo sabendo que a vida delas está caminhando na direção de um abismo. Na Sagrada Escritura, essa mudança de atitude, essa mudança de direção, se chama conversão. Pelo fato de Deus ser amor, misericórdia e perdão, muitas pessoas escolhem adiar sua conversão e continuarem numa situação de pecado, situação que, de alguma forma, lhes proporciona alguma vantagem. No entanto, Jesus diz claramente: “Mude, antes que seja tarde! Pare de ser irresponsável com sua vida. Você está se destruindo! Você está criando condições para que a destruição atinja sua família, aquilo que você mais ama!”
            O salmo de hoje nos fala de Deus como Aquele que “perdoa toda a tua culpa... O Senhor é indulgente, é favorável, é paciente, é bondoso e compassivo” (Sl 103,3.8). Mas tome cuidado: existe perdão para uma pessoa que erra, que se engana, que faz algo errado por ignorar o erro que está cometendo, mas não existe perdão para quem sabe que está errado e não aceita mudar suas atitudes. A graça de Deus sempre respeita a nossa natureza, a nossa liberdade. Deus não pode me mudar se eu não quero mudar. Portanto, quando Jesus afirma: “Se vocês não se converterem, morrerão todos do mesmo modo” (Lc 13,3.5), está nos tornando conscientes disso: não existe perdão para quem, sabendo que está errado, não aceita mudar suas atitudes; não existe perdão para quem faz corpo mole, para quem é preguiçoso e para quem tem má vontade em mudar suas atitudes. A vida sempre nos confrontará com as consequências das nossas atitudes.  
            Diante de todo ser humano, Jesus sempre procurou agir com misericórdia e amor, apostando na sua capacidade de mudança, de conversão, de regeneração. De fato, Jesus não veio quebrar a cana que estava rachada, nem veio apagar o pavio que ainda fumegava (cf. Is 42,3). No entanto, após semear sua Palavra em nossa consciência, após ter adubado devidamente as raízes da árvore que somos, ele tem todo o direito de nos cobrar os frutos de que somos capazes de produzir. Eis, portanto, a parábola que ele nos conta no final do Evangelho de hoje: “Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi até ela procurar figos e não encontrou. Então disse ao vinhateiro: ‘Já faz três anos que venho procurando figos nesta figueira e nada encontro. Corta-a! Por que está ela inutilizando a terra?’” (Lc 13,6-7).
            Há quanto tempo a vida tem dado sinais de que você precisa mudar suas atitudes? Quantas tragédias ainda serão necessárias para você se dar conta de que está se destruindo, ou destruindo pessoas à sua volta? Deus plantou você neste mundo como uma árvore fecunda, capaz de produzir bons frutos. Até quando você vai se comportar na vida como uma árvore inútil, que tem preguiça de fazer o bem de que é capaz? Um dia eu e você seremos cortados da terra, isto é, seremos recolhidos por Deus. Como nos apresentaremos diante d’Ele: com as nossas mãos vazias ou com as nossas mãos cheias das boas atitudes que tomamos em favor do bem da humanidade?
            Diante da iminência de se cortar a figueira que não estava produzindo frutos, o servo sugeriu: “Senhor, deixa a figueira ainda este ano. Vou cavar em volta dela e colocar adubo. Pode ser que venha a dar fruto. Se não der, então tu a cortarás” (Lc 13,8-9). Este servo representa Jesus. Ele é não somente nosso intercessor junto do Pai, mas também aquele que diariamente lança o adubo do Evangelho nas raízes da nossa consciência, na esperança de que voltemos a produzir frutos, fazendo o bem que somos capazes de fazer. Temos mais este ano, mais esta quaresma, mais um tempo para sairmos da nossa preguiça espiritual e nos dedicarmos com seriedade à nossa conversão. Quando menos imaginarmos, este tempo terminará e o Senhor nos visitará. Será a hora do nosso julgamento. Que ele seja um julgamento de salvação e não de condenação.   

            ORAÇÃO: Deus Pai, Tu és misericórdia e perdão; és bondoso e paciente. Peço-Te perdão por ter julgado as pessoas que morreram vítimas de tragédias como mais pecadoras do que eu. Diante dos acontecimentos que se dão todos os dias, ensina-me a ouvir o que estás querendo me dizer, em vista da minha conversão e salvação.
            Senhor Jesus, Tu és a presença da misericórdia do Pai em nosso meio. Muito obrigado por Tua intercessão diante d’Ele em favor da minha salvação. Eu acolho com alegria o adubo do Teu Evangelho nas raízes da árvore da minha vida, na esperança de que ela volte a produzir frutos que comprovem a minha conversão.
            Espírito Santo, visita-me na minha infertilidade. Neste tempo de outono, quando as folhas começam a cair e as árvores começam a dormir, que a minha consciência se mantenha desperta e que a graça da Tua fecundidade abençoe meus pensamentos, meus sentimentos e minha atitudes, ajudando-me a produzir os frutos de que sou capaz, para a salvação minha e da humanidade. Amém.

Pe. Paulo Cezar Mazzi 

quinta-feira, 14 de março de 2019

A ORAÇÃO NOS TRANSFIGURA QUANDO NOS ABRE À VONTADE DO PAI

Missa do 2º. dom. da quaresma. Palavra de Deus: Gênesis 15,5-12.17-18; Filipenses 3,17 – 4,1; Lc 9,28b-36.

            “Quem vê cara, não vê coração”. Este ditado nos ensina que a aparência muitas vezes nos engana. Para conhecer uma pessoa, é preciso ver não o que ela aparenta ser, mas ver as suas atitudes, o seu comportamento. “Quem vê cara, não vê coração”. No entanto, o rosto reflete o estado da alma: se estamos alegres ou tristes, tranquilos ou preocupados, serenos ou angustiados, isso se reflete em nosso rosto.
            Como está o rosto das pessoas à nossa volta? Quando olhamos o rosto delas nas redes sociais, nós as vemos sempre felizes e sorrindo; mas quando olhamos esse rosto ao vivo, no dia a dia, ele muitas vezes se apresenta bem diferente, pois o coração está tomado de preocupação e ansiedade, de medo e de incerteza, de tristeza e de angústia.
            O Evangelho de hoje nos fala da transfiguração do rosto de Jesus. Ele havia acabado de anunciar aos discípulos que deveria sofrer muito em Jerusalém, ser morto, mas que ressuscitaria ao terceiro dia (cf. Lc 9,22). Essas palavras certamente provocaram tristeza no coração dos discípulos, desfigurando o rosto deles e o do próprio Jesus. Então, “mais ou menos oito dias depois dessas palavras, Jesus levou consigo Pedro, João e Tiago, e subiu à montanha para rezar. Enquanto rezava, seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante” (Lc 9,28-29).
            Na quarta-feira de cinzas, Jesus nos falou a respeito da atitude correta na oração – entrar no quarto da nossa consciência, fechar a porta para todo barulho exterior, e orar ao Pai que se encontra no mais íntimo de nós mesmos (cf. Mt 6,6). Na última terça, Jesus nos ensinou a oração do Pai Nosso (cf. Mt 6,9-13). Na última quinta, ele nos falou da importância de rezarmos com absoluta confiança no Pai (cf. Mt 7,7-11), e no Evangelho de hoje, Jesus nos mostra o efeito da oração em nossa vida: ela nos transfigura; ela transforma o nosso rosto entristecido, angustiado e preocupado num rosto alegre, sereno e confiante.
            O que aconteceu enquanto Jesus rezava? O mesmo que aconteceu com Abraão. Num momento de grande angústia e de incerteza, quando Abraão começava a desacreditar da promessa divina de se tornar pai de uma grande multidão, “o Senhor conduziu Abraão para fora e disse-lhe: ‘Olha para o céu e conta as estrelas, se fores capaz!’ E acrescentou: ‘Assim será a tua descendência’” (Gn 15,5). Quando estamos angustiados, tristes e preocupados, ficamos fechados em nossa própria dor, nos sentindo como se estivéssemos trancados num quarto escuro, sem conseguirmos achar a porta de saída. Mas a oração tem esse poder de nos conduzir para fora desse lugar. A oração tem esse poder de tirar os nossos olhos daquele horizonte estreito do nosso problema, e de dirigi-los para o céu, para a infinidade das estrelas que brilham no escuro, lembrando-nos de que “Deus tem o poder de realizar por nós infinitamente além do que podemos pedir ou conceber, mediante o seu poder que age em nós” (Ef 3,20).  
            O rosto de Jesus se transfigurou porque, enquanto rezava, o Pai o conduziu para fora da sua angústia e da sua tristeza e fez também com que Pedro, Tiago e João, antes angustiados e tristes com a notícia da morte de Jesus, agora pudessem ver a sua glória (cf. Lc 9,32). Mas, será que a oração tem mesmo esse poder mágico de transformar rapidamente um rosto desfigurado num rosto transfigurado? Na verdade, não. O que acontece é que, quando nossa oração é verdadeira, sincera, bem feita, nós saímos dela dispostos a fazer a vontade de Deus e é isso que transfigura o nosso rosto, porque devolve paz ao nosso coração. Sempre que nos afastamos da vontade de Deus, começamos a perder a paz de espírito, e essa perda de paz se reflete em nosso rosto. Por outro lado, sempre que, por meio da oração, voltamos a alinhar o nosso coração ao coração de Deus, acolhendo e abraçando a sua vontade, voltamos a sentir paz, e o nosso rosto consequentemente irradia essa paz.
            No final do Evangelho, São Lucas mostra que a oração de Jesus não trouxe benefícios apenas a ele; ela também fez com que a nuvem da presença de Deus envolvesse Pedro, Tiago e João. Na oração, nós subimos a Deus e Ele desce a nós, nos envolvendo na sua Presença misteriosa, uma Presença que não podemos tocar, mas que nos envolve na verdade do seu amor e da sua graça para conosco. “Da nuvem... saiu uma voz que dizia: “Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutai o que ele diz!’” (Lc 9,35). Se, na oração, nós desejamos ter um contato direto com Deus e receber respostas diretas para as questões que nos angustiam, o Pai nos convida a escutar o que o seu Filho nos diz no Evangelho de cada dia.
Enfim, se Pai nos convida a escutar seu Filho, o Filho, por sua vez, escuta o Pai na oração, e porque o escuta, seu rosto se transfigura. Nós, escutando o Filho, podemos ter também a nossa vida transfigurada ao menos momentaneamente, pois a nossa transfiguração definitiva e completa se dará no momento da ressurreição, como indica o apóstolo Paulo: “De lá (do céu) aguardamos o nosso Salvador, o Senhor, Jesus Cristo. Ele transformará o nosso corpo humilhado e o tornará semelhante ao seu corpo glorioso, com o poder que tem de sujeitar a si todas as coisas” (Fl 3,20-21).

