quinta-feira, 16 de abril de 2026

O RESSUSCITADO NOS FAZ VER (INTERPRETAR) OS ACONTECIMENTOS RUINS DE OUTRA FORMA

 Homilia do 3º. Dom. Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 2,14.22-33; 1Pedro 1,17-21; Lucas 24,13-35.

 

“Naquele mesmo dia, o primeiro da semana, dois dos discípulos de Jesus iam para um povoado, chamado Emaús, distante onze quilômetros de Jerusalém!” (Lc 24,13). Geograficamente, existem quatro lugares possíveis onde seria Emaús, mas o caminho que nos leva até lá é muito conhecido! É o caminho da desistência, do desencanto; um caminho que nós trilhamos com muita frequência, sempre que perdemos a nossa esperança. É o caminho da decepção consigo mesmo, ou com os outros, ou com a Igreja, ou com a vida, ou com o próprio Deus.

“Conversavam sobre todas as coisas que tinham acontecido. Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles. Os discípulos, porém, estavam como que cegos, e não o reconheceram” (Lc 24,14-16). “Onde está o Ressuscitado em minha vida?”, talvez você se pergunte. Ele está caminhando ao seu lado. Ele escuta a sua dor e as suas perguntas. Ele respeita o tempo que você precisa para digerir as coisas. Ele quer que você desabafe e fale tudo o que está engasgado na sua garganta. Ele o(a) incentiva a dar nome ao que você está sentindo, a tentar descrever com palavras a sua falta de esperança: “Nós esperávamos” (Lc 24,21).

Embora o Ressuscitado pise no mesmo chão que nós e comungue do nosso desencanto, da nossa perda de sentido, nós somos incapazes de reconhecê-lo, e o motivo é um só: nossos olhos estão presos à nossa dor, impedidos de olhar para além da nossa tristeza. Essa incapacidade de ver o Ressuscitado junto a nós é resultado da forma como interpretamos as coisas ruins que nos acontecem. Somente uma coisa pode abrir os nossos olhos: a Sagrada Escritura! Ela nos revela que a nossa existência não está nas mãos do acaso, mas inserida num propósito de Deus. Precisamos estar atentos a isso: o que mais nos faz sofrer não são os acontecimentos ruins, mas a forma como os interpretamos.

“Então Jesus lhes disse: ‘Como sois sem inteligência e lentos para crer em tudo o que os profetas falaram! Será que o Cristo não devia sofrer tudo isso para entrar na sua glória?’ E, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicava aos discípulos todas as passagens da Escritura que falavam a respeito dele” (Lc 24,25-27). Tanto a existência terrena de Jesus quanto a nossa está inserida num “deve”, num plano divino onde todos os acontecimentos que nos atingem têm uma razão de ser. Isso significa que cada dor que o Pai permite que atravesse o nosso caminho tem um propósito, e a atitude mais importante não é desistir da nossa existência, mas manter o foco no nosso “deve”: “Mesmo não compreendendo a razão da minha dor, eu devo me manter fiel à missão que a vida me confiou”.

“‘Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando!’ Jesus entrou para ficar com eles” (Lc 24,29). Eis o pedido fundamental, em nosso momento de perda de esperança: “Fica comigo, Senhor Jesus!”. Fica comigo até que eu aprenda a enxergar a vida para além da minha dor! Fica comigo e me sustente na fidelidade diária ao dever que o Pai me confiou! “Jesus entrou para ficar com eles”, uma outra forma de o evangelista Lucas afirmar: “Jesus ressuscitou para ficar conosco!”. E “quando se sentou à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes distribuía. Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus. Jesus, porém, desapareceu da frente deles” (Lc 24,30-31).

            “Ao partir o pão”. “Partir o pão” é o primeiro nome que a Eucaristia ganhará nas primeiras comunidades cristãs. Comentando este evangelho, o Missal Dominical afirma: “O mundo reconhece os cristãos quando eles sabem ‘partir o pão’. Partilhar o pão eucarístico implica em partilhar o pão social; um compromisso de justiça, de solidariedade, de defesa daqueles cujo pão é roubado pelas injustiças dos homens e dos sistemas sociais errados. O nosso ‘partir o pão’ não pode nos alienar da realidade” (Missal Dominical, p.269).

“Naquela mesma hora, eles se levantaram e voltaram para Jerusalém onde encontraram os Onze reunidos com os outros” (Lc 24,33). O caminho do abandono transforma-se agora em caminho da retomada do sentido. O Ressuscitado nos encoraja a voltar para a missão, para o nosso dever, enxergando os acontecimentos ruins de uma outra forma e compreendendo que a nossa vida não está nas mãos do acaso, nem do poder do mal, mas nas mãos do Pai, que dispõe todas as coisas segundo o Seu desígnio de salvação para conosco.  

Nossa oração: https://www.youtube.com/watch?v=nk1lxT4PVTo

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 9 de abril de 2026

O ÁRDUO CAMINHO DA FÉ

 Homilia 2º dom Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 2,42-47; 1Pedro 1,3-9; João 20,19-31.

 

“Se eu não vir, não acreditarei” (Jo 20,25). Eis a declaração da falta de fé de Tomé no Cristo ressuscitado. Traduzindo-a para hoje: “Se eu não sentir, se eu não me emocionar, não acreditarei” (fé infantil, que se alimenta de emoção); “Se eu não vir milagres, não acreditarei” (fé que exige intervenções miraculosas de Deus); “Se Deus não remover a minha dor e não curar a minha doença, não acreditarei” (fé que condiciona Deus a agir exatamente do modo como esperamos), etc. Em outras palavras, a nossa falta de fé está sempre presente quando, para crer, colocamos uma condição: “Se”.

            Quando Deus chamou Abraão para caminhar com Ele e lhe fez a promessa de uma terra e de um filho, “Abraão obedeceu e partiu, sem saber para onde ia” (Hb 11,8). A fé pura e verdadeira está aqui: Deus me chama e eu decido caminhar com Ele “sem saber para onde” sua mão me conduzirá. Não cabe a mim escolher o caminho mais fácil ou o que julgo ser o melhor. Não exijo que Deus me diga primeiro “para onde” quer me conduzir. Eu simplesmente confio e me deixo conduzir por Ele, ou seja, eu O obedeço. “A fé nunca sabe para onde está sendo conduzida, mas ela confia e ama Aquele que a conduz” (Oswald Chambers).

Para a Sagrada Escritura, fé é sinônimo de obediência. Para muitos pregadores pentecostais a fé é uma estratégia para você conseguir que Deus lhe conceda “bênçãos”, sendo a maioria delas coisas materiais, ganhos mundanos. As igrejas ainda estão cheias, o que faz com que pensemos que a fé tem aumentado no mundo. No entanto, a “religião” que mais cresce no mundo é a dos que não têm mais fé. E por que perderam a fé? Porque as promessas de prosperidade que lhes foram feitas por pregadores mundanos nunca se realizaram e, infelizmente, em muitos casos, o abandono da igreja também se estendeu para o abandono de Deus.

Jesus disse à samaritana: “o Pai procura adoradores que o adorem em espírito e verdade” (citação livre de Jo 4,23). O Pai procura filhos que tenham fé n’Ele e que O procurem por amor, e não por necessidades ou por desejos fantasiosos e egoístas. O Pai procura por homens e mulheres que confiem n’Ele o tempo todo, principalmente diante das contrariedades da vida. A fé que agrada o Pai é a fé que se abandona aos Seus cuidados e que deseja apenas uma coisa: obedecer, no sentido de fazer o tempo todo a Sua vontade, sabendo que essa vontade é unicamente o nosso bem.

A falta de fé de Tomé e a sua posterior confissão de fé nos ensinam que a fé é sempre um caminho a percorrer. Nós temos fé no Senhor ressuscitado que se definiu como “Caminho”, caminho apertado e exigente (cf. Mt 7,14). Ter fé é caminhar, é seguir o nosso Pastor “aonde quer que ele vá” (Ap 14,4), atravessando noites escuras, isto é, momentos de aridez espiritual, onde a nossa fé é provada, como disse o apóstolo Pedro: “Isto é motivo de alegria para vós, embora seja necessário que agora fiqueis por algum tempo aflitos, por causa de várias provações. Deste modo, a vossa fé será provada como sendo verdadeira - mais preciosa que o ouro perecível, que é provado no fogo” (1Pd 1,6-7).

