terça-feira, 31 de dezembro de 2019

BÊNÇÃO NÃO É "BLINDAGEM"


Missa Maria, mãe de Deus. Palavra de Deus: Números 6,22-27; Gálatas 4,4-7; Lucas 2,16-21.

            Quando um ano termina, é sempre uma tarefa arriscada avaliá-lo meramente como um “ano positivo” ou um “ano negativo”. A vida não se enquadra nessa matemática ingênua e superficial, segundo a qual o ano é visto como “bom” ou “ruim” a partir da soma dos acontecimentos: aconteceram mais coisas boas do que ruins, e vice-versa. Nossa vida não é definida a partir daquilo que nos acontece, mas a partir da forma como lidamos com o que nos acontece. Além disso, para aqueles que têm fé, é importante lembrar que “Deus faz com que tudo concorra para o bem daqueles que o amam” (Rm 8,28), o que significa que também as coisas ruins podem servir para a nossa correção, o nosso crescimento e a nossa salvação.
            Uma afirmação bíblica a respeito da Maria nos ilumina nesta passagem de ano: “Quanto a Maria, guardava todos estes fatos e meditava sobre eles em seu coração” (Lc 2,19). Como filhos de Maria, somos convidados a revisar os acontecimentos que nos afetaram neste ano que termina e nos perguntar como lidamos com eles, ou o que eles nos ensinaram, ou ainda, o que Deus nos disse por meio deles. Deus fala conosco o tempo todo, assim como a vida nos ensina o tempo todo, mas somente quem tem a coragem de, como Maria, meditar, refletir em seu coração a sua forma de lidar com os acontecimentos, consegue aprender algo novo, em vista do seu crescimento humano e espiritual.
            Esta celebração de Maria, mãe do Filho de Deus, nos lembra também que “Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sujeito à Lei, a fim de resgatar os que eram sujeitos à Lei e para que todos recebêssemos a filiação adotiva” (Gl 4,5-6). A Lei a que o apóstolo Paulo se refere é a Lei judaica (religiosa), uma Lei extremamente exigente, diante da qual todo ser humano se sentia condenado, justamente por não conseguir cumpri-la integralmente. Podemos alargar o sentido dessa condenação. Todos nós estamos sujeitos às incertezas deste mundo, sujeitos à violência, às tragédias, às doenças, às turbulências na vida financeira ou afetiva etc. Mas Paulo nos lembra que Cristo nos deu uma nova identidade: não somos mais escravos, mas filhos – “E porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abá - ó Pai!” (Gl 4,6).
            Jesus viveu num mundo injusto e desigual como o nosso, um mundo também marcado por conflitos e tragédias. No entanto, ele escolheu se manter interiormente livre; escolheu ser conduzido pelo Espírito de Deus que afirmava constantemente dentro dele: “Você é Filho, não escravo”; “Você nem sempre escolherá qual acontecimento atravessará seu caminho, mas sempre poderá escolher a forma de lidar com ele”. Se nós recebemos esse mesmo Espírito de Jesus, que comprova que somos “filhos de Deus”, já passou da hora de nos libertarmos de comportamentos que nos mantém escravos da superstição, do medo e da ignorância, escravos do celular e da internet, escravos da bebida, das drogas e da pornografia, escravos do consumismo e de uma vida vazia e superficial, escravos das cobranças do mercado e da expectativa dos outros, escravos da nossa dependência afetiva e do nosso sentimento de inferioridade etc.