                ORAÇÃO: Pai, as preocupações e angústias do tempo presente me fazem sentir-me dentro de um quarto escuro, sem que eu veja uma saída. Peço-Te: conduz-me para fora como conduziste Abraão, e faz-me erguer os olhos para contemplar as estrelas do céu, pois eu creio que tens o poder de fazer por mim infinitamente além do que posso pedir ou imaginar.
            Senhor Jesus Cristo, nas noites escuras da minha vida, leva-me contigo à presença do Pai. Concede-me um coração verdadeiramente orante, capaz de apresentar ao Pai tudo aquilo que aflige a minha alma, depositando nas mãos d’Ele minhas preocupações. Mais do que isso, que a minha oração seja tão verdadeira e tão eficaz, que eu possa sair dela disposto(a) a abraçar a vontade do Pai em minha vida.
            Espírito Santo, Tu és a força de Deus que transfigura a partir de dentro tudo aquilo que está desfigurado. Vem sobre nós com o Teu poder! Transfigura-nos na imagem do Filho Jesus, e faz de cada um de nós uma presença capaz de transfigurar o ambiente em que nos encontramos, ajudando cada pessoa a reencontrar a sua alegria e a sua paz na conformação da sua vida à vontade do Pai. Amém.

Pe. Paulo Cezar Mazzi 

quinta-feira, 7 de março de 2019

UM DIÁLOGO QUE ACONTECE DENTRO DE NÓS TAMBÉM

Missa do 1º. dom. da quaresma. Palavra de Deus: Deuteronômio 26,4-10; Romanos 10,8-13; Lucas 4,1-13.

            Na última quarta-feira, iniciando o nosso tempo de quaresma, Jesus nos convidou a rever o nosso relacionamento com o próximo (esmola), conosco mesmos (jejum) e com Deus (oração). Sobre este último, Jesus nos deu uma dica: “Quando você orar, entre no seu quarto, feche a porta, e reze ao seu Pai que está oculto” (Mt 6,6). Deus pode ser encontrado no quarto da nossa consciência. Quando entramos ali e fechamos a porta para todo barulho exterior, podemos ouvir Sua voz. Mas ali também costuma falar conosco uma outra voz, a  voz do maligno, do tentador, a mesma voz que falou com Jesus na sua quaresma, para tentar desviá-lo do caminho de Deus.
“O antigo inimigo, ‘disfarçando-se em anjo de luz’ (2Cor 11,14) não cessa de armar por toda parte as ciladas da mentira e de procurar de todo modo corromper a fé dos crentes. Sabe a quem incutir o ardor da cobiça, a quem oferecer os atrativos da gula, a quem inflamar com a luxúria, em quem infiltrar o veneno da inveja. Sabe a quem perturbar com a tristeza, a quem iludir com a alegria, a quem oprimir com o temor, a quem seduzir pela vaidade. Observa os costumes de todos, investiga as preocupações, perscruta os sentimentos; e procura meios de fazer mal onde vê alguém ocupar-se em algo com interesse” (São Leão Magno). Essas palavras de São Leão Magno nos tornam conscientes de que o tentador conhece cada um de nós; ele sabe onde se encontra o nosso ponto fraco; ele sabe de quê maneira nos tentar.
O Evangelho afirma que Jesus “foi tentado pelo diabo durante quarenta dias” (Lc 4,2), uma indicação simbólica para falar que Jesus, assim como qualquer ser humano, foi tentado durante toda a sua vida. Não é que o maligno nos tente 24 horas por dia. O diabo esperou Jesus sentir fome, para começar a tentá-lo. O maligno sabe a hora certa de nos tentar: a hora em que nos sentimos carentes, em que não estamos bem, em que sentimos falta de alguma coisa. E sua proposta é muito prática: “(...) manda que esta pedra se transforme em pão” (Lc 4,3).
Por trás desta primeira tentação está a proposta enganadora de que você não precisa sentir fome, não precisa sofrer carência alguma. Sua fome é legítima e você tem o direito de satisfazê-la, não importa como; os fins justificam os meios. Desse modo, nós nos tornamos pessoas meramente instintivas. Nossa fome manda em nós. Nossa carência determina nossas atitudes. Tudo o que existe e todas as pessoas à nossa volta se tornam “pães” a serem comidos, devorados, consumidos por nós.  
Para não cairmos nessa tentação, Jesus nos adverte: “Não só de pão vive o homem” (Lc 4,4). Existe uma fome em nós que nem a comida, nem o dinheiro, nem o sexo podem saciar. A carência e o vazio que às vezes sentimos apontam na direção de Deus. Sempre que damos uma resposta errada ao nosso vazio aumentamos ainda mais o nosso vazio. Por isso, é importante dialogar com a nossa fome, com a nossa carência, e identificar do quê realmente estamos famintos, sedentos e como podemos lidar com essa necessidade sem nos intoxicar com coisas que nos fazem mal.  
Eis a segunda tentação: “O diabo levou Jesus para o alto, mostrou-lhe por um instante todos os reinos do mundo e lhe disse: ‘Eu te darei todo este poder e toda a sua glória (...). Portanto, se te prostrares diante de mim em adoração, tudo isso será teu’” (Lc 4,5-7). Nós não gostamos de nos sentir fracos, pequenos e também não gostamos de ser ignorados pelo mundo. É por isso que não resistimos a essa tentação, pois o tentador nos promete força, poder, grandeza, glória, projeção social; ele nos promete tirar do lugar baixo e insignificante em que julgamos estar e nos colocar no topo, no lugar mais alto, onde seremos vistos e aplaudidos por todo o mundo. E quando caímos nessa tentação, nos afastamos das nossas raízes; somos levados pela mania de grandeza e, na hora em que menos imaginamos, despencamos das alturas e nos arrebentamos no chão.      
Jesus desmascarou a mentira do tentador: “Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás” (Lc 4,8). Quando Deus ocupa o lugar central em nossa vida, e nós aprendemos a usar das coisas tanto quanto elas nos aproximam de Deus, assim como aprendemos a nos afastar delas tanto quanto elas nos afastam d’Ele, nossa vida retorna ao seu lugar; tudo fica em ordem dentro de nós e somos gratos por estar onde estamos. Não temos mais que nos preocupar se os olhos dos outros nos enxergam, porque vivemos sob o olhar do Deus que nos chamou à vida e nos ama incondicionalmente.
Enfim, eis a terceira tentação: “(...) o diabo levou Jesus a Jerusalém, colocou-o sobre a parte mais alta do Templo, e lhe disse: ‘Se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo! Porque a Escritura diz: Deus ordenará aos seus anjos a teu respeito, que te guardem com cuidado!’” (Lc 4,9-10). Nós caímos nessa tentação sempre que brincamos de ser Deus; sempre que nos consideramos inatingíveis, acima do bem e do mal; sempre que vivemos de maneira irresponsável, esquecendo-nos de que tudo na vida tem consequências.
Jesus também aqui nos dá a chave para silenciarmos a voz do tentador: “Não tentarás o Senhor teu Deus” (Lc 4,12). Deus nos deu inteligência e liberdade. Não podemos usar delas para ter atitudes inconsequentes e depois nos fazer de vítimas diante do sofrimento que provocamos em nós mesmos. Trata-se de viver a vida como uma pessoa adulta, madura e responsável, e não como um adulto infantilizado, que vive responsabilizando os outros pela sua infelicidade.
No final desta narrativa das tentações, São Lucas evangelista nos deixa um alerta: “Terminada toda a tentação, o diabo afastou-se de Jesus, para retornar no tempo oportuno” (Lc 4,13). Sempre que, pela graça de Deus, vencemos o tentador, não podemos baixar a guarda e achar que ele nunca mais voltará a nos incomodar. Enquanto estivermos vivos e o sangue estiver correndo em nossas veias, seremos tentados; sempre haverá em nossa vida um momento oportuno para o tentador voltar e nos encontrar fragilizados. Portanto, sejamos humildes e realistas. Peçamos diariamente a graça de não cairmos em tentação.