Da mesma forma como a força das raízes de uma árvore é provada pelo vento contrário, assim as contrariedades da nossa vida servem para verificar o quanto a nossa fé é profunda e as nossas raízes estão, de fato, agarradas em Deus. Mas a grande prova da nossa fé é a perda daquilo que mais amamos; é quando o Pai nos pede para devolver-lhe algo que nos foi confiado, mas que Lhe pertence: “Foi pela fé que Abraão, tendo sido provado, ofereceu Isaac, seu único filho” (Hb 11,17), e o ofereceu porque tinha fé no “Deus que também é capaz de ressuscitar os mortos. Por isso, recuperou seu filho, como um símbolo” (Hb 11,19). Isaac, salvo do sacrifício, prefigurou Jesus, o Filho de Deus, sacrificado na cruz, mas ressuscitado pelo Pai, razão da nossa fé.    

“Tomé respondeu: ‘Meu Senhor e meu Deus!’” (Jo 20,28). Eis aqui a recuperação da fé de Tomé no Senhor Jesus ressuscitado. Ela aconteceu “oito dias depois” da primeira aparição do Ressuscitado aos seus discípulos. O evangelista João está nos dizendo que o domingo, dia do Senhor, é o dia ideal para o nosso encontro com o Ressuscitado, dia em que o Esposo visita a sua esposa, dia em que ele aquece o nosso coração com a sua Palavra e parte o Pão da Eucaristia, revelando a sua presença constante no meio de nós. Pensando exatamente em nós, o Ressuscitado afirmou: “Felizes os que creram sem terem visto” (Jo 20,28). Felizes os que não exigem sinais grandiosos para crer. Felizes os que suportam as noites escuras da fé e não soltam das minhas mãos.  

Palavra final: a fé sempre será um risco a correr. Se nós temos tudo garantido, não precisamos de fé. Ela nunca será certeza, mas sempre confiança. O Pai quer de nós uma única coisa: que confiemos n’Ele. Quanto à nossa fé, ela sempre será provada, para crescer, se purificar e se libertar de elementos estranhos, como a sensação, o sentir, as fortes emoções.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sábado, 4 de abril de 2026

“DEUS, QUE RESSUSCITOU O SENHOR, TAMBÉM NOS RESSUSCITARÁ PELO SEU PODER" (1Cor 6,14).

 Homilia do domingo de Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 10,34a.37-43; Colossenses 3,1-4; João 20,1-9

 

            O Evangelho do domingo de Páscoa nos apresenta três discípulos de Jesus diante do seu túmulo vazio: Maria Madalena, Pedro e o discípulo amado. Os três estavam machucados pela morte de Jesus na cruz. Nenhum deles esperava por sua ressurreição. Maria Madalena, ao encontrar o túmulo vazio, não pensa na ressurreição, mas acredita que o corpo de Jesus foi roubado. Assim como aqueles três discípulos, nossos olhos e nossos pensamentos estão presos na imagem daquilo que morre a cada dia em nós e no mundo, o que dificulta que enxerguemos sinais de ressurreição.

O discípulo amado “viu e acreditou” (Jo 20,8). Ele não viu Jesus, mas enxergou os sinais da sua ressurreição dentro do túmulo. Talvez, a nossa maior dificuldade em acreditar na ressurreição seja o fato de que continuamos a ver a vida ser vencida todos os dias pela morte. Mas crer na ressurreição não significa ter a garantia de escapar da morte. Nós só poderemos experimentar a alegria da ressurreição depois de experimentarmos a dor da morte! A fé na ressurreição não anula a morte, mas nos desafia a olhar para além dela, pois o Ressuscitado nos diz: “Não tenha medo! Eu sou o Vivente, estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos e tenho comigo as chaves da morte e da região dos mortos” (Ap 1,17-18).  

Se cremos que o Senhor Jesus ressuscitou, devemos levar uma vida de pessoas ressuscitadas, sabendo que a nossa ressurreição “está escondida com Cristo, em Deus” (Cl 3,3). Assim como a vida que está escondida dentro da semente só desabrocha quando ela morre, ou seja, quando é enterrada, assim também a nossa ressurreição só se dará a partir da nossa própria morte. Portanto, certa e digna de fé é esta Palavra: “Deus, que ressuscitou o Senhor, também nos ressuscitará a nós pelo seu poder” (1Cor 6,14). Assim como o Senhor Jesus, todos nós estamos destinados à ressurreição: “Semeado mortal, o corpo ressuscita imortal; semeado desprezível, ressuscita cheio de glória; semeado na fraqueza, ressuscita cheio de força; semeado corpo psíquico, ressuscita corpo espiritual” (1Cor 15,43-44).         

“Porque Ele vive, eu posso crer no amanhã”. Porque Cristo vive, depois de ter enfrentado a morte de cruz, eu posso lidar a minha cruz sustentado pela força da esperança. Porque Cristo vive, eu posso seguir pela vida sabendo que nada poderá me separar do amor de Deus, manifestado na pessoa de seu Filho Jesus (cf. Rm 8,37-39). Porque Cristo vive, eu posso suportar minhas provações crendo que Deus tem o poder de transformar tudo aquilo que eu entrego em Suas mãos (cf. Hb 11,17-18). Porque Cristo vive, eu confio ao Pai a minha necessidade diária de ressurreição, sabendo que a Páscoa não é obra minha, mas obra do Pai em mim. De fato, a fé na ressurreição nunca é a fé naquilo que eu posso fazer, mas sempre é a fé naquilo que o Pai pode fazer em mim e na vida daqueles por quem eu oro.  

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 3 de abril de 2026

"EU VIVO E VÓS VIVEREIS!" (Jo 14,19)

Homilia da Vigília Pascal. Palavra de Deus: Gênesis 1,26-31; Êxodo 14,15 – 15,1; Is 54,5-14; Romanos 6,3-11; Mateus 28,1-10.

 

As leituras bíblicas desta Vigília fazem memória desde a Criação até a Ressurreição. “Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou: homem e mulher os criou. Houve uma tarde e uma manhã: sexto dia” (Gn 1,26.31). Todo o processo de evolução da Terra e do ser humano tem Deus como princípio. Ao criar o ser humano, Deus lhe deu a sagrada liberdade de fazer escolhas. O ser humano, por sua vez, usando essa liberdade de maneira egoísta, pecou, ferindo a si mesmo e à criação. Abrindo mão da sua liberdade, o homem se tornou escravo das suas paixões desordenadas e de sistemas sociais injustos. Essa escravidão está retratada no livro do Êxodo. Mas Deus envia Moisés para libertar os hebreus do Egito e conduzi-lo à Terra Prometida.

Nesta noite, fazemos memória da miraculosa saída dos hebreus do Egito, da passagem da tristeza da escravidão para a alegria da libertação. Assim como aqueles hebreus, todos nós estamos presos a algum tipo de Egito. Podemos estar presos a um vício, a um pecado, a uma pessoa que nos adoece e nos faz mal, a uma dívida financeira, a uma culpa, a uma mágoa, a uma tristeza, a um luto, a uma injustiça social... Deus nos encoraja a nos levantar e a sair dessa situação, confiando que Ele abrirá o caminho e nos fará sair. Ele é o nosso Libertador, cuja força do Seu braço abre o Mar Vermelho dos obstáculos e das dificuldades, e nos faz passar, nos faz fazer Páscoa. A Ele louvamos, dizendo: “O Senhor é minha força, é a razão do meu cantar, pois foi ele neste dia para mim libertação!” (Ex 15,2). 

Apesar de sermos homens e mulheres libertos, é muito comum nos sentirmos às vezes abandonados e desorientados. As mudanças cada vez mais rápidas e contínuas causam em nós medo e insegurança quanto ao futuro. Até mesmo a nossa confiança no amor de Deus por nós sofre abalos. Mas eis que o Senhor nos diz: “Podem os montes recuar e as colinas abalar-se, mas minha misericórdia não se apartará de ti, diz o teu misericordioso Senhor” (Is 54,10). Podemos passar por grandes incertezas e profundas crises, mas a misericórdia do Pai, a forma mais perfeita do Seu amor por nós, não se afastará de nós e haverá de nos sustentar até o fim. Assim podemos dizer como o salmista: “Vós tirastes minha alma dos abismos e me salvastes, quando estava já morrendo! Transformastes o meu pranto em uma festa, Senhor meu Deus, eternamente hei de louvar-vos!” (Sl 30,4.12a.13b.).

