quinta-feira, 26 de março de 2026

“DIGA-ME A SUA RELAÇÃO COM A DOR, E EU TE DIREI QUEM VOCÊ É” (ERNEST JÜNGER).

 Homilia do Domingo de Ramos. Palavra de Deus: Isaías 50,4-7; Filipenses 2,6-11; Mateus 27,11-54 (forma breve).

 

O julgamento de Jesus por Pilatos se deu na véspera da páscoa dos judeus. Essa festa celebrava a libertação dos israelitas do Egito, povo que Deus chamou de “meu filho”. Mas agora, os chefes judaicos prenderam o Filho único de Deus, Jesus Cristo. O motivo verdadeiro é a inveja; o motivo falso é a ameaça que Jesus representa ao Império Romano. Quando o Evangelho denuncia os nossos erros e revela que nossas atitudes são contrárias ao Reino de Deus, nós também acabamos por rejeitar Jesus e mantê-lo afastado de nós. Pensamos, dessa forma, “condenar” Jesus, mas nós é que acabamos nos condenando.

Pilatos sabe que Jesus é inocente, e por isso tenta libertá-lo através da anistia pascal. Mas os líderes religiosos incentivam a multidão a pedir a libertação de Barrabás (cf. Mt 27,17), nome que significa “filho de pai nenhum”. Com quem nos identificamos: com Jesus, o Filho de Deus, ou com Barrabás, o filho “sem pai”? O pai representa a autoridade, a disciplina e a correção. Nós aceitamos ser educados e corrigidos pelo nosso Pai, ou buscamos viver nossa vida de modo “desenfreado”, isto é, sem o freio da voz de Deus em nossa consciência? Não nos esqueçamos de que hoje os líderes religiosos foram substituídos por inúmeros influenciadores digitais que “adotam” inúmeros filhos sem pais, pervertendo sua consciência e seus valores.

“Pilatos mandou trazer água, lavou as mãos diante da multidão, e disse: ‘Eu não sou responsável pelo sangue deste homem!’. O povo todo respondeu: ‘Que o sangue dele caia sobre nós e sobre os nossos filhos’” (Mt 27,24). Assim como a multidão, nós também queremos ver sangue! Os filmes e os vídeos que mais chamam a nossa atenção têm sangue, violência e morte; igualmente, a maioria dos jogos de vídeo game. O gesto de lavar as mãos significa tornar-se indiferente ao sofrimento dos outros; não responsabilizar-se por nada nem por ninguém. No entanto, nossa indiferença para com a desgraça alheia acaba por atrair a desgraça sobre nós. Diante do sofrimento de uma pessoa só existem duas atitudes possíveis: ou o lavar as mãos (indiferença), ou ajudar a pessoa a carregar a sua cruz (o Cireneu).  

“Ali deram vinho misturado com fel para Jesus beber. Ele provou, mas não quis beber” (Mt 27,34). Essa bebida servia para anestesiar os sentidos do crucificado. No seu livro “Sociedade paliativa – a dor hoje”, o filósofo sul coreano Byung-Chul Han nos lembra que a forma como lidamos com a dor revela o tipo de pessoa que somos: “Diga-me a sua relação com a dor, e eu te direi quem você é” (Ernest Jünger). “Para fugir da dor, busca-se uma anestesia permanente. Não temos mais coragem para a dor. Os filhos são educados não para serem humanos, mas para serem pessoas de um desempenho permanentemente feliz, o mais insensível possível à dor” (Byung-Chul Han). 

Os líderes religiosos insultavam Jesus dizendo: “Desça agora da cruz! e acreditaremos nele. Confiou em Deus; que o livre agora, se é que Deus o ama! Já que ele disse: Eu sou o Filho de Deus” (Mt 27,43-44). Aqui está o retrato de muitos cristãos: o constante desejo de ver milagres, para só então terem fé. Aqui está o nosso retrato também: produzimos morte à nossa volta, e depois gritamos a Deus que ressuscite aquilo que nós mesmos matamos.

“Desde o meio-dia até às três horas da tarde, houve escuridão sobre toda a terra” (Mt 27,35). Aquele que é a “Luz do mundo” (Jo 8,12) foi rejeitado e crucificado. Na Bíblia, a experiência da escuridão é a experiência do abandono de Deus. Ele é luz, mas essa luz parece estar completamente ausente da nossa vida. “Esta terrível sensação de perda – esta escuridão indizível – esta solidão... A escuridão é tal, que realmente não vejo mais nada – nem com a mente nem com a razão. O lugar de Deus na minha alma é um espaço vazio. Não há Deus em mim. Eu sinto que Ele não me quer” (Madre Teresa, “Venha, seja a minha luz”, pp.13-14). Não há um ser humano que nunca se sinta abandonado por Deus em algum momento da vida.

“Pelas três horas da tarde, Jesus deu um forte grito: ‘Eli, Eli, lamá sabactâni?’, que quer dizer: ‘Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?’” (Mt 27,46). “Jesus não duvida da existência de Deus nem de seu poder para salvá-lo. Queixa-se de seu silêncio: onde está? Por que se cala? Por que o abandona precisamente no momento em que mais precisa dele? Jesus morre na noite mais escura. Morre com um ‘por quê?’ nos lábios” (Pagola, “Jesus – aproximação histórica”, p.484).

“E eis que a cortina do santuário rasgou-se de alto a baixo, em duas partes, a terra tremeu e as pedras se partiram” (Mt 27,51). Aí está a resposta do Pai ao sentimento de abandono do Filho. O coração do Pai se rasga de dor por todos os seus filhos mortos pela violência. O céu se rasga para receber o espírito do Filho de Deus. Se o pecado do homem havia fechado o céu (cf. Is 63,19), a morte redentora de Jesus abre o céu definitivamente a todo aquele que confia na misericórdia do Pai.

“O oficial e os soldados que estavam com ele guardando Jesus, ao notarem o terremoto e tudo que havia acontecido, ficaram com muito medo e disseram: ‘Ele era mesmo Filho de Deus!’” (Mt 27,54). É diante de uma experiência de cruz que a nossa fé deve se pronunciar. “Guardei a minha fé mesmo dizendo: ‘É demais o sofrimento em minha vida!’” (Sl 116,1).  

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

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