Oração: Aqui estou, Senhor Jesus, com a minha fome, com a minha carência. O tentador sabe onde sou fraco(a) e onde costumo cair. Neste início de quaresma venho Te pedir a graça de resistir à tentação, a graça de dialogar com meus afetos e de colocá-los em ordem, em vista da minha conversão, do meu amadurecimento e da minha santificação.
Ensina-me a dar respostas mais maduras e mais profundas para a minha fome de sentido e de felicidade. Ensina-me a lidar com as frustrações e livra-me de me tornar escravo(a) dos meus afetos desordenados. Faz-me descer do pedestal da arrogância e da mania de grandeza. Que os meus pés toquem no chão da realidade e que eu ocupe o lugar que sou chamado(a) a ocupar neste mundo.
            Enfim, concede-me sabedoria para usar a minha liberdade de modo a me tornar responsável por minhas atitudes. E quando o tentador voltar a me procurar no momento oportuno, que a força do Espírito Santo venha em socorro da minha fraqueza, ajudando-me a resistir à tentação e permanecendo fiel à vontade do Pai. Amém!

Pe. Paulo Cezar Mazzi

terça-feira, 5 de março de 2019

PODEMOS DAR UMA OUTRA DIREÇÃO À NOSSA VIDA


Missa de Cinzas. Palavra de Deus: Joel 2,12-18; 2Coríntios 5,20 – 6,2; Mateus 6,1-6.16-18.

            Se você se dá conta de que está dirigindo seu carro numa estrada que vai terminar num abismo, você mudaria de direção? Embora a resposta pareça óbvia, não são poucas as pessoas que se recusam a mudar suas atitudes, mesmo sabendo que a vida delas está caminhando na direção de um abismo. Na Sagrada Escritura, essa mudança de atitude, essa mudança de direção, se chama conversão, uma conversão que expressa neste apelo de Deus: “Agora, diz o Senhor, voltai para mim com todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos; (...) voltai para o Senhor, vosso Deus; ele é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia, inclinado a perdoar o castigo” (Jl 2,12-13).
            Quaresma é um tempo forte de conversão, de revisão de vida, de mudança de atitude: “É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação” (2Cor 6,2). Na Sagrada Escritura, o número quarenta tem um significado espiritual de renascimento: é o tempo necessário para que o nosso coração de pedra seja convertido em coração de carne, ou para que o nosso homem velho dê lugar ao homem novo. Da mesma forma como o nosso afastamento de Deus e da Sua vontade nunca se dá de uma hora para outra, mas é um processo, também o nosso retorno para Deus e a conformação da nossa vida à Sua vontade exige um tempo – um tempo de quarenta dias – no qual a cada dia procuramos dar um passo a mais na direção de Deus, nos afastando, assim, da direção do abismo para o qual estava caminhando a nossa vida.  
            Durante este período de quaresma, somos convidados por Jesus a rever as três principais relações da nossa vida: a relação com o próximo (esmola), a relação com Deus (oração) e a relação conosco mesmos (jejum). A relação com o próximo é retratada a partir da esmola porque o próximo é, sobretudo, o necessitado, alguém que à nossa volta está prejudicado e precisa da nossa caridade. Uma vez que o individualismo nos faz enxergar somente a nós mesmos e os nossos interesses, a prática da esmola nos desafia a olhar à nossa volta e a dedicar uma parte do nosso tempo e dos nossos recursos a alguém que necessita da nossa atenção, do nosso cuidado.
            A segunda relação que precisamos rever é aquela entre nós e Deus. Aqui se trata de rever a nossa vida de oração, prejudicada pela correria da vida moderna e pelas inúmeras solicitações das redes sociais. O conselho de Jesus – “quando tu orares, entra no teu quarto, fecha a porta, e reza ao teu Pai que está oculto” (Mt 6,6) – nos oferece uma pista importante de como recuperar a nossa intimidade com Deus na oração. Todos os dias precisamos criar um espaço dentro de nós para a oração, entrando na intimidade de nós mesmos (quarto) e fechando a porta para o barulho, para aquela infinidade de solicitações exteriores, para só então nos colocar como barro nas mãos do nosso Oleiro. Sem esse espaço, sem esse tempo diário de oração, perdemos a nossa alma, enquanto tentamos dar conta de tudo o que o mundo exige de nós.
            A terceira relação que somos chamados a rever é aquela conosco mesmos. Mas, porque ela aparece na prática do jejum? Porque o jejum é um exercício de autodomínio. Nós estamos nos tornando pessoas cada vez mais sem autodomínio, pessoas incapazes de dizer “não” aos seus desejos e ambições, além de nos tornarmos incapazes de lidar com frustrações. Nós acabamos abrindo mão da liberdade diante dos nossos instintos e permitimos que eles passassem a controlar a nossa vida. Neste sentido, o jejum é um exercício de recuperação da nossa liberdade interior, uma purificação dos nossos instintos e desejos, uma revisão dos nossos valores, resgatando a noção daquilo que é verdadeiramente essencial em nossa vida.       
            Ao nos convidar a melhorar a nossa relação com o próximo (esmola), com Deus (oração) e conosco mesmos (jejum), Jesus sempre chama a atenção para a verdadeira intenção que trazemos no coração. A melhora nesses relacionamentos não pode ser tão superficial quanto fazer uma maquiagem; pelo contrário, tem que atingir as raízes mais profundas do nosso coração, onde está o Pai que vê o oculto, o escondido, as verdadeiras intenções com que fazemos tudo o que fazemos. Se não formos verdadeiros conosco mesmos, com a nossa consciência, com o nosso coração, nada mudará em nós nesta quaresma; chegaremos ao final dela sem nenhuma transformação interior.    
            Um gesto importante que nos introduz no tempo da quaresma é a imposição das cinzas em nossa cabeça. O significado dessas cinzas se encontra no livro do Gênesis: “Lembre-se de que você é pó e ao pó voltará” (Gn 3,19). As cinzas são colocadas em nossa cabeça para que tenhamos consciência de que o pecado produz morte em nós. Além disso, ter consciência da nossa morte pode nos ajudar a rever os nossos valores e a viver a nossa vida de outra maneira. Quem tem consciência da própria morte não vive perdido em meio a coisas urgentes e acidentais, mas mantém o foco naquilo que é essencial, e o essencial é a nossa salvação.
            Por fim, procuremos viver esta quaresma iluminados pela Campanha da Fraternidade deste ano, cujo tema é “Fraternidade e Políticas Públicas” e cujo lema é: “Serás libertado pelo direito e pela justiça” (Is 1,27). A Igreja nos estimula a participar de políticas públicas que fortaleçam a cidadania e o bem comum em nossa sociedade. Esclarecendo, políticas públicas são ações e programas que são desenvolvidos pelo Estado para garantir e colocar em prática direitos que são previstos na Constituição Federal e em outras leis.
            Oração da CF 2019 – Pai misericordioso e compassivo, que governais o mundo com justiça e amor, dai-nos um coração sábio para reconhecer a presença do vosso Reino entre nós. Em sua grande misericórdia, Jesus, o Filho amado, habitando entre nós testemunhou o vosso infinito amor e anunciou o Evangelho da fraternidade e da paz. Seu exemplo nos ensine a acolher os pobres e marginalizados, nossos irmãos e irmãs com políticas públicas justas, e sejamos construtores de uma sociedade humana e solidária. O divino Espírito acenda em nossa Igreja a caridade sincera e o amor fraterno; a honestidade e o direito resplandeçam em nossa sociedade e sejamos verdadeiros cidadãos do “novo céu e da nova terra” Amém.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

PESSOAS DESORIENTADAS PODEM ORIENTAR ALGUÉM?