O dia de ontem nos mergulhou na sombra escura da morte. Ela, a morte, se faz sentir em muitos momentos da nossa vida: na doença, na separação, no luto, nas más notícias, no fracasso, na frustração etc. Como nos ensina o apóstolo Paulo, há uma comunhão entre a morte de Jesus e as nossas experiências de morte. Isso significa que o nosso sofrer nunca é solitário, mas acompanhado pelo Cristo sofredor. Mas Cristo ressuscitou! Ele venceu a morte e destinou a todos nós a sermos ressuscitados e a vivermos com ele na glória do Pai! Aí está a razão da nossa esperança: “Se fomos de certo modo identificados a Jesus Cristo por uma morte semelhante à sua, seremos semelhantes a ele também pela ressurreição” (Rm 6,5). Por isso, podemos fazer nossas as palavras do salmista: “A mão direita do Senhor me levantou, a mão direita do Senhor fez maravilhas! Não morrerei, mas ao contrário, viverei para cantar as grandes obras do Senhor!” (Sl 118,16-17).

A liturgia da Palavra desta Vigília Pascal chega ao seu ponto mais alto com a proclamação do Evangelho da ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nele há uma mistura de tristeza, medo e alegria. As duas mulheres que vão ao túmulo representam a nossa tristeza por tudo o que já morreu em nossa história de vida. A elas e a nós são anunciadas, tanto pelo anjo quanto pelo próprio Cristo ressuscitado, as seguintes palavras: “Não tenham medo!” (Mt 28,5.10). Nos tempos atuais, o medo se tornou nosso incômodo companheiro íntimo de todos os dias. Jesus veio nos ensinar a confiar no Pai, mas tanto os acontecimentos do dia a dia quanto diversas pregações ameaçadoras, que deformam o Pai num juiz severo e impiedoso, empurram a confiança para fora do nosso coração e o enchem de medo.

“Não tenham medo!” (Mt 28,5.10). O medo nasce da percepção de que nós não podemos controlar determinadas situações. O Ressuscitado nos convida a abrir mão do controle, a sair das mãos do medo, que nos prendem a uma angústia diária, e a nos confiar às Suas mãos. Tudo aquilo que não controlamos, Ele controla. Tudo aquilo que não podemos superar e vencer, Ele supera e vence por nós. Eis porque o Ressuscitado nos convida à alegria nesta noite: “Alegrem-se!” (Mt 28,9). A ressurreição de Jesus não mudou nada no mundo, que continua ameaçador, mas muda a forma como aqueles que creem lidam com as contrariedades da vida: “Em tudo isso somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou” (Rm 8,37). Eis, portanto, a razão da nossa alegria: a verdade da ressurreição de Cristo firma a nossa vida na sua promessa: “Eu vivo e vós vivereis” (Jo 14,19).

Feliz e Santa Pácoa a você e sua família!

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi   

 

 

 


quarta-feira, 1 de abril de 2026

MESMO A SITUAÇÃO MAIS TRÁGICA PODE SE TORNAR LUGAR E CAUSA DE SALVAÇÃO

 Homilia de Sexta-feira Santa. Palavra de Deus: Isaías 52,13 – 53,12; Hebreus 4,14-16; 5,7-9; João 18,1 – 19,42.

 

A nossa experiência de cruz é o lugar onde Deus escolheu manifestar a força da Sua salvação, como diz o Pe. Amedeo Cencini: “Depois que Cristo morreu na cruz, toda situação, inclusive a mais frágil e trágica ou a aparentemente falimentar e maldita, pode tornar-se lugar e causa de salvação. Ou seja, se um crime horrendo foi o contexto histórico escolhido por Deus ou por meio do qual o Pai nos salvou, isso quer dizer que qualquer cenário histórico é ideal para se viver a própria história pessoal de salvação”.

Quando sofremos, costumamos maldizer a situação que nos faz sofrer. Maldizemos a doença, o conflito, a crise, a separação, a perda. Se pudéssemos, eliminaríamos da nossa vida aquele momento. Se pudéssemos, fugiríamos para outro lugar, mas o lugar da nossa dor é justamente o lugar da nossa salvação. O sofrimento pelo qual passamos está ali para nos ensinar algo importante: ou temos uma grande parcela de responsabilidade na dor que estamos experimentamos, ou aquela dor é o custo da nossa fidelidade a Deus e à nossa própria consciência.

“Qualquer cenário histórico é ideal para se viver a própria história pessoal de salvação”. Seu casamento, sua trabalho, sua família, sua rotina de vida, sua separação, sua perda, sua solidão, seu fracasso – cada uma dessas situações pode se tornar o lugar ideal para a sua salvação. Mas, atenção! Nenhum sofrimento salva por si mesmo: é a nossa postura diante dele que pode nos salvar ou nos arruinar ainda mais. É a consciência de que a vida ensina somente quem está disposto a aprender que nos torna seres humanos melhores, a partir do confronto com a dor que nos cabe enfrentar.   

O outro lado da moeda: o sofrimento não existe somente para ser acolhido e aceito; ele também precisa ser questionado. “O individualismo nega a responsabilidade social do sofrimento. Devem ser melhoradas não as condições sociais, mas sim as da alma. Analgésicos, prescritos em massa, ocultam relações sociais que levam à dor. Cada um tem de cuidar da própria felicidade. Ela se torna um assunto privado. Também o sofrimento é interpretado como resultado do próprio fracasso” (Byung-Chul Han, Sociedade paliativa – a dor hoje).

Inúmeras doenças são consequência das más condições de trabalho. Além disso, a indústria farmacêutica não existe para curar doenças, mas apenas para aliviar dores. Quanto mais pessoas curadas, menos lucro para os empresários da dor; quanto mais dor e sofrimento, maior o lucro deles. Quanto a nós, população, cada um vive sua vida e sofre suas dores convencido de que “cada um tem de cuidar da própria felicidade”, e quem não consegue se livrar do sofrimento se sente fracassado como pessoa. Ou seja, não há nada de errado com o mundo do trabalho, nem com a indústria da dor, mas com você, que não dá conta de ser feliz.

Há um sentido oculto no sofrimento? Segundo Thomas Merton, o sofrimento não possui, por si mesmo, qualquer força ou valor. Tudo depende do modo como o enfrentamos. Sem Deus, a dor é maldição: pode endurecer a alma e nos tornar amargos. Mas à luz de Deus compreendemos que o sofrimento nos oferece a ocasião de nos tornar melhores do que somos. A dor ganha valor quando nos ajuda a rever prioridades, retomar o que estava esquecido e abandonar o que nos prejudica, mas tratamos como algo precioso.  

Jesus morreu por ser verdadeiramente homem. Isso também significa que a morte nos humaniza. “Somos mais humanos quando morre nossa onipotência, quando se desfaz a arrogância com que acreditávamos dominar o mundo. Somos mais humanos quando perdemos a mania de grandeza, de ter controle sobre tudo, quando somos expostos ao nosso próprio desamparo e percebemos nossa própria fragilidade. Trazemos dentro de nós uma ferida que não fecha, uma fome que não sacia, uma sede que não passa” (Nilson Perissé). Tudo isso é a nossa abertura ao transcendente, a nossa destinação à vida eterna.  

Jesus abraçou a sua morte a partir da imagem de um grão de trigo: “Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas se morrer, produzirá muito fruto” (Jo 12,24). Assim também podemos entender a nossa vida: tudo o que eu quero manter a todo custo (não morrer) se estraga e adoece (solidão); tudo o que eu abro mão e deixo ir (morrer) prepara a minha existência para algo muito maior (muito fruto). Em nosso deixar cair diariamente o grão de trigo que somos, rezemos: “Senhor, eu ponho em vós minha esperança. Em vossas mãos, Senhor, entrego o meu espírito. A vós, ó meu Senhor, eu me confio, e afirmo que só vós sois o meu Deus! Eu entrego em vossas mãos o meu destino” (Sl 31).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi 



 

terça-feira, 31 de março de 2026

O CORDEIRO SE FEZ PÃO PARA OS SOFRIDOS DO MUNDO

 Missa da Ceia do Senhor. Palavra de Deus: Êxodo 12,1-8.11-14; 1Coríntios 11,23-26; João 13,1-53.

