Homilia do Domingo de Ramos. Palavra de Deus: Isaías 50,4-7; Filipenses 2,6-11; Mateus 27,11-54 (forma breve).
O julgamento de Jesus por Pilatos se deu
na véspera da páscoa dos judeus. Essa festa celebrava a libertação dos israelitas
do Egito, povo que Deus chamou de “meu filho”. Mas agora, os chefes judaicos
prenderam o Filho único de Deus, Jesus Cristo. O motivo verdadeiro é a inveja;
o motivo falso é a ameaça que Jesus representa ao Império Romano. Quando o
Evangelho denuncia os nossos erros e revela que nossas atitudes são contrárias
ao Reino de Deus, nós também acabamos por rejeitar Jesus e mantê-lo afastado de
nós. Pensamos, dessa forma, “condenar” Jesus, mas nós é que acabamos nos
condenando.
Pilatos sabe que Jesus é inocente, e por
isso tenta libertá-lo através da anistia pascal. Mas os líderes religiosos
incentivam a multidão a pedir a libertação de Barrabás (cf. Mt 27,17), nome que
significa “filho de pai nenhum”. Com quem nos identificamos: com Jesus, o Filho
de Deus, ou com Barrabás, o filho “sem pai”? O pai representa a autoridade, a
disciplina e a correção. Nós aceitamos ser educados e corrigidos pelo nosso
Pai, ou buscamos viver nossa vida de modo “desenfreado”, isto é, sem o freio da
voz de Deus em nossa consciência? Não nos esqueçamos de que hoje os líderes religiosos
foram substituídos por inúmeros influenciadores digitais que “adotam” inúmeros
filhos sem pais, pervertendo sua consciência e seus valores.
“Pilatos mandou trazer água, lavou as
mãos diante da multidão, e disse: ‘Eu não sou responsável pelo sangue deste
homem!’. O povo todo respondeu: ‘Que o sangue dele caia sobre nós e sobre os
nossos filhos’” (Mt 27,24). Assim como a multidão, nós também queremos ver
sangue! Os filmes e os vídeos que mais chamam a nossa atenção têm sangue, violência
e morte; igualmente, a maioria dos jogos de vídeo game. O gesto de lavar as
mãos significa tornar-se indiferente ao sofrimento dos outros; não
responsabilizar-se por nada nem por ninguém. No entanto, nossa indiferença para
com a desgraça alheia acaba por atrair a desgraça sobre nós. Diante do
sofrimento de uma pessoa só existem duas atitudes possíveis: ou o lavar as mãos
(indiferença), ou ajudar a pessoa a carregar a sua cruz (o Cireneu).
“Ali deram vinho misturado com fel para
Jesus beber. Ele provou, mas não quis beber” (Mt 27,34). Essa bebida servia
para anestesiar os sentidos do crucificado. No seu livro “Sociedade paliativa –
a dor hoje”, o filósofo sul coreano Byung-Chul Han nos lembra que a forma como
lidamos com a dor revela o tipo de pessoa que somos: “Diga-me a sua relação com
a dor, e eu te direi quem você é” (Ernest Jünger). “Para fugir da dor, busca-se
uma anestesia permanente. Não temos mais coragem para a dor. Os filhos são educados
não para serem humanos, mas para serem pessoas de um desempenho permanentemente
feliz, o mais insensível possível à dor” (Byung-Chul Han).
Os líderes religiosos insultavam Jesus dizendo:
“Desça agora da cruz! e acreditaremos nele. Confiou em Deus; que o livre agora,
se é que Deus o ama! Já que ele disse: Eu sou o Filho de Deus” (Mt 27,43-44). Aqui
está o retrato de muitos cristãos: o constante desejo de ver milagres, para só
então terem fé. Aqui está o nosso retrato também: produzimos morte à nossa
volta, e depois gritamos a Deus que ressuscite aquilo que nós mesmos matamos.
“Desde o meio-dia até às três horas da
tarde, houve escuridão sobre toda a terra” (Mt 27,35). Aquele que é a “Luz do
mundo” (Jo 8,12) foi rejeitado e crucificado. Na Bíblia, a experiência da escuridão
é a experiência do abandono de Deus. Ele é luz, mas essa luz parece estar completamente
ausente da nossa vida. “Esta terrível sensação de perda – esta escuridão
indizível – esta solidão... A escuridão é tal, que realmente não vejo mais nada
– nem com a mente nem com a razão. O lugar de Deus na minha alma é um espaço
vazio. Não há Deus em mim. Eu sinto que Ele não me quer” (Madre Teresa, “Venha,
seja a minha luz”, pp.13-14). Não há um ser humano que nunca se sinta
abandonado por Deus em algum momento da vida.
“Pelas três horas da tarde, Jesus deu um
forte grito: ‘Eli, Eli, lamá sabactâni?’, que quer dizer: ‘Meu Deus, meu Deus, por
que me abandonaste?’” (Mt 27,46). “Jesus não duvida da existência de Deus nem
de seu poder para salvá-lo. Queixa-se de seu silêncio: onde está? Por que se
cala? Por que o abandona precisamente no momento em que mais precisa dele?
Jesus morre na noite mais escura. Morre com um ‘por quê?’ nos lábios” (Pagola, “Jesus
– aproximação histórica”, p.484).
“E eis que a cortina do santuário rasgou-se
de alto a baixo, em duas partes, a terra tremeu e as pedras se partiram” (Mt
27,51). Aí está a resposta do Pai ao sentimento de abandono do Filho. O coração
do Pai se rasga de dor por todos os seus filhos mortos pela violência. O céu se
rasga para receber o espírito do Filho de Deus. Se o pecado do homem havia
fechado o céu (cf. Is 63,19), a morte redentora de Jesus abre o céu definitivamente
a todo aquele que confia na misericórdia do Pai.
“O oficial e os soldados que estavam com
ele guardando Jesus, ao notarem o terremoto e tudo que havia acontecido, ficaram
com muito medo e disseram: ‘Ele era mesmo Filho de Deus!’” (Mt 27,54). É diante
de uma experiência de cruz que a nossa fé deve se pronunciar. “Guardei a minha
fé mesmo dizendo: ‘É demais o sofrimento em minha vida!’” (Sl
116,1).
Pe.
Paulo Cezar Mazzi
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