Missa do 8º. dom. comum. Palavra de Deus: Eclesiástico 27,5-8; 1Coríntios 15,54-58; Lucas 6,39-45

            A maneira mais comum de nos comunicarmos com as pessoas é por meio da palavra. Esta palavra pode ser dita pessoalmente, como pode também ser comunicada por áudio ou por escrito, sobretudo nas redes sociais. Nunca como hoje estamos nos comunicando tanto, com tanta rapidez e com tanta frequência, mas o que realmente estamos comunicando às pessoas, por meio das nossas palavras?
            O autor do Eclesiástico nos convida a prestar atenção às nossas palavras. Elas revelam o que há dentro de nós; revelam o nosso estado de espírito, como está nossa alma, nosso coração: “Os defeitos de um homem aparecem no seu falar... A palavra mostra o coração do homem... É no falar que o homem se revela” (Eclo 27,5.7.8). Quando falamos, escrevemos ou postamos uma mensagem nas redes sociais, revelamos aos outros o nosso caráter, o tipo de pessoa que somos, os valores nos quais acreditamos, se somos pessoas fúteis ou pessoas com conteúdo, se somos somente aparência ou se temos essência. Da mesma forma, precisamos não ser apressados e não nos deixar enganar pelas fotos que as pessoas postam nas redes sociais; é importante ler o que a pessoa escreve, para saber que tipo de pessoa ela é, se ela é aquilo que tenta aparentar ser.
            Jesus disse que a nossa boca fala daquilo que está cheio o nosso coração (cf. Lc 6,45). Nossas palavras e nossas postagens nas redes sociais revelam o que há dentro de nós. Quando estamos em guerra conosco mesmos, expressamos essa guerra por meio de palavras agressivas aos outros. Quando, pelo contrário, estamos em harmonia conosco mesmos, nossas palavras comunicam serenidade e paz para os outros. Até mesmo quando nos sentimos obrigados a apontar erros e a corrigir injustiças à nossa volta, Jesus nos convida, antes, a fazer um exame de nós mesmos: “Por que vês tu o cisco no olho do teu irmão, e não percebes a trave que há no teu próprio olho?” (Lc 6,41).
            Quando ficamos sabendo de um fato pelas redes sociais, imediatamente emitimos a nossa opinião, concordando ou discordando, criticando ou elogiando, absolvendo a pessoa envolvida no fato ou condenando-a à morte com o nosso julgamento, e fazemos tudo isso na maioria das vezes sem conhecimento de causa, levados apenas pela emoção do momento, pelo ouvir dizer, pela superficialidade das informações que chegaram até nós. Opinamos sobre tudo e sobre todos, como se fôssemos capazes de interpretar corretamente a realidade, quando não somos capazes de interpretar o que se passa dentro de nós; achamos que sabemos pôr ordem na casa dos outros, mas não sabemos pôr ordem na nossa; diagnosticamos os problemas dos outros e, inclusive, indicamos o remédio apropriado para a doença deles, mas não nos damos ao trabalho de diagnosticar e de tratar a doença que há dentro de nós.
            Jesus está nos propondo nos mantermos alienados no que diz respeito ao que acontece à nossa volta? Não! Ele está nos lembrando de que todos nós estamos num mundo doente, marcado por uma profunda inversão de valores, e se não cuidarmos do nosso coração, da nossa casa interior, da nossa vida espiritual, ficaremos tão doentes quanto o mundo que somos chamados a curar. “Pode um cego guiar outro cego? Não cairão os dois num buraco?” (Lc 6,39). Essas perguntas de Jesus questionam tanto os conselhos que damos aos outros quanto os que recebemos deles. É totalmente absurdo eu querer orientar alguém quando eu mesmo vivo desorientado, assim como é absurdo eu me deixar orientar por alguém que vive desorientado!
Quando um cego guia outro cego, o resultado é desastroso: os dois acabarão por cair no mesmo buraco. Sendo assim, com quem você busca orientação para a sua vida afetiva/sexual, profissional ou espiritual? Com quem seus filhos se orientam? O número de “guias cegos” nas redes sociais, isto é, de pessoas mal resolvidas, perdidas, desorientadas e sem valores é altíssimo, e infelizmente esses guias cegos “fazem a cabeça” de inúmeros adolescentes e jovens. No entanto, Jesus nos alertou: “Não se colhem figos de espinheiros, nem uvas de plantas espinhosas” (Lc 6,44). Como é que você espera ser ajudado por uma pessoa que está perdida dentro de si mesma?
            Ao final do Evangelho, Jesus mais uma vez nos remete para as nossas raízes. O problema não está fora, está dentro, assim como a resposta, a solução, não está fora, está dentro. Não há dúvida de que a realidade à nossa volta exerce influência sobre todos nós, mas não funciona responsabilizar os fatores externos pelo fracasso que experimentamos enquanto pessoas. Se existem coisas externas que estão estragando a nossa vida é porque nós nos identificamos com essas coisas estragadas; elas de alguma forma respondem a uma fome doentia dentro de nós; afinal de contas, cada um se alimenta daquilo que tem fome.
            Eis, portanto, as palavras finais de Jesus neste Evangelho: “O homem bom tira coisas boas do bom tesouro do seu coração. Mas o homem mau tira coisas más do seu mau tesouro, pois sua boca fala do que o coração está cheio” (Lc 6,45). O que determina as nossas atitudes não é aquilo que está fora de nós – pessoas, acontecimentos –, mas aquilo que está dentro. Nós sempre agiremos a partir dos nossos valores, os quais Jesus chama de “tesouro” do nosso coração: se este tesouro é bom, agiremos a partir do bem; se é mau, a partir do mau, lembrando que esse tesouro é formado a partir daquilo que diariamente cultivamos em nós, como afirmou o Eclesiástico: “O fruto revela como foi cultivada a árvore” (Ecl 27,7).

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

SEGUNDO O CORAÇÃO DE DEUS OU DO MUNDO?

Missa do 7º. dom. comum. Palavra de Deus: 1Samuel 26,2.7-9.12-13.22-23; 1Coríntios 15,45-49; Lucas 6,27-38.