 

Nesta noite começamos a celebração da Páscoa. Ela se inicia com a memória da entrega de Jesus, entrega que, antes de se dar na cruz, deu-se numa Ceia: “Na noite em que foi entregue, o Senhor Jesus tomou o pão... ‘Isto é o meu corpo, que é dado por vós’... Depois da ceia, tomou também o cálice e disse: ‘Este cálice é a nova aliança, em meu sangue’” (1Cor 11,23.24.25). Jesus celebra a última Ceia com seus discípulos “entregando-se livremente” porque viveu a sua vida a partir de uma convicção: “Eu sou uma missão nesta terra e por isso estou neste mundo” (Papa Francisco).

            O texto do Êxodo nos convida a fazer memória da páscoa dos hebreus, quando cordeiros foram sacrificados para proteger as suas famílias por meio do sangue passado nas portas das casas. Ao celebrar a páscoa, Jesus dá um novo sentido ao sangue dos cordeiros. Sangue derramado significa amor que se sacrifica. Sem sacrifício, ninguém salva aquilo que ama. Jesus “amou os seus até o fim” (Jo 13,1). Se é verdade que “sem derramamento de sangue não há remissão” (Hb 9,22), Jesus é o verdadeiro Cordeiro que derrama, livre e conscientemente, o seu sangue pela remissão de todo ser humano, de modo que cada um pode dizer como São Paulo: “A minha vida presente na carne eu a vivo pela fé no Filho de Deus que me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2,20).

O sacrifício de Jesus na cruz foi oferecido uma única vez, mas “todas as vezes que comemos deste pão e bebemos deste cálice, estamos proclamando a morte do Senhor, até que ele venha” (cf. 1Cor 11,26). Em cada Eucaristia Jesus abraça o nosso passado – Ele morreu por nós –, o nosso presente – Ele está no meio de nós –, e o nosso futuro – Ele virá para nos introduzir no banquete do Reino de Deus. Esse banquete do Reino se antecipa em cada Eucaristia, onde Jesus revela o sentido da sua entrega e missão: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes. Eu não vim chamar justos, mas pecadores” (Mt 9,12.13).    

            Neste dia da instituição da Eucaristia, precisamos nos lembrar de algumas verdades importantes: “Jesus não instituiu a Eucaristia para o deleite espiritual de grupos seletos, mas para romper com ‘bolhas místicas’ e se tornar pão para os feridos do mundo. Muitos se esforçam por ‘estar diante de Deus’, adorando o Santíssimo Sacramento, mas se esquecem de que Deus escolheu estar junto aos pobres. Nós não podemos ter os olhos voltados para o Santíssimo Sacramento e dar as costas para o sofrimento alheio. Aquele que está na hóstia é Aquele que disse: ‘Eu estava com fome e você me deu de comer’” (Mt 25,35). Cristo está onde a vida dói. A Eucaristia é pão para o mundo” (Guillermo Jesus Kowalski, O sequestro do Santíssimo Sacramento).

Foi exatamente enquanto celebrava a última Ceia com seus discípulos que Jesus disse: “Eu estou no meio de vós como aquele que serve” (Lc 22,27). Por isso, a última lembrança que Jesus quis que seus discípulos tivessem dele foi a de lavar-lhes os pés, uma atitude própria de escravos. “Se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz” (Jo 13,14-15). Como identificar uma pessoa que comunga? Pelo serviço que ela realiza em favor dos outros.

Dizia Madre Teresa de Calcutá: “Não devemos permitir que alguém saia da nossa presença sem sentir-se melhor e mais feliz” (Madre Teresa de Calcutá). Compreender isso é dispor-se a lavar os pés dos outros, sabendo que “há sempre um lar que nos espera, um ambiente carente, um serviço urgente. Há pessoas que aguardam nossa presença compassiva e servidora. Sempre teremos pés para lavar, mãos estendidas para acolher, irmãos que nos esperam, situações delicadas a serem enfrentadas com coragem... Isso é viver a Eucaristia no cotidiano da vida” (Pe. Adroaldo).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi  

 

quinta-feira, 26 de março de 2026

“DIGA-ME A SUA RELAÇÃO COM A DOR, E EU TE DIREI QUEM VOCÊ É” (ERNEST JÜNGER).

 Homilia do Domingo de Ramos. Palavra de Deus: Isaías 50,4-7; Filipenses 2,6-11; Mateus 27,11-54 (forma breve).

 

O julgamento de Jesus por Pilatos se deu na véspera da páscoa dos judeus. Essa festa celebrava a libertação dos israelitas do Egito, povo que Deus chamou de “meu filho”. Mas agora, os chefes judaicos prenderam o Filho único de Deus, Jesus Cristo. O motivo verdadeiro é a inveja; o motivo falso é a ameaça que Jesus representa ao Império Romano. Quando o Evangelho denuncia os nossos erros e revela que nossas atitudes são contrárias ao Reino de Deus, nós também acabamos por rejeitar Jesus e mantê-lo afastado de nós. Pensamos, dessa forma, “condenar” Jesus, mas nós é que acabamos nos condenando.

Pilatos sabe que Jesus é inocente, e por isso tenta libertá-lo através da anistia pascal. Mas os líderes religiosos incentivam a multidão a pedir a libertação de Barrabás (cf. Mt 27,17), nome que significa “filho de pai nenhum”. Com quem nos identificamos: com Jesus, o Filho de Deus, ou com Barrabás, o filho “sem pai”? O pai representa a autoridade, a disciplina e a correção. Nós aceitamos ser educados e corrigidos pelo nosso Pai, ou buscamos viver nossa vida de modo “desenfreado”, isto é, sem o freio da voz de Deus em nossa consciência? Não nos esqueçamos de que hoje os líderes religiosos foram substituídos por inúmeros influenciadores digitais que “adotam” inúmeros filhos sem pais, pervertendo sua consciência e seus valores.

“Pilatos mandou trazer água, lavou as mãos diante da multidão, e disse: ‘Eu não sou responsável pelo sangue deste homem!’. O povo todo respondeu: ‘Que o sangue dele caia sobre nós e sobre os nossos filhos’” (Mt 27,24). Assim como a multidão, nós também queremos ver sangue! Os filmes e os vídeos que mais chamam a nossa atenção têm sangue, violência e morte; igualmente, a maioria dos jogos de vídeo game. O gesto de lavar as mãos significa tornar-se indiferente ao sofrimento dos outros; não responsabilizar-se por nada nem por ninguém. No entanto, nossa indiferença para com a desgraça alheia acaba por atrair a desgraça sobre nós. Diante do sofrimento de uma pessoa só existem duas atitudes possíveis: ou o lavar as mãos (indiferença), ou ajudar a pessoa a carregar a sua cruz (o Cireneu).  

“Ali deram vinho misturado com fel para Jesus beber. Ele provou, mas não quis beber” (Mt 27,34). Essa bebida servia para anestesiar os sentidos do crucificado. No seu livro “Sociedade paliativa – a dor hoje”, o filósofo sul coreano Byung-Chul Han nos lembra que a forma como lidamos com a dor revela o tipo de pessoa que somos: “Diga-me a sua relação com a dor, e eu te direi quem você é” (Ernest Jünger). “Para fugir da dor, busca-se uma anestesia permanente. Não temos mais coragem para a dor. Os filhos são educados não para serem humanos, mas para serem pessoas de um desempenho permanentemente feliz, o mais insensível possível à dor” (Byung-Chul Han). 

Os líderes religiosos insultavam Jesus dizendo: “Desça agora da cruz! e acreditaremos nele. Confiou em Deus; que o livre agora, se é que Deus o ama! Já que ele disse: Eu sou o Filho de Deus” (Mt 27,43-44). Aqui está o retrato de muitos cristãos: o constante desejo de ver milagres, para só então terem fé. Aqui está o nosso retrato também: produzimos morte à nossa volta, e depois gritamos a Deus que ressuscite aquilo que nós mesmos matamos.