            Diante do novo ano que se abre, podemos nos perguntar: o que há novo nele? Tudo, e também nada. Não somente cada ano que nasce, mas também cada dia que desponta, é sempre uma página em branco: as linhas estão ali, mas somos nós que decidimos o que vamos escrever. Escrever as mesmas coisas é sempre mais fácil; é a vida no piloto automático; é a síndrome de Gabriela – “eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim”. Nada muda quando não nos damos ao trabalho de mudar. Nada melhora quando não nos esforçamos em melhorar. Nada se modifica quando não aceitamos corrigir atitudes que precisam ser corrigidas. Por isso, pedir a bênção de Deus para o novo ano significa também arregaçar as mangas e trabalhar no sentido da bênção que Deus, como Pai, quer dar a cada filho Seu na face da terra.
“O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face, e se compadeça de ti! O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz!” (Nm 6,24-26). Bênção não é mágica. Não adianta eu pedir a bênção de Deus, mas não aceitar obedecer à Sua voz em minha consciência. Não posso esperar que a bênção de Deus funcione como uma “blindagem” contra todo tipo de dor, dificuldade ou sofrimento. A vida não poupa ninguém de dificuldade. A terra não é o céu. Esperar que a estrada de 2020 seja totalmente asfaltada, pista dupla, sem pedágio, sobre a qual deslizaremos tranquilamente, sem enfrentar nenhum tipo de contratempo, é não ter senso de realidade. Deus nos quer fortes, e não covardes. Deus nos quer maduros, e não mimados. Deus nos quer em comunhão com a dor que afeta o nosso próximo, e não indiferentes, fechados em nossa bolha chamada “individualismo”.
Termino esta reflexão com uma proposta de oração para esta passagem de ano:
Meu Pai, em comunhão com Maria santíssima deposito diante de Ti todos os acontecimentos que atingiram a mim e à humanidade neste ano. Nem tudo eu consegui refletir ou assimilar. Nem sempre eu vi Tua mão me conduzindo. Alguns dos meus sofrimentos foram frutos da minha teimosia em fazer as coisas do meu jeito, sem obedecer à Tua voz em minha consciência.
Concede-me um coração filial, sempre mais consciente da voz do Teu Espírito em mim, Ele que comprova que não preciso viver como escravo(a) de coisas que me adoecem e destroem, mas como alguém que sempre tem a liberdade de escolher como lidar com aquilo que me acontece. Liberta-me não só das correntes de ferro que me prendem ao erro, mas, sobretudo, daquele fio de ouro que não tenho a coragem de cortar, porque me oferece falsas compensações.
Hoje peço Tua benção, Pai, sobre mim e sobre toda a humanidade. Torna-nos fortes diante da adversidade, perseverantes diante das tribulações, firmes na fé diante das provações, alegres por causa da esperança, fiéis à cruz de Teu Filho Jesus, capazes de solidariedade para com os que sofrem, construtores da paz e confiantes na força da Tua verdade que prevalecerá sobre toda mentira que há no mundo. Em nome de Jesus, amém!