Num momento crítico da vida de Davi, chamado biblicamente de “um homem segundo o coração de Deus” (cf. 1Sm 13,14; At 13,22), quando ele estava sendo dura e injustamente perseguido pelo rei Saul, aconteceu um fato muito interessante. Enquanto o rei Saul e todo o seu exército dormiam profundamente, Davi teve a oportunidade de se aproximar de Saul e de matá-lo, mas não o fez. De fato, o homem que acompanhava Davi, neste drama de ser injustamente perseguido por Saul, lhe disse: “Deus entregou hoje em tuas mãos o teu inimigo. Vou cravá-lo em terra com uma lançada, e não será preciso repetir o golpe”. Mas Davi respondeu: “Não o mates!” (2Sm 26,8.9).
O que você faria se a vida colocasse em suas mãos pessoas que estupram e matam crianças e mulheres? O que você faria se a vida te desse a oportunidade de eliminar da face da terra os terroristas, os pedófilos, os abusadores de menores, os fabricantes de drogas e os traficantes, os políticos e juízes corruptos, os que promovem guerra no mundo para se enriquecerem com a venda de armas? O que você faria se Deus colocasse em suas mãos a vida da pessoa que destruiu seu casamento ou aquela que matou seu filho por um motivo totalmente banal?
            Existe uma afirmação perigosa aqui: “Deus entregou em tuas mãos o teu inimigo” (1Sm 26,8). Às vezes nós interpretamos a oportunidade de nos vingar e de fazer justiça com as próprias mãos como uma oportunidade criada por Deus! Davi tinha todos os motivos do mundo para acabar com a vida de Saul naquele momento, e assim dar um basta ao seu sofrimento de ser um homem perseguido sem motivo justo. Mas Davi poupou Saul. Ele simplesmente “apanhou a lança e a bilha de água que estavam junto da cabeceira de Saul, e foram-se embora... Atravessou para o outro lado, parou no alto do monte, ao longe, deixando um grande espaço entre eles” (1Sm 26,12-13).
            O motivo pelo qual Davi levou consigo a lança e a bilha de água de Saul, que estavam junto da sua cabeça enquanto ele dormia profundamente, foi um só: deixar claro a Saul que, se quisesse, Davi o teria matado. E por que não o matou? Porque Davi era um homem segundo o coração de Deus! Davi ensinou a Saul – e hoje está ensinando a nós – que existem outros caminhos na vida para resolver nossos prolemas, que não seja a vingança cega, a destruição de quem nos prejudica, o desejo incontrolável de fazer justiça com as nossas próprias mãos. Resumindo, Davi não disse a Saul que não tinha importância o mal que ele estava lhe fazendo, mas disse: “Eu não vou fazer justiça com minhas próprias mãos porque eu confio na justiça de Deus, e sei que o Senhor retribuirá a cada um conforme a sua justiça e a sua fidelidade” (citação livre de 1Sm 26,23).
            Essa atitude de misericórdia de Davi para com Saul nos coloca diante de uma pergunta: nós somos pessoas meramente “naturais” ou somos pessoas que desejam se tornar “espirituais”? Nós escolhemos viver como pessoas terrestres ou celestes? Ao falar da diferença entre a pessoa de Adão e a pessoa de Jesus Cristo, o apóstolo Paulo disse: “Veio primeiro não o homem espiritual, mas o homem natural; depois é que veio o homem espiritual. O primeiro homem, tirado da terra, é terrestre; o segundo homem vem do céu” (1Cor 15,46-47). A primeira tendência que desponta em nós não é a espiritual, mas a natural. É natural que sintamos raiva e desejemos vingança quando alguém comete uma injustiça contra nós ou contra aqueles que mais amamos. Contudo, todos nós somos chamados a dialogar com o nosso homem natural e convidá-lo a transcender-se, a amadurecer e a se tornar homem espiritual.
            Ao se tornar um de nós, Jesus fez a experiência mais básica de todo ser humano; ele experimentou tudo aquilo que o homem natural experimenta na terra: fome, medo, raiva, dor, sofrimento, injustiça, violência, tentação etc. Contudo, Jesus procurou viver – muito mais do que Davi –, como “um homem segundo o coração de Deus”. Enquanto nós, com muita facilidade, permitimos que o nosso homem espiritual regrida e se deforme no homem natural, Jesus jamais permitiu que o seu homem natural cancelasse nele a sua verdadeira imagem de homem espiritual. Assim, o apóstolo Paulo nos propõe este caminho diário de aperfeiçoamento e de santificação: “E como já refletimos a imagem do homem terrestre, assim também refletiremos a imagem do homem celeste” (1Cor 15,47).
            Vejamos essas palavras de Jesus: “Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos amaldiçoam, e rezai por aqueles que vos caluniam” (Lc 6,27-28). Se você estiver reduzido ao seu “homem natural”, não aceitará de maneira alguma o que Jesus disse. Contudo, se o seu homem natural está aberto ao desafio de transcender-se e de se tornar homem espiritual, você tem abertura para o que Jesus está lhe propondo. Assim como Davi, você sabe que tem muitos motivos para fazer justamente o contrário do que Jesus está dizendo, mas você, também como Davi, sabe que, se quiser, pode distanciar-se do seu “Saul”, do seu desejo de vingança e de fazer justiça com as próprias mãos, e de dizer ao seu “Saul” interior: “Eu não quero me tornar como você: um assassino, um homem injusto, uma pessoa reduzida ao carnal e fechada ao espiritual. Por mais que seja difícil para mim lidar com a minha raiva, com o meu sentimento de indignação, eu quero me tornar uma pessoa segundo o coração de Deus e não segundo o coração do mundo”.  
            Concluindo, Jesus nos dá uma pista muito importante sobre como viver segundo o coração de Deus: “O que vós desejais que os outros vos façam, fazei-o também vós a eles” (Lc 6,31). A maioria das pessoas não age, apenas reage: se os outros lhe fazem o bem, elas reagem retribuindo com o bem; se os outros lhe fazem o mal, elas reagem retribuindo com o mal. Jesus convida você a não se reduzir a um mero “reagente”, mas a se tornar um “agente”. Ao invés de você esperar o bem e a justiça das pessoas, decida tratá-las segundo a bondade e a justiça; escolha viver como um autêntico filho de Deus, um autêntico “homem segundo o coração de Deus”. Assim como Deus não espera sermos bons e justos para nos amar e nos fazer o bem – pelo contrário, Ele “é bondoso também para com os ingratos e os maus” (Lc 6,35) –, assim também você: não decida suas atitudes a partir do que recebe dos outros; pelo contrário, decida ser bom e justo para com eles. Mesmo que eles não reconheçam isso, terá valido a pena viver assim, porque você escolheu passar por este mundo sendo “um homem segundo o coração de Deus”. Isso, por si só, terá salvado sua existência, porque terá preservado você da corrupção do mundo e terá dado verdadeiro sentido à sua vida.               
           
            Oração: Senhor Deus, reconheço que há em mim o “homem natural”, mas o Senhor me chama a me tornar “homem espiritual”; o Senhor me convida a ser “uma pessoa segundo o Teu coração”. Hoje eu deponho as minhas armas, a minha raiva, o meu sentimento de vingança, a minha fome insaciável de justiça. Não quero me tornar um(a) assassino(a); não quero permitir que o meu desejo cego de vingança me leve a cometer injustiças maiores do que as que sofri. Eu confio em Ti, Senhor! Confio que o Senhor retribuirá a cada um conforme a sua justiça e a sua fidelidade, e porque creio nisso, não posso e não quero abandonar o meu esforço diário em ser uma pessoa justa e fiel. Hoje eu suplico a Ti por todos os meus inimigos, por todas as pessoas que cometeram injustiças contra mim, contra aqueles que eu amo, contra a humanidade. Não quero tê-los em minhas mãos para vingar-me deles. Quero colocá-los em Tuas mãos para que o Senhor possa curá-los, perdoá-los, redimi-los e salvá-los. Enfim, Pai, acolhendo o convite de Teu Filho, a partir de hoje eu tomo a iniciativa de ser uma pessoa boa e justa para com os outros, independente da maneira como serei tratado(a) por eles, porque não posso e não quero, de maneira alguma, deixar de ser uma pessoa segundo o Teu coração. Em nome de Jesus, amém!

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

A FELICIDADE É UMA QUESTÃO DE RAIZ, NÃO DE CIRCUNSTÂNCIAS EXTERNAS FAVORÁVEIS

Missa do 6º. dom. comum. Palavra de Deus: Jeremias 17,5-8; 1Coríntios 15,12.16-20; Lucas 6,17.20-26.

“O importante é ser feliz”. É isso o que o mundo nos fala a todo momento e é disso que nós estamos cada vez mais convencidos. Ser feliz tornou-se a meta absoluta na vida da imensa maioria dos seres humanos, e para se alcançar essa meta sacrifica-se tudo: família, filhos, pais, fidelidade, honestidade, decência, caráter, honra, obediência a Deus e à sua Palavra; enfim, sacrifica-se até mesmo a própria salvação. Esse tipo de felicidade, justamente por ser egoísta, provoca infelicidade na vida de inúmeras outras pessoas, além de nos desviar da meta principal da nossa existência, que é a salvação em Cristo.
Deus nos quer felizes, sem dúvida. Além disso, Jesus foi uma pessoa autenticamente feliz. Mas, o que Jesus entende por felicidade? Deixemos com que ele mesmo nos responda: “Felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus! Felizes vós que agora tendes fome, porque sereis saciados! Felizes vós, que agora chorais, porque havereis de rir!” (Lc 6,20-21). O mesmo mundo que insistentemente nos diz que “o importante é ser feliz” é um mundo profundamente injusto e desigual, e a felicidade que ele oferece não é para todos, mas apenas para um grupo privilegiado de pessoas: aquelas que são contempladas pelo mercado financeiro. O resto? Problema deles! Quem mandou nascerem pobres?!
Justamente diante desse mundo profundamente desigual e injusto, Jesus afirma que felizes são as pessoas que não estão felizes com tal desigualdade e com tal injustiça; felizes são aqueles “que choram porque suas lágrimas demonstram que eles ainda não perderam a sensibilidade, que eles sentem o mundo como injusto e que, por isso, são verdadeiramente os únicos a sonharem, a buscarem e a lutarem por um mundo novo” (Pe. Adroaldo); felizes são todas as pessoas que acreditam que Deus não quer apenas a salvação da alma, mas o bem-estar e o respeito para com o corpo humano; felizes são todos aqueles que entendem que Deus não se interessa apenas pela religião, pela espiritualidade e pela fé; Ele também interfere, com a Sua palavra profética, na economia e na política, porque são elas que, quando não orientadas pela Sagrada Escritura mas pela fome insaciável do mercado financeiro, produzem sofrimento, injustiça e morte em grande parte da humanidade.
Uma vez que a infelicidade de muitas pessoas é consequência direta da desigualdade e das injustiças sociais – e o nosso país é campeão mundial nisso, lamentavelmente –, Jesus precisou mostrar o outro lado da moeda: “Ai de vós, ricos, porque já tendes vossa consolação! Ai de vós, que agora tendes fartura, porque passareis fome! Ai de vós, que agora rides, porque tereis luto e lágrimas!” (Lc 6,24-25). Toda pessoa que, para ser feliz, provoca, favorece ou comunga de esquemas injustos que não apenas alimentam a desigualdade social, mas a aprofundam*, terá que se confrontar com julgamento de Deus, o Justo Juiz, Aquele que não se vende por dinheiro algum e que restabelecerá na Terra o direito e a justiça.      
Enquanto Jesus nos traz uma reflexão esclarecedora em relação à felicidade, o profeta Jeremias nos fala das diferentes formas de se buscar a felicidade. “Maldito (infeliz) o homem que confia no homem e faz consistir sua força na carne humana, enquanto o seu coração se afasta do Senhor” (Jr 17,5). Nós começamos a construir a nossa infelicidade quando escolhemos depender das pessoas e não de Deus; quando cremos que o dinheiro, a posição social, a projeção da nossa imagem nas redes sociais etc. nos garantirão uma vida feliz, enquanto o nosso coração se afasta de Deus, não cultivando mais nossa vida de oração, não frequentando mais uma igreja, não nos alimentando mais da Palavra e da Eucaristia...
Por outro lado, Jeremias afirma: “Bendito (feliz) o homem que confia no Senhor, cuja esperança é o Senhor; é como a árvore plantada junto às águas, que estende as raízes em busca de umidade, por isso não teme a chegada do calor: sua folhagem mantém-se verde, não sofre míngua em tempo de seca e nunca deixa de dar frutos” (Jr 17,7-8). A verdadeira felicidade jamais nascerá de fora para dentro, mas sempre de dentro para fora; não é o calor nem a aridez externa que nos tornam murchos, infelizes; a nossa felicidade está diretamente relacionada com as nossas raízes. Uma pessoa que tem suas raízes em Deus suporta períodos de infelicidade, suporta o tempo do calor e o período da estiagem; suas folhas não murcham e ela sempre está carregada de frutos não porque as circunstâncias externas são favoráveis, não porque tudo dá certo para ela, não porque o Universo conspira a favor dela, mas porque ela tem raízes; é uma pessoa profunda na sua fé, no seu relacionamento com Deus.     
Neste sentido, o Salmo 1 reforça tudo o que nos disse o profeta Jeremias. Enquanto a pessoa que se dedica a viver um relacionamento profundo com Deus experimenta felicidade, vê a árvore da sua vida produzindo frutos no devido tempo e suas folhas não murchando por causa do calor e da estiagem externos (cf. Sl 1,3), a pessoa que desistiu do seu relacionamento com Deus torna-se aos poucos uma folha seca, uma infeliz folha seca, empurrada de um lado para outro pelo vento da desorientação e da falta de rumo na vida.
Orientemos diariamente nossas raízes para Deus. Todos nós estamos plantados num mundo profundamente desigual e injusto, um mundo que produz muito mais infelicidade que felicidade, muito mais sofrimento que alegria, muito mais morte que vida. Tenhamos consciência de que o calor das desigualdades e a estiagem das injustiças sempre nos atingirão. Tenhamos consciência de que Deus jamais colocará uma redoma de vidro sobre os que são Seus, para protegê-los dos sofrimentos aos quais está exposta toda a humanidade. Deus jamais assumirá o papel de reprodutor da desigualdade social, privilegiando uns e abandonando outros à própria sorte. Cuidemos das nossas raízes! Se elas diariamente forem direcionadas para Deus, Ele nos concederá paciência, esperança e confiança na Sua justiça. E se, em algum momento, experimentarmos alguma infelicidade, recordemos esta palavra do apóstolo Paulo: “Se é para esta vida que pusemos a nossa esperança em Cristo, nós somos - de todos os homens - os mais dignos de compaixão” (1Cor 15,19). Quem tem em vista a felicidade plena que vem de Deus suporta momentos de infelicidade passageira neste mundo.  
           