“Desde o meio-dia até às três horas da tarde, houve escuridão sobre toda a terra” (Mt 27,35). Aquele que é a “Luz do mundo” (Jo 8,12) foi rejeitado e crucificado. Na Bíblia, a experiência da escuridão é a experiência do abandono de Deus. Ele é luz, mas essa luz parece estar completamente ausente da nossa vida. “Esta terrível sensação de perda – esta escuridão indizível – esta solidão... A escuridão é tal, que realmente não vejo mais nada – nem com a mente nem com a razão. O lugar de Deus na minha alma é um espaço vazio. Não há Deus em mim. Eu sinto que Ele não me quer” (Madre Teresa, “Venha, seja a minha luz”, pp.13-14). Não há um ser humano que nunca se sinta abandonado por Deus em algum momento da vida.

“Pelas três horas da tarde, Jesus deu um forte grito: ‘Eli, Eli, lamá sabactâni?’, que quer dizer: ‘Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?’” (Mt 27,46). “Jesus não duvida da existência de Deus nem de seu poder para salvá-lo. Queixa-se de seu silêncio: onde está? Por que se cala? Por que o abandona precisamente no momento em que mais precisa dele? Jesus morre na noite mais escura. Morre com um ‘por quê?’ nos lábios” (Pagola, “Jesus – aproximação histórica”, p.484).

“E eis que a cortina do santuário rasgou-se de alto a baixo, em duas partes, a terra tremeu e as pedras se partiram” (Mt 27,51). Aí está a resposta do Pai ao sentimento de abandono do Filho. O coração do Pai se rasga de dor por todos os seus filhos mortos pela violência. O céu se rasga para receber o espírito do Filho de Deus. Se o pecado do homem havia fechado o céu (cf. Is 63,19), a morte redentora de Jesus abre o céu definitivamente a todo aquele que confia na misericórdia do Pai.

“O oficial e os soldados que estavam com ele guardando Jesus, ao notarem o terremoto e tudo que havia acontecido, ficaram com muito medo e disseram: ‘Ele era mesmo Filho de Deus!’” (Mt 27,54). É diante de uma experiência de cruz que a nossa fé deve se pronunciar. “Guardei a minha fé mesmo dizendo: ‘É demais o sofrimento em minha vida!’” (Sl 116,1).  

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

quinta-feira, 19 de março de 2026

VENHA PARA FORA DA SEPULTURA EM QUE VOCÊ SE ENTERROU!

 Homilia do 5º dom. Quaresma. Palavra de Deus: Ezequiel 37,12-14; Romanos 8,8-11; João 11,1-6.11.14-15.17.19-27.33-45.

           

            “A tragédia não é quando um homem morre. A tragédia é o que morre dentro de um homem quando ele está vivo” (Albert Schweitzer). “Os homens de hoje vivem como se nunca fossem morrer, e morrem como se nunca tivessem vivido” (Dalai Lama). Essas duas frases nos mostram o grande perigo de estarmos vivos biologicamente, mas mortos na alma (vida emocional) ou no espírito (nossa esperança em Deus). O quê já morreu dentro de você? O quê você decidiu enterrar, por não acreditar na possibilidade de aquilo ser ressuscitado? Você tem consciência de que a sua vida aqui é finita? Essa consciência o(a) ajuda a dar prioridade ao que é essencial e não se perder no que é ilusório e passageiro?  

            Durante a sua experiência de exílio na Babilônia, Israel deixou morrer a sua esperança: “A nossa esperança está desfeita. Para nós tudo está acabado” (Ez 37,11). Essa perda de esperança pode estar no coração de uma pessoa que se separou, de alguém que está na fase terminal de um câncer, na pessoa que perdeu um ente muito querido, num homem que despencou financeiramente do seu pedestal, em alguém que se sente absolutamente condenado por Deus etc.

            Mas Deus fez uma promessa: “Eu vou abrir as vossas sepulturas e conduzir-vos para a terra de Israel” (Ez 37,12). E isso aconteceu no ano 538 aC, quando o Senhor pôs fim ao exílio, através do rei persa, Ciro, e Israel pôde voltar ao seu país e reconstruir sua vida. Nossa esperança humana pode não durar muito tempo, mas aqueles que aprendem a esperar em Deus serão retirados do túmulo do seu desespero e da sua falta de sentido para a vida, mesmo quando se perguntam: “Para quê continuar a viver?”.

              Se Deus concedeu a Israel a sua “ressurreição”, ou seja, a libertação do exílio, Ele preparou para nós algo muito maior: a ressurreição em Seu Filho Jesus, o Filho que chora a morte de todo ser humano porque o ama (cf. Jo 11,33). Jesus chora quando levamos uma vida autodestrutiva, abrindo sepulturas para nós mesmos e para aqueles que amamos. Jesus chora por uma humanidade constantemente exposta à morte por uma “economia que mata” (Papa Francisco). Jesus chora, e o seu choro questiona a nossa sensibilidade anestesiada, a nossa perda de capacidade de chorar por tudo o que morre à nossa volta, às vezes com a nossa colaboração.

Todos nos reconhecemos na súplica das irmãs de Lázaro: “Senhor, aquele que amas está doente” (Jo 11,3). Todos temos a mesma ideia errada: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido” (Jo 11,21). Achamos que a morte aconteceu porque Jesus não nos ama de verdade. De fato, Jesus pode não atender à nossa oração e permitir que uma doença leve um ente querido nosso à morte, porque tem um propósito maior: “Lázaro está morto. Mas por causa de vós, alegro-me por não ter estado lá, para que creiais” (Jo 11,15). Jesus não veio impedir a morte física, que um dia alcançará a todos nós, mas nos convidar a ter uma fé para além do sofrimento de uma doença e da dor profunda, que a morte de quem amamos nos causa.

“Onde o colocastes?” (Jo 11,34), perguntou Jesus às irmãs de Lázaro. Jesus hoje nos pergunta onde enterramos a nossa fé e sepultamos a nossa esperança. Onde enterramos os nossos talentos, o nosso desejo de trabalhar por um mundo melhor, pela restauração da nossa família, pelo anúncio do Evangelho? Jesus nos encoraja a nos colocar diante do nosso túmulo existencial, onde ali já nos enterramos vivos, e diante da sepultura do nosso ganho secundário, Ele nos faz o convite: “Vem para fora!” (Jo 11,43). Jesus pergunta se nós realmente desejamos sair do túmulo do vitimismo, do desânimo e da autopiedade. Nós realmente queremos voltar a viver e a lidar com aquilo que a vida está colocando diante de nós? Não existe possibilidade de ressurreição, nesta vida, para quem não deseja mais viver.

“Vem para fora!” (Jo 11,43). Abra as janelas do seu quarto escuro e deixe entrar a luz do sol! Apesar do medo, do desânimo e da sua total perda de esperança, faça o esforço de sair da sua cama, abrir a porta do seu quarto e voltar a acolher a vida que te aguarda. Não deseje morrer só porque as coisas não estão como você gostaria que estivessem; aprenda a acolher a vida como ela é. Não gaste energia à toa brigando com a realidade e não permita que ela seja a sua desculpa para não lutar pela vida, sua e daqueles a quem você ama. E se, por acaso, não houver em você a mínima vontade de continuar vivo(a), clame o Espírito Santo, força vital de Deus em nós e promessa da nossa ressurreição, lembrando-se de que “aquele que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos vivificará também vossos corpos mortais por meio do seu Espírito que mora em vós” (Rm 8,11).

Palavra final: Cristo é água para nossa sede, luz para nossas trevas, ressurreição para nossa vida. N’Ele tudo está destinado à ressurreição! (parafraseando o Missal Cotidiano).  

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi   

 

quarta-feira, 11 de março de 2026

UNGE OS MEUS OLHOS, PRECISO OLHAR ALÉM!

 Homilia 4º dom. Quaresma: Palavra de Deus: 1Samuel 16,1b.6-7.10-13a; Efésios 5,8-14; João 9,1-3.6-9.13-17.24-25.31-41.

 

            Este cego de nascença, curado por Jesus, fala sobre a deficiência da nossa visão, já revelada na primeira leitura: “O homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração” (1Sm 16,7). Nossa visão é sempre superficial. Além disso, o excesso de visualização de imagens, mensagens e vídeos não permite que nós meditemos sobre aquilo que estamos vendo. Isso faz com que olhemos com pouca ou nenhuma atenção. Assim, no dia a dia convivemos com pessoas sem vê-las, sem olhar para elas com profundidade. E sem esse olhar profundo, não prestamos atenção ao que as pessoas  podem estar nos comunicando.