*A distância entre os mais ricos e os mais pobres aumentou ainda mais em 2018 no mundo todo, segundo relatório global divulgado pela Organização Não Governamental Oxfam. De acordo com o estudo, a fortuna dos bilionários do mundo aumentou 12% em 2018 (cerca de US$ 900 bilhões), ou US$ 2,5 bilhões por dia, enquanto a metade mais pobre do planeta (3,8 bilhões de pessoas) viu sua riqueza reduzida em 11% no ano passado. “Os governos precisam entender que investir em serviços públicos é fundamental para enfrentar as desigualdades e vencer a pobreza. E para isso é necessário que os mais ricos e as grandes corporações contribuam de maneira mais justa”, afirma Katia Maia, diretora-executiva da Oxfam Brasil, destacando que no país os 10% mais pobres da sociedade pagam mais impostos proporcionalmente do que os 10% mais ricos. 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

ONDE ENCONTRAR A RESPOSTA QUE VOCÊ PROCURA, A CURA QUE VOCÊ NECESSITA E A MUDANÇA QUE VOCÊ DESEJA?


Missa do 5º. dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 6,1-2a.3-8; 1Coríntios 15,1-11; Lucas 5,1-11.

            Não é todo dia que “o mar está pra peixe”. Pelo contrário; existem dias em que “o mar definitivamente não está pra peixe”: são aqueles dias em que não alcançamos nossos objetivos e nos sentimos fracassados em nossos esforços. Na vida, sempre há momentos em que fazemos a mesma experiência dos primeiros discípulos de Jesus: “Mestre, nós trabalhamos a noite inteira e nada pescamos” (Lc 5,5). Em alguns momentos, a experiência do fracasso visita a nossa vida financeira, profissional; em outros, ela visita a nossa vida afetiva, relacional; em outros ainda, ela visita a nossa própria vida espiritual.
            Ao narrar este milagre das redes que se encheram de peixes, o evangelista Lucas quer chamar a nossa atenção para a importância da Palavra de Deus em nossa vida. Foi ela que iluminou a noite escura daqueles pescadores; foi ela que falou ao coração deles, tomado pela sensação de derrota; foi ela que fez Pedro reagir de uma maneira firme diante do fracasso que estava enfrentando: “Mestre, nós trabalhamos a noite inteira e nada pescamos. Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes” (Lc 5,5). Mas o que especificamente Jesus disse a Pedro? Ele disse: “Avança para águas mais profundas, e lançai vossas redes para a pesca” (Lc 5,4).
            Jesus está nos dizendo algo muito concreto: nós temos que sair da margem e ir aonde as águas são mais profundas! Perceba que o Evangelho se inicia insistindo na palavra “margem”: “Jesus estava na margem do lago de Genesaré... Jesus viu duas barcas paradas na margem do lago... Subindo numa das barcas, que era de Simão, pediu que se afastasse um pouco da margem” (Lc 5,1-3). Margem é sinônimo de superficialidade. Nós temos nos tornado pessoas cada vez mais superficiais, seja porque não temos tempo para aprofundar nada, seja porque temos medo de nos aprofundar em algo. Mas a resposta está justamente nessa atitude: se quisermos mudar a situação das nossas redes vazias, temos que perder o medo e deixar de lado a preguiça em ir para o profundo.
            As redes de muitas igrejas e de muitos pregadores do Evangelho estão vazias por causa da superficialidade com que as coisas são realizadas. Essas pessoas, além de terem uma espiritualidade superficial, fazem um trabalho pastoral superficial, tratando seus fiéis de maneira igualmente superficial. Quem se acomoda na margem, quem tem preguiça em ir para o profundo, continuará trabalhando a noite toda e suas redes continuarão vazias. Além disso, se as redes de grande parte das nossas paróquias estão praticamente vazias de jovens, é porque muitos de nós, líderes religiosos, não levamos a sério esta verdade, dita há anos pelo Pe. Zezinho: “É preciso pescar diferente”.
            Jesus desafiou Pedro a pescar diferente. Não se pesca de dia, mas de noite! No entanto, Jesus desafiou Pedro a fazer algo totalmente diferente, e Pedro, ao obedecer a Jesus, viu algo surpreendente: suas redes se encheram de peixes em plena luz do dia! A resistência ao novo e o apego ao velho está há muito tempo matando nossas comunidades e impedindo nossa Igreja de se renovar. Nossas paróquias deveriam ser “centros irradiadores de vida”, segundo o Documento de Aparecida, mas são, na sua grande maioria, lugares onde, quem nos visita, sente cheiro e gosto de morte, uma morte mantida e alimentada pela mesmice de sempre das nossas celebrações, dos nossos ritos e da nossa “pastoral de manutenção”, que não aceita converter-se em “pastoral decididamente missionária”. Alguns entre nós não têm por que reclamar: colhem aquilo que plantam. Se as suas redes estão vazias é porque não aceitam mudar a sua maneira de pescar.
            Saindo do campo pastoral, vamos agora olhar essa questão do aprofundamento dentro do campo pessoal. É normal em todo ser humano a tendência a acomodar-se e a gostar mais de ficar na margem do que ir para lugares profundos. Pescar diferente dá trabalho; por isso, acabamos fazendo as coisas sempre do mesmo jeito na vida familiar, profissional, relacional e também espiritual. Dentro de nós sentimos que algo está errado, percebemos que o desgaste da rotina está matando as coisas que mais amamos (quando não, nos destruindo), mas continuamos a agir do mesmo jeito, seja pelo medo de mudar, seja pela preguiça em mudar. Mas Jesus continua a nos lançar um desafio: “Avance para águas mais profundas”, isto é, ‘pare de ser superficial com você, com os outros e com Deus’.
            A título de verificação do quanto temos nos tornado pessoas superficiais, vejamos esta frase de Santo Agostinho: “As pessoas viajam para admirar a altura das montanhas, as imensas ondas dos mares, o longo percurso dos rios, o vasto domínio do oceano, o movimento circular das estrelas, e, no entanto, elas passam por si mesmas sem se admirarem” (Santo Agostinho). As respostas para as nossas questões mais importantes estão dentro de nós, não fora; estão no profundo de nós mesmos, não em nossa superfície. Infelizmente, quando as pessoas se cansam de suas redes vazias, tomam a decisão equivocada de mudar de mar: mudam de casamento, de empresa, de curso, de igreja ou de religião; mudam o corte de cabelo, a maneira de se vestir, fazem uma nova tatuagem etc., mas, apesar de todas essas mudanças externas, elas não mudam por dentro; continuam a agir como sempre agiram, a repetir os mesmos erros, a pescarem do mesmo jeito e a reclamar de que suas redes continuam vazias.
            Como termina o Evangelho de hoje? Ele termina com uma profunda mudança em Pedro, até então um simples pescador de peixes. Jesus lhe diz: “Não tenhas medo! De hoje em diante tu serás pescador de homens” (Lc 5,11). A primeira coisa que Jesus quer é que enfrentemos o nosso medo, o medo de fazermos as mudanças que sabemos serem necessárias em nossa vida, o medo de sairmos da margem de uma vida superficial e irmos para as águas mais profundas, o medo de ampliarmos o horizonte da nossa vida. O horizonte de Pedro estava muito estreito! Sua vida consistia em ir todas as noites para o mar, tentar pescar peixes e vendê-los no dia seguinte. Jesus quer ampliar o seu horizonte de vida, esse horizonte estreitado por uma busca egoísta de felicidade pessoal e imediata. Jesus convida também você a se tornar “pescador de homens”.
            A expressão “pescar homens” significa ajudar a salvar pessoas que estão em situações de risco de morte. Em todo e qualquer ambiente em que você se encontra em meio a outras pessoas, ali sempre há alguém correndo o risco de se afogar no erro e na autodestruição. Uma palavra sua, iluminada pelo Evangelho, pode ajudar essa pessoa a desejar sair do mar da destruição em que ela entrou por conta própria ou permitiu que alguém a jogasse ali. Portanto, que você tenha a mesma coragem do profeta Isaías. Quando ele ouviu Deus perguntar: “Quem enviarei (junto às pessoas que estão sofrendo)? Quem irá por nós (para dizer às pessoas que estão se prejudicando ou sendo prejudicadas por outros, que há uma saída, que elas não precisam viver debaixo dessa situação)?”, respondeu prontamente: “Aqui estou! Envia-me” (Is 6,8).

            ORAÇÃO

            Aqui estou, Senhor Jesus, com as minhas redes vazias, com as minhas experiências de fracasso. Aqui estou eu, habituado(a) a viver na margem, na superficialidade, às vezes com medo, outras vezes com preguiça de ir para as águas mais profundas.
            Fala ao meu coração, como o Senhor falou ao coração de Pedro. Ensina-me a pescar diferente, a fazer as coisas de maneira diferente. Concede-me coragem para abandonar as atitudes que estão mantendo minhas redes vazias e tornando inúteis os meus esforços. Hoje eu compreendo que não se trata de mudar de mar, mas de mudar a maneira de pescar, a maneira como eu tenho lidado com as situações.
            Torna-me uma pessoa profunda, uma pessoa que tem a coragem de ir para o profundo de si mesma, pois é no meu profundo que estão as respostas que eu procuro, a cura que eu necessito e a mudança que eu desejo para a minha vida, porque é ali, no mais profundo de mim mesmo(a), que habita a Tua verdade a meu respeito. Amém!

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

SER VERDADEIRO OU FAZER MÉDIA?

Missa do 4º. dom. comum. Palavra de Deus: Jeremias 1,4-5.17-19; 1Coríntios 12,31–13,13 Lucas 4,21-30.

Toda palavra que ouvimos ou lemos provoca alguma reação em nós. Podemos concordar ou discordar dela; podemos nos sentir animados, confortados por ela, mas também podemos nos sentir irritados e entristecidos por causa dela. A palavra que lemos ou ouvimos pode estar de acordo com as nossas ideias, mas pode também afirmar justamente o contrário do que acreditamos, provocando em nós, quem sabe, até mesmo uma crise, um abalo nas nossas certezas.
Também a Palavra de Deus provoca reações em nós. Às vezes, ela nos levanta, nos encoraja, nos anima, nos liberta e nos cura, mas, algumas vezes, ela desmascara o nosso pecado, denuncia a nossa injustiça, joga por terra nosso orgulho e revela a nossa mentira. Portanto, quando ouvimos Deus nos falar na sua Palavra, podemos tanto sentir alegria, consolação e paz, como também podemos sentir raiva, ódio, tristeza. Contudo, mais importante do que constatar o que sentimos diante da Palavra de Deus, é tomarmos consciência do por que estamos sentindo aquilo, qual ferida a Palavra tocou dentro de nós, por que ela nos deixou incomodados, inquietos, ou, quem sabe, com raiva?  
Quando Deus nos fala, seu objetivo é nos converter, nos tornar melhores, nos salvar, e não nos agradar. O problema é que a nossa geração se magoa facilmente. Nós costumamos rejeitar a verdade e nos cercar de mentiras porque queremos ouvir apenas aquilo que gostamos de ouvir, aquilo que confirma nossas próprias ideias, nossa visão de mundo. Se alguém nos disser algo que não gostamos de ouvir, manifestando um pensamento não apenas diferente do nosso, mas contrário ao que pensamos, essa pessoa é imediatamente banida, excluída, deletada dos nossos contatos.
            Jesus, depois de ter experimentado admiração por parte dos seus conterrâneos, conheceu a fúria deles, quando teve que lhes dizer verdades que eles não queriam ouvir. Explico-me. Os conterrâneos de Jesus não deram crédito à sua palavra, da mesma forma como, no passado, o povo de Israel não deu crédito aos profetas Elias e Eliseu. E Jesus lhes recordou a consequência dessa falta de crédito na verdade da Palavra: nenhum milagre foi concedido ao povo de Israel; pelo contrário, quem recebeu milagres foram pessoas pagãs, pessoas que, apesar de não pertencerem ao “povo eleito”, deram crédito à palavra de Elias e de Eliseu.
            Quando ouviram estas palavras de Jesus, todos na sinagoga ficaram furiosos. Levantaram-se e o expulsaram da cidade. Levaram-no até ao alto do monte sobre o qual a cidade estava construída, com a intenção de lançá-lo no precipício” (Lc 4,28-29). Sempre que ficamos furiosos com algo que uma pessoa nos diz, a melhor coisa que temos a fazer é nos perguntar por que ficamos tão furiosos. Será que há algum fundo de verdade naquilo que ela nos disse? Será que a pessoa está tentando nos fazer ver aquilo que não aceitamos enxergar em nós? Quantas pessoas mudam constantemente de médico, de psicólogo, de orientador espiritual, de igreja ou de religião porque não aceitam ouvir a verdade, não admitem reconhecer que a principal responsável pela doença que as aflige e pela falta de paz que as atormenta são elas mesmas?
O final do Evangelho nos fala da contra-reação de Jesus: “Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho” (Lc 4,30). Quem tem convicção de estar na verdade não retrocede só porque sua palavra não está agradando. Aliás, o apóstolo Paulo tem uma importante advertência para nós: “Se eu quisesse agradar aos homens, não seria servo de Cristo” (Gl 1,10). Lamentavelmente, vivemos numa época de ausência de profetismo, também dentro das igrejas. Ninguém hoje quer ser profeta, e o faz justamente para evitar ser criticado, ofendido, perseguido, rejeitado, punido. No lugar do profetismo entrou o “fazer média”, rasgar-se em elogios, adular, tudo isso em vista não apenas de sobreviver na instituição, mas de subir de posto na hierarquia.
Não nos enganemos quanto a isso. Ninguém gosta de ouvir a verdade; ninguém gosta de quem fala a verdade. Tanto nas igrejas como nas empresas ou ambientes de trabalho, todo profeta é punido e todo fazedor de média é promovido. Essa perda de profetismo, esse distanciamento da verdade, essa preferência por agradar ou invés de ser sincero tem acontecido, antes de tudo, dentro das famílias. Antigamente, os pais exigiam respeito dos filhos, e em troca, além do respeito, eram também amados pelos filhos. Hoje, os pais fazem de tudo para serem amados pelos filhos, inclusive, deixando de ser firmes com eles quanto à verdade, à justiça e ao que é correto. Consequentemente, esses pais não são nem amados, nem respeitados pelos filhos. Assim também acontece com inúmeros líderes do nosso tempo.    
Muito diferente de nós, Jesus nunca pautou sua vida pela necessidade doentia e exagerada de ser amado pelas pessoas; Ele sempre buscou ser verdadeiro; e por ser autêntico, verdadeiro, coerente, transparente, foi imensamente amado por muitos. Jesus sempre teve uma profunda liberdade diante das pessoas. Ele não tinha medo de perder o afeto das pessoas ao falar para elas o que elas precisavam ouvir. Deus também nos quer assim. Deus não nos quer covardes, omissos, nem prisioneiros da necessidade de afeto dos outros. Ele nos quer homens e mulheres proféticos, como Jesus, como Jeremias. Esse mesmo Deus nos promete hoje, na sua Palavra, firmeza interior para suportar o desprezo, a crítica, a perseguição como consequência de sermos verdadeiros (cf. Jr 1,18-19).
Peçamos ao Espírito Santo, o Espírito da Verdade, que nos livre do erro de nos fazermos de surdos diante da verdade. Que nós jamais rejeitemos a Palavra que pode nos curar e nos salvar, só porque ela, para isso, precisa nos desnudar, nos desmascarar, nos derrubar do pedestal da nossa arrogância e do nosso autoengano. Aprendamos com Jesus a passar pelo meio daqueles que nos criticam, nos agridem, desejam o nosso mal ou até mesmo a nossa morte, e a continuar o nosso caminho, orientados pela verdade da Palavra de Deus, fonte de salvação para nós e para todos aqueles que se deixarem orientar por ela.
    