            “Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença” (Jo 9,1). Jesus enxerga um homem que não pode enxergá-lo. Isso nos lembra da experiência que Agar, escrava de Sara, fez de Deus, enquanto chorava no deserto: “O Deus que eu não posso ver me fez enxergar, quando eu não via mais saída para a minha vida” (citação livre de Gn 16,13-14). O Deus que não vemos nos vê; Ele enxerga tudo o que se passa conosco e tudo o que existe dentro de nós e é desconhecido não só pelos outros, mas também por nós mesmos. “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração! Perscruta-me, e conhece minhas preocupações! Vê se não ando por um caminho fatal e conduze-me pelo caminho eterno” (Sl 139,23-24).

            Assim como Jesus, seus discípulos também viram o cego de nascença, mas a visão deles era distorcida: “Mestre, quem pecou para que nascesse cego: ele ou os seus pais?” (Jo 9,2). Como vemos somente a aparência e não o coração, nosso olhar se engana ao interpretar aquilo que vemos. A visão religiosa mais distorcida é a de causa e efeito: diante do efeito – sofrimento –, interpreta-se erroneamente a causa – castigo divino. O judaísmo da época de Jesus acreditava que a criança podia pecar ainda no ventre da mãe, o que explicaria porque ela nasceu com alguma deficiência.

Jesus veio corrigir a visão distorcida que nós temos a respeito de Deus e do sofrimento: “Nem ele nem seus pais pecaram, mas isso serve para que as obras de Deus se manifestem nele” (Jo 9,3). É uma imensa crueldade e um grande engano dizer a uma pessoa que está sofrendo que a razão do seu sofrimento se deve aos pecados que ela cometeu. Jesus entende que toda situação de sofrimento é ocasião para que se manifeste a glória do Pai, ou seja, o seu amor que restaura a vida de cada criatura e, sobretudo, de cada ser humano. Desse modo, Jesus faz barro e unge os olhos do cego, mandando que ele se lave na piscina. Se o barro recorda, biblicamente, a criação do ser humano (cf. Gn 2,7), Jesus toca na criação adoecida a fim de curá-la, pois Ele veio completar a obra iniciada pelo Pai: “Completai em mim a obra começada. Ó Senhor, eu vos peço: não deixeis inacabada esta obra que fizeram vossas mãos” (Sl 138,8).      

“Ora, era sábado, o dia em que Jesus tinha feito lama e aberto os olhos do cego. Os fariseus então disseram ao cego curado: ‘Esse homem não vem de Deus, pois não guarda o sábado’” (Jo 9,14.16). Uma vez que as lideranças religiosas judaicas não conseguem negar o milagre que Jesus realizou, procuram desacreditá-lo perante o povo, afirmando que ele não veio de Deus. Mas o homem curado se posiciona com firmeza: “Jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. Se este homem não viesse de Deus, não poderia fazer nada” (Jo 9,32-33). Um homem que nunca enxergou desmascara a inveja religiosa dos líderes judaicos e a sua obstinação em não querer enxergar os fatos. Estes, por sua vez, escancaram a verdade da sua presunção religiosa: “Tu nasceste todo em pecado e estás nos ensinando?” E expulsaram-no da comunidade (Jo 9,34).

Devemos tomar muito cuidado com fundamentalistas religiosos, que fazem sucesso na Internet e têm muitos seguidores. São pessoas presunçosas, que procuram desacreditar o Magistério da Igreja (Papa e CNBB), para cegarem seus adeptos com o seu “magistério paralelo”, afirmando que a Igreja sempre foi conservadora. Jesus nunca foi um conservador; prova disso é a cura que acabamos de ver, realizada num dia de sábado. Portanto, se alguns líderes religiosos cegam seus seguidores, Jesus veio nos libertar de todo tipo de cegueira, sobretudo da mais perigosa, que é a cegueira causada pela religião.  

No final do Evangelho temos dois homens que foram rejeitados pela religião: Jesus (“Apanharam pedras para atirar nele; Jesus, porém, ocultou-se e saiu do Templo” – Jo 8,59) e o homem curado (“Expulsaram-no da comunidade” – Jo 9,34). Tanto fundamentalismo político quanto o religioso são adeptos da violência, quando se trata de defender a cegueira das suas respectivas visões fundamentalistas de mundo. A boa notícia é que Jesus sempre resgata o que a religião descarta.

Uma palavra final: a constante busca por aprovação pode impedir que uma pessoa seja curada da sua cegueira. Ela não consegue suportar “ser expulsa” do círculo em que se habituou a viver, enxergando a vida a partir da visão distorcida dos seus amigos. Somente quem aceita romper com sua dependência de “guias cegos”, e suportar a solidão de começar a enxergar a vida por si mesmo, é que consegue ter uma visão melhor de si, do mundo e do próprio Deus.

"Unge os meus olhos, preciso olhar além, e me lançar sem medo ao novo que Tu tens!" (Celina Borges, Da tua unção).

 Pe. Paulo Cezar Mazzi  

           

quinta-feira, 5 de março de 2026

DA VERDADE É A NOSSA SEDE MAIS PROFUNDA

Homilia do 3º dom. Quaresma. Palavra de Deus: Êxodo 17,3-7; Romanos 5,1-2.5-8; João 4,5-15.19b-26.39a.40-42 (forma breve).

 

    1. Sede.

A água é o principal componente do corpo humano, representando cerca de 60% do peso corporal de um adulto saudável. Quando a ingestão de água fica abaixo do necessário, o organismo dá sinais, como dores de cabeça, cansaço, dificuldade de concentração, pele ressecada e intestino preso. Mas existe também outro tipo de sede: “Ó Deus, tu és o meu Deus, eu te procuro. Minha alma tem sede de ti, meu corpo também vos deseja, como terra árida, sedenta e sem água” (Sl 63,2). A sede mais profunda do ser humano é a sede da comunhão com Deus.

Algumas vezes, o desejo imediato de saciar a nossa sede pode pôr a perder o processo da nossa libertação. Por causa da sua sede no deserto, o povo de Israel duvidou de Deus: “O Senhor está no meio de nós, ou não?” (Ex 17,7). Caminhar com Deus não significa ter a nossa sede imediatamente satisfeita, mas suportá-la como parte do processo de quem está se libertando de algum tipo de escravidão. Além disso, o mesmo Deus que nos liberta é aquele que nos sustenta na travessia do nosso deserto: “Toma a tua vara com que feriste o rio Nilo e vai. Eu estarei lá, diante de ti, sobre o rochedo, no monte Horeb. Ferirás a pedra e dela sairá água para o povo beber” (Ex 17,5-6). Quando o nosso coração se endurece como pedra, precisa ser ferido por Deus, para dele que volte a escorrer água.

 

2. Cristo, fonte de água viva!

São Paulo afirma que o rochedo que ofereceu água ao povo era Cristo (1Cor 10,4)! “Cansado da viagem, Jesus sentou-se junto ao poço. Era por volta do meio-dia. Chegou uma mulher da Samaria para tirar água. Jesus lhe disse: ‘Dá-me de beber’” (Jo 4,6-7). Jesus comunga da sede que todo ser humano tem de vida, de justiça, de felicidade e de paz. Ele mesmo disse: “Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (Mt 5,6).

 

       3. A mulher.   

A samaritana também é cansada e sedenta. Ela está cansada de errar na sua vida afetiva. Já teve cinco maridos e agora vive com um homem que não é seu marido. Ela retrata as inúmeras mulheres sem marido que sustentam sozinhas a casa e os filhos. São mulheres que, apesar da decepção com os homens, desejam ser amadas e têm amor para dar. A sede da samaritana também é a sede por justiça das famílias das mulheres mortas por seus companheiros, por homens que não admitem que “tudo aquilo que não cuidamos, perdemos” (Içami Tiba, “Quem ama, educa!”).