Pe. Paulo Cezar Mazzi

sábado, 26 de janeiro de 2019

A PALAVRA REVELA O SENTIDO DO NOSSO "HOJE"

Missa do 3º. dom. comum. Palavra de Deus: Neemias 8,2-4a.5-6.8-10; 1Coríntios 12,12-30; Lucas 1,1-4;4,14-21.

Quando algo que amávamos foi destruído, qual é a chance de que aquilo seja reconstruído? Quando já sepultamos há muito tempo nossas esperanças e enterramos nossos sonhos, existe alguma força que nos convença de que vale a pena desenterrá-los? Enfim, existe algo que nos devolva coragem, ânimo, força, algo que nos ofereça uma clara orientação, um norte, uma luz que nos ajude a sair da escuridão em que nos encontramos e nos faça renascer por dentro? A resposta para todas essas perguntas é uma só: a Palavra de Deus.
Numa época de grande desolação, depois da sofrida experiência do exílio na Babilônia, Esdras e Neemias têm a grande missão de convencer o povo de Israel a voltar para a sua terra e reconstruir tudo: suas casas, suas cidades, seu país, seu templo. A leitura que ouvimos hoje mostra que a única força capaz de tornar possível essa reconstrução foi a força da Palavra de Deus, diante da qual o povo ora permanecia em silêncio, escutando, acolhendo, deixando-se ensinar; ora se colocava em pé, em sinal de prontidão e de uma obediência ativa; ora inclinava-se e prostrava-se até o chão, como se o fizesse diante do próprio Deus, em sinal de adoração; ora, enfim, proclamava diante da Palavra: “Amém! Amém!”
            Para todos aqueles que creem na Sagrada Escritura, a Palavra não é algo, mas Alguém; a Palavra é uma Pessoa; a Palavra é o próprio Deus. Durante a leitura da Palavra, o povo ficou em pé; depois, levantou as mãos; depois, inclinou-se e prostrou-se... Como e com qual disposição ouvimos a Palavra de Deus em nossas celebrações? Quando nos deixamos tocar pela Palavra, ela provoca movimentos em nossa alma; movimentos positivos, como consolação e orientação, mas também movimentos negativos, como desolação e inquietação. Nós acolhemos a Palavra como um todo, ou rejeitamos aquilo que nela está contra os nossos interesses mundanos? Nós nos dobramos diante da verdade da Palavra de Deus, pronunciando o nosso “amém”, ou questionamos a Palavra, procurando negociar com ela até que se adapte aos nossos desejos, como se isso fosse possível?
Se o texto de Neemias nos mostra que a Sagrada Escritura é a Pessoa do próprio Deus que fala conosco, nós, cristãos, sabemos que a Palavra se fez pessoa humana em Jesus Cristo e veio habitar entre nós (cf. Jo 1,14). Jesus não é somente Aquele que nos anuncia a Palavra de Deus, mas Aquele capaz de falar ao coração humano, Aquele que transforma a letra em espírito, Aquele que revela para o hoje da nossa história pessoal e social o que Deus quer de nós. Se é verdade que a Sagrada Escritura não é um livro de história, mas um livro de fé, um livro escrito a partir de uma experiência de fé, de uma experiência de Deus, para falar à fé daquele que “hoje” escuta ou lê algum texto deste Livro Sagrado, Jesus nos convida a permitir que o “hoje” de cada um de nós seja iluminado pela verdade da Palavra.
“Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir” (Lc 4,21). Existem fatos bíblicos que aconteceram há mais de quatro mil anos, assim como existem textos bíblicos que foram escritos entre dois e três mil anos atrás. No entanto, a Sagrada Escritura tem algo a nos dizer “hoje”. Para o evangelista Lucas, todo “hoje” da nossa história pessoal e social é um momento único, um momento novo, onde somos chamados a fazer escolhas e a tomar decisões, e essas escolhas e decisões precisam ser orientadas pela Palavra de Deus. Se ontem nós acolhemos ou rejeitamos a orientação que Deus nos deu na Sua Palavra, hoje é um momento novo, a oportunidade que temos seja para confirmar nossos passos no caminho da salvação, seja para reorientar esses mesmos passos, caso tenhamos nos desviado deste caminho.
Como está o nosso “hoje”? Ele está marcado por um forte individualismo e por uma consequente indiferença uns para com os outros. Este nosso “hoje” é iluminado pela palavra do apóstolo Paulo, que nos coloca diante da imagem do corpo. Ninguém de nós é uma pessoa “solta” e totalmente autônoma no universo. Cada um de nós está inserido num “corpo” e depende deste mesmo corpo para viver. Existe o corpo-família, o corpo-escola/faculdade/universidade, o corpo-ambiente-de-trabalho, o corpo-igreja/comunidade-de-fé. Além disso, existe o corpo-social, o corpo-humanidade/universo. O apóstolo Paulo nos convida a reconhecer o nosso valor, a nossa importância e a nossa responsabilidade para o bom funcionamento do corpo no qual estamos inseridos, ao mesmo tempo reconhecendo, valorizando e respeitando o outro como membro do mesmo corpo.
O primeiro erro que precisamos evitar na maneira como nos inserimos no corpo social é o de nos sentirmos autossuficientes: “O olho não pode, pois, dizer à mão: ‘Não preciso de ti’. Nem a cabeça pode dizer aos pés: ‘Não preciso de vós’” (1Cor 12,21). Nós precisamos uns dos outros. Ninguém sobrevive sozinho; ninguém se salva sozinho. Quando uma pessoa se isola das demais, começa a fazer mal a si mesma e ao próprio corpo no qual está inserida. Além disso, existe o risco de desprezarmos pessoas que consideramos não importantes, não necessárias para o bom funcionamento do corpo social: “Os membros do corpo que parecem ser mais fracos são muito mais necessários do que se pensa... Deus, quando formou o corpo, deu maior atenção e cuidado ao que nele é tido como menos honroso, para que não haja divisão no corpo e, assim, os membros zelem igualmente uns pelos outros” (1Cor 12,22.25). Quando não nos preocupamos com aqueles que estão na injustiça e não são contemplados pelo mercado, isso acaba se voltando contra nós, em forma de violência social.
Por fim, Paulo nos fala da inter-relação que nos liga a todos ao mesmo destino de bem-estar ou de mal-estar, de vida ou de morte, de salvação ou de condenação: “Se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele; se é honrado, todos os membros se regozijam com ele” (1Cor 12,26). Apesar do forte individualismo que marca o mundo moderno, somos desafiados a desenvolver relações humanas, marcadas pela solidariedade, pela compaixão, o que significa sentir com o outro, sentir o que ele sente, ser afetado pelo que afeta o outro. O resgate do corpo social não é apenas possível, mas também necessário, e ele passa pelo cuidado de uns pelos outros.
A Palavra nos falou, nos provocou, nos iluminou. Façamos um momento de silêncio e deixemos com que ela possa “decantar” em nós, chegando ao profundo de nós mesmos e clareando o nosso “hoje”, o momento em que estamos vivendo...
    
ORAÇÃO: Deus Pai, coloco-me diante da Tua Palavra. Minha alma em Tua voz busca direção! Fala ao meu coração! Concede-me um coração que Te escute e Te obedeça, pois minha vida só poderá ser reconstruída quando eu me orientar pela verdade da Tua Palavra.
Senhor Jesus, Teu Evangelho não é uma recordação de fatos passados, mas força de salvação para o “hoje” da minha história. Abre meus ouvidos, para que ouça como verdadeiro discípulo e me deixe iluminar, conduzir, corrigir e formar por Tua Palavra. Que em cada “hoje” da minha vida não me falte a luz do Teu Evangelho para me guiar no caminho da salvação.
Espírito Santo, cada um de nós está inserido neste grande corpo social que é a humanidade. Torna-nos instrumentos de comunhão, de solidariedade e de fraternidade. Cura as feridas que o individualismo abriu em nós. Torna-nos cuidadores daqueles que são os mais frágeis e mais necessitados de cuidados, colaborando para a humanização do nosso mundo. Amém.


Pe. Paulo Cezar Mazzi