Mas, na Bíblia, o marido simboliza Deus. Paulo afirma que Cristo é o Esposo da Igreja (cf. Ef 5,25-26). A samaritana é o retrato da humanidade que busca a Deus, uma humanidade ferida por religiões que, em nome de Deus, incentivam a violência, justificam guerras e envenenam os corações de seus seguidores de ódio pelo diferente. No Pai e no Filho encontramos o amor que ama incondicionalmente, amor que deseja salvar a todos e que tem uma inclinação maior por aqueles que o mundo não ama.    

 

        4. Jesus, amor que responde ao coração humano.

“Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva... Quem beber da água que eu lhe darei, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna” (Jo 4,10.14). Jesus é o dom do Pai para a humanidade. “Quem tem sede, venha a mim e beba” (Jo 7,37). A condição para ser curado é reconhecer-se doente; para ser liberto é reconhecer-se prisioneiro de algo ou de alguém; para ser salvo é ter sede. Jesus é dom, e o dom não exige o mérito da pessoa que o deseja ou dele necessite. O amor (de Deus, manifestado em seu Filho, cf. Rm 5,8) não ama porque o outro merece, mas porque precisa ser amado para ser curado, liberto e salvo.

 

        5. A verdade.

Sem dúvida, a mulher samaritana quis a água viva que Jesus lhe prometeu dar. Mas ele a desafiou a reconhecer antes a sua verdade: “Eu não tenho marido” (Jo 4,17). Jesus disse: “Disseste bem, que não tens marido, pois tiveste cinco maridos, e o que tens agora não é o teu marido. Nisso falaste a verdade” (Jo 4,17-18). Muitos passam a vida inteira fugindo da verdade de si mesmos. Gastam tempo, energia e dinheiro tentando sustentar mentiras que os mantenham longe de si mesmos. O resultado é uma vida frustrada e aprisionada no erro. Só quando nos encontramos com a nossa verdade mais profunda é que a nossa vida ganha sentido e as nossas perguntas encontram respostas. Quem encontrou no mais profundo de si a verdade de que é amado por Deus, não aceita mais viver esmolando migalhas de amor dos outros.

 

    6. A missão de testemunhar.

“Muitos samaritanos daquela cidade abraçaram a fé em Jesus, por causa da palavra da mulher que testemunhava: ‘Ele me disse tudo o que eu fiz’” (Jo 4,39). Só Jesus pode revelar a verdade que habita no mais profundo da nossa sede, das nossas atitudes muitas vezes erradas, dos enganos a respeito de nós mesmos e daquilo que buscamos na vida. Anunciar o Evangelho é anunciar a “Palavra da Verdade” (Ef 1,13). Mesmo sem ter consciência disso, todo ser humano deseja e aguarda essa Palavra, porque ela é o Evangelho da salvação (cf. Ef 1,13). Que a nossa vida seja um anúncio vivo de Jesus Cristo, para que as pessoas possam proclamar: “Este é verdadeiramente o salvador do mundo” (Jo 4,42).

08 de março: Dia Internacional da Mulher – Deus abençoe todas as mulheres, concedendo-lhes a luz da verdade, protegendo suas vidas e reavivando o Seu amor no coração de cada uma delas! 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

NO EVANGELHO ESTÁ A FORÇA DA TRANSFIGURAÇÃO

 Homilia 2º dom. Quaresma. Palavra de Deus: Gênesis 12,1-4a; 2Timóteo 1,8b-10; Mateus 17,1-9.

 

A imagem de Jesus transfigurado sobre uma alta montanha é uma antecipação do depois no agora da sua existência. Ela é também uma reposta a perguntas que costumamos fazer: Vale à pena lutar pelos valores do Reino? Existe mesmo uma recompensa para a minha dor e uma esperança para o meu futuro (cf. Jr 31,16-17)? A justiça que não encontramos aqui na terra será restabelecida no céu? O silêncio de Deus, que nos acompanha no dia a dia, será um dia finalmente rompido? As sementes que hoje lançamos com o nosso trabalho frutificarão amanhã? Será mesmo verdade que aqueles que esperam no Senhor jamais ficarão desiludidos (Sl 25,3)?

A cultura do consumo nos ensina a viver o dia de hoje, a sermos felizes e a desfrutar da vida agora, porque o depois é incerto, o amanhã talvez não exista. Desse modo, fechados quanto à esperança no depois, corremos o risco de nos deixar desfigurar por um presente marcado por uma dor que nos consome, por uma injustiça em relação à qual nos sentimos impotentes, por uma compreensão da vida fechada a toda esperança de mudança, de libertação e de salvação.

Mas hoje, o Pai nos faz subir com Jesus a uma alta montanha, para que ali possamos ter uma visão mais profunda da nossa existência: nós não estamos destinados a um fim – destruição, morte –, mas a uma finalidade. A força pascal que já estava escondida no corpo de Jesus – revelada na sua transfiguração –, também nos habita, por meio do Espírito Santo. O mundo não pode ver essa força, e nem mesmo nós a sentimos, na maior parte do tempo, mas ela nos habita desde o batismo. Desse modo, não nos fechamos ao que somos agora, mas nos mantemos abertos ao que seremos, como pessoas transfiguradas, porque destinadas à glória, junto com nosso Senhor Jesus Cristo (Rm 8,17.30; Fl 3,20-21).

O Pai quis que os mesmos discípulos que veriam seu Filho desfigurado, na agonia do Horto das Oliveiras, o vissem antes transfigurado, cheio de luz e de glória. Assim como aqueles três discípulos, nós somos chamados a purificar o nosso modo de ver a nós mesmos e a realidade à nossa volta, como nos ensina o apóstolo São Paulo: “Não olhamos para as coisas que se veem, mas para as que não se veem; pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno” (2Cor 5,18). O que vemos é transitório: jovialidade e envelhecimento, força e fraqueza, sucesso e fracasso, fama e anonimato, saúde e doença, mas o que não podemos ver é eterno: a presença oculta do Espírito do Pai e do Filho que habita em nós e em toda a criação, o que nos leva a crer que “os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória futura que será revelada em nós, assim como em toda a criação” (citação livre de Rm 8,18-23).

Existem duas formas de vivermos a nossa vida: fechados no presente (desfiguração), ou abertos ao futuro (transfiguração). Quando Abraão, o pai da nossa fé, estava preso ao seu presente desfigurado (sem terra e sem filho), Deus o visitou e o convidou a deixar sua vida se abrir à transfiguração: “Sai da tua terra e vai para a terra que eu te vou mostrar. Eu te abençoarei e em ti serão abençoadas todas as famílias da terra” (citação livre de Gn 12,1-3). A obediência de Abraão ao chamado de Deus transfigurou sua vida, de modo que, “de um homem já marcado pela morte nasceu a multidão comparável às estrelas do céu e inumerável como a areia da praia” (Hb 11,12).

O mesmo Deus que chamou Abraão, e em Seu Filho chamou Pedro, Tiago e João, hoje chama a cada um de nós a “sofrer pelo Evangelho”, fortificados pelo Seu poder, que é o Espírito Santo. Por que viver segundo o Evangelho e anunciá-lo com nossa vida ao mundo comporta sofrimento? Porque o Evangelho é “a Palavra da Verdade” (Ef 1,13), enquanto o mundo, que escolheu as trevas e rejeitou a luz, vive na mentira e na sua disseminação, necessária para continuar a obter lucro sobre as pessoas e dominar os mais fracos. Sofrer pelo Evangelho é não nos resignar àquilo que causa desfiguração na vida dos que mais sofrem e da criação, mas trabalhar pela transfiguração da vida à nossa volta, sustentados pela força do Espírito Santo.       

Onde se encontra a força da transfiguração hoje? Exatamente no Evangelho, como afirma o apóstolo Paulo: Jesus Cristo “não só destruiu a morte, como também fez brilhar a vida e a imortalidade por meio do Evangelho” (2Tm 1,10). Quem lê os acontecimentos da história iluminado pela luz do Evangelho consegue distinguir o que é transitório e o que é definitivo. Quem se deixa questionar pela verdade do Evangelho não aceita mais viver enganado pelas mentiras do mundo que desfiguram a sua vida, mas decide orientar-se pela verdade da transfiguração que aguarda todo aquele que segue Jesus até o fim. Portanto, sempre que os acontecimentos do presente escurecerem a nossa vida com a sombra da desfiguração, busquemos a luz do Evangelho, que abre a nossa vida ao futuro que Deus tem para aqueles que n’Ele esperam, suplicando-Lhe: “Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça, da mesma forma que em vós nós esperamos” (Sl 33,22).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

AS TENTAÇÕES NOSSAS DE CADA DIA

 Homilia 1º dom. quaresma. Palavra de Deus: Gênesis 2,7-9; 3,1-7, Romanos 5,12-19; Mateus 4,1-11.

            Nossa caminhada quaresmal se inicia com o relato da tentação e do pecado de Adão e Eva. Resumidamente, o ser humano recebeu a vida de Deus e a liberdade de fazer escolhas e de tomar decisões. Tendo diante de si a liberdade de comer de todas as árvores do jardim, com exceção da árvore do conhecimento do bem e do mal, o ser humano começou a questionar: “Por que não posso experimentar isso também?”. Aí entra a voz do tentador: “Deus está escondendo algo de você. Se Ele o amasse, deixaria você fazer tudo o que deseja”. Enganado pelo tentador, que é o pai da mentira, o ser humano se apropriou do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, o que, na prática, significa que ele passou a decidir por si mesmo o que é o bem e o que é o mal.

            Se o tentador, pai da mentira, afirmou ao casal “Não, vós não morrereis!” (Gn 3,4), o apóstolo Paulo afirma claramente: “Através do pecado, entrou a morte. E a morte passou para todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5,12). Todo pecado que cometemos gera morte ou em nós mesmos, ou nos outros, ou no mundo à nossa volta. Quando, livremente, decidimos escolher por nós mesmos o que é o bem e o que é o mal, sem nos deixarmos orientar pela Palavra de Deus, nos perdemos dentro de nós mesmos e nos tornamos escravos do tentador, o homicida, aquele que nos perverte em causadores ou colaboradores da morte na sociedade humana.

            Por que caímos com frequência em tentação? Porque aquilo que nos é proposto pelo tentador é sempre “atraente e desejável” (Gn 3,6). O maligno conhece a nossa natureza humana. Ele sabe que costumamos preferir o prazer e não o dever; que preferimos uma mentira suave a uma dura verdade; que preferimos um caminho curto e fácil a um longo e exigente. O maligno conhece o ponto fraco de cada um de nós. Ele sempre nos visita quando não estamos bem, quando sentimos que está nos faltando algo. Seu campo de ação é a nossa frustração, o nosso cansaço, a nossa decepção e a nossa desilusão; a nossa raiva, o nosso desejo de jogar tudo para o alto, numa palavra, o nosso desespero.    

Se o tentador venceu Adão, símbolo de todo ser humano, ele não conseguir vencer Cristo, nosso Salvador. “Como pela desobediência de um só homem
a humanidade toda foi estabelecida numa situação de pecado, assim também, pela obediência de um só, toda a humanidade passará para uma situação de justiça” (Rm 5,18). Na Bíblia, o contrário de uma pessoa pecadora é uma pessoa justa, isto é, uma pessoa que procurar ajustar a sua vida à vontade de Deus. A pessoa justa sente todos os apelos do tentador, mas ela decide obedecer ao Deus da verdade e não ao pai da mentira. A pessoa justa sabe que seu principal problema não são os outros, mas ela mesma, quando decide se entregar aos seus afetos desordenados. A pessoa justa tem como seu modelo de vida a pessoa de Jesus Cristo, tentado em tudo como nós, mas vencedor das tentações.  

Diante da tentação de obedecer cegamente à sua fome de pão, Jesus nos ensina que nós temos a capacidade de sentir o desejo, mas de não consentir que ele nos leve a pecar. Além do mais, a verdadeira fome, o verdadeiro desejo que nos habita, não está no corpo, mas no coração: temos fome e sede de Deus, de sentido e de salvação.

Diante da tentação de usar Deus a nosso favor, sem nos responsabilizar por nossas escolhas e decisões, Jesus nos ensina que a nossa liberdade sempre caminha de mãos dadas com a nossa responsabilidade. Toda atitude nossa tem consequências. Por isso, não podemos, com uma das nossas mãos, criar situações de destruição, enquanto que com a outra mão pedimos que Deus nos proteja e nos salve da destruição.

Enfim, diante da tentação de garantir-se acumulando dinheiro e muitos bens, Jesus nos ensina que tudo o que acumulamos vai apodrecer e ser roubado, e que toda riqueza afasta o ser humano de Deus. Quem segue pelo caminho do enriquecimento pessoal a todo custo será devorado pela ganância sem limites do deus deste mundo, que destrói a saúde, a família, a consciência e a paz de espírito daqueles que livremente escolhem ser seus escravos.   

Ao final do seu combate espiritual, Jesus vence o tentador não com gritos, mas com fidelidade à Palavra de Deus. Ele usa a Escritura como espada e a obediência como escudo. Quanto a nós, tomemos consciência da razão de ser das tentações: “A tentação obriga-nos a lutar, porque sem luta não há vitória. Contudo, somente Deus poderá dar a vitória na luta contra as tentações. Ninguém se torna senhor de si mesmo enquanto não lutar com os demônios que habitam o seu interior e que tentam mandar na sua vida. Além disso, só é possível conhecer o céu quem primeiro conheceu seu próprio inferno interior” (Anselm Grün). Quem deseja viver a vontade de Deus precisa aprender a lutar interiormente.


Pe. Paulo Cezar Mazzi

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

BREVES INDICAÇÕES PARA O TEMPO DA QUARESMA

 Homilia 4ª feira de cinzas. Palavra de Deus: Joel 2,12-18; 2Coríntios 5,20 –6,2; Mateus 6,1-6.16-18.

 

Breves indicações para o tempo da quaresma.

 

1.      Quarenta dias – simbolizam, na Sagrada Escritura, o tempo de um processo de cura, de libertação, de mudança interior, de transformação. Um longo tempo para pessoas que não têm mais tempo; pessoas que perdem tempo com futilidades e não acham tempo para cuidar do essencial.

 

2.      Conversão – obedecer a Deus implica, algumas vezes, desobedecer ao nosso desejo. Quando não queremos desobedecer a nós mesmos para obedecer a Deus, pecamos.  

 

3.      Abstinência – exercitar a vontade. Colocar em ordem os afetos desordenados. Não fazer apenas o que se gosta, mas o que deve ser feito. Não viver nas mãos dos desejos insaciáveis, mas tomar a vida nas próprias mãos.

 

4.      Espiritualidade da cruz e não do individualismo. “Reconstrói a tua vida em comunhão com teu Senhor. Reconstrói a tua vida em comunhão com teu irmão. Onde está o teu irmão, eu estou presente nele” (música “Eu vim para que todos tenham vida). “Quando for trazer a sua oferta ao altar e li se lembrar de que o seu irmão tem alguma coisa contra você, deixe a sua oferta ali diante do altar e vá primeiro reconciliar-se com o seu irmão; depois virá apresentar a sua oferta” (Mt 5,23-24).

 

5.      Melhorar ou intensificar a vida de oração. Rezar não para que o Pai nos dê isso ou aquilo, mas para que cada vez mais saiamos da oração dispostos a fazer a vontade d’Ele.

 

6.      Jejuar – “O jejum nos ajuda a recuperar a liberdade frente às desordens de todo tipo, adotando um estilo de vida mais simples” (Pe. Adroaldo); ou seja, sair do excesso. Jejuar de imagens (telas) e do olhar do caçador, para o qual tudo é carne a ser devorada. Jejuar de pensamentos negativos e do falar demais. Silenciar mais. Não fugir do confronto diário consigo mesmo(a).

 

7.      Campanha da Fraternidade – Onde Cristo está ferido hoje? “Onde está o teu irmão?” (Gn 4,9). “O pão que tu reténs pertence ao faminto; o manto que guardas no armário é de quem está nu; os sapatos que apodrecem em tua casa pertencem ao descalço; o dinheiro que tens enterrado (hoje, aplicado) é do necessitado” (Basílio de Cesareia, Homilias sobre Lucas 12, p.36).

 

8.      Cinzas – Depois do pecado, Adão ouviu: “Lembra-te que tu és pó, e ao pó voltarás” (Gn 3,19). A consciência da própria morte nos ajuda a rever os nossos valores. O que, de fato, importa na vida? “O que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro mas arruinar a sua vida?” (Mt 16,24).