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

É POSSÍVEL DEFENDER-SE DE HERODES


Missa da Sagrada Família. Palavra de Deus: Eclesiástico 3,3-7.14-17a; Colossenses 3,12-21; Mateus 2,13-15.19-23.

            Mesmo depois do nascimento de Jesus, mesmo depois que a luz brilhou nas trevas, o mundo continua sendo um lugar habitado pela escuridão e pela ação do mal. Jesus é uma proposta de paz da parte de Deus para a humanidade, uma oferta de salvação, não uma imposição. Por isso, enquanto alguns o acolhem, outros o rejeitam; enquanto alguns se deixam iluminar por sua verdade, outros mergulham ainda mais na própria escuridão.
            O Evangelho de hoje nos coloca diante de um momento difícil para a família de Nazaré: José precisa tomar sua esposa e seu filho e fugir para outro país (Egito), pois Herodes quer matar o menino. Essa cena infelizmente é muito atual! Algumas vezes nós já vimos nos noticiários milhares de famílias fugindo da guerra, da fome, da violência, da escravidão ou da perseguição religiosa. O Papa Francisco constantemente tem chamado a atenção do mundo para o fato de que o Mar Mediterrâneo se tornou um imenso cemitério, onde pais, mães e filhos morreram ou continuam a morrer afogados, ao tentarem encontrar possibilidade de vida digna em outros países.
            Diante de tragédias como essas, alguns perguntam onde está Deus. Por que Ele não põe fim às guerras, à fome, à violência, à morte de pais, mães e crianças inocentes? Mas aqui cabe outra pergunta: por que nós responsabilizamos Deus pelas atitudes homicidas dos Herodes do nosso tempo? O mesmo Deus que falou à consciência de José também fala à consciência dos Herodes de hoje. A diferença é que, enquanto alguns pais e mães estão atentos à voz de Deus e tomam atitudes para salvar suas famílias, os Herodes de hoje só escutam a voz da sua própria ganância, do seu desejo de poder, da sua loucura, da sua maldade e ambição, da sua paranoia.
            “Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito!” (Mt 2,13). Quanto mais amamos algo, quanto mais algo é precioso, mais aquilo precisa ser defendido! Nós não podemos ser ingênuos e aceitar tudo o que o mundo nos apresenta como bom e útil para a nossa felicidade. Há muitas coisas más, tóxicas e destrutivas nos sendo oferecidas sob a aparência de bem, de atraente e de vantajoso. Por isso, nossa consciência precisa estar desperta, esclarecida pela voz de Deus nela, para podermos perceber o que de fato convém e o que não convém a nós e àqueles que nós amamos. Embora Deus seja o primeiro a querer o nosso bem e o bem da nossa família, cabe a cada um de nós “se levantar” e reagir, tomar atitudes concretas para salvar nossos valores, nosso bem mais precioso, seja o casamento, seja o filho, seja a saúde física e emocional, seja a fé, a alma.  
            Hoje as pessoas se deslocam com muito mais frequência e rapidez do que há tempos atrás.  A mobilidade humana é uma constante nos dias atuais. Contudo, enquanto alguns se deslocam fugindo da guerra, da fome ou da perseguição religiosa, muitos se deslocam movidos unicamente por interesse financeiro, pelo desejo de se alcançar uma vida próspera e estável, materialmente falando. Quem se desloca em vista de se afastar do mal e se aproximar do bem? Quem se desloca em busca de Deus e da salvação que Ele oferece? Quem se esforça em sair da sua preguiça espiritual, em vista de aprofundar sua fé e sua comunhão com Deus?
            Além disso, não pensemos apenas nos deslocamentos geográficos. O deslocamento psíquico, emocional e espiritual às vezes é muito mais exigente! Quantas pessoas mudam de casa, de trabalho, de curso, de relacionamento, de corte de cabelo, mudam o “look” (visual), mudam inclusive de igreja, de religião e de partido político, mas não enfrentam o Herodes que mora dentro delas? São pessoas que destroem seus próprios sonhos, que sabotam a si mesmas, que giram, giram, mas não saem do lugar, porque não se dão ao trabalho de fazer mudanças em si, porque não admitem que elas são Herodes (inimigas) de si mesmas, e acham mais fácil viver culpando Deus, o mundo, os outros, pela sua própria infelicidade.
            Outro alerta precisa ser feito, quando refletimos sobre nossa vida de família. Em muitos casos, Herodes mora dentro de nossas casas, e não fora. Herodes “interage” com os pais ou os filhos dependendo do que eles assistem na Netflix e na Internet; Herodes mora em algumas famílias, abusando sexualmente de crianças e adolescentes, agredindo-os verbal e fisicamente; Herodes também mora nas igrejas, seja nos ministros religiosos que abusam de menores (pedofilia), seja nos que se insinuam sexualmente para homens que estão nas pastorais das paróquias. Portanto, a melhor coisa que os pais têm a fazer é ensinar seus filhos desde pequenos a reconhecerem, se defenderem e se afastarem dos Herodes do nosso tempo!  
            Por fim, não menos importante do que fugir de Herodes, Deus nos orienta a reconhecer e a tratar nossas feridas familiares. Não há relacionamentos isentos de feridas, mas toda ferida pode ser tratada e curada. O primeiro passo é reconhecer a ferida; o segundo é comunicar a dor – a outra pessoa precisa tomar consciência da dor que estou sentindo, assim como, se for o caso, eu também preciso estar aberto para ouvir e me tornar consciente do quanto a feri; o terceiro passo é colocar remédio sobre a ferida, por meio do diálogo, do perdão, da reaproximação ou da mudança de atitude. Seja no livro do Eclesiástico, seja na carta de São Paulo aos Colossenses, o Senhor nos oferece pistas importantes a respeito da restauração dos nossos relacionamentos, do fortalecimento dos nossos vínculos e da superação das distâncias ou das atitudes que precisam ser modificadas em vista da nossa cura emocional.  
            Mudar é preciso. Deslocar-se é necessário. Tratar as feridas é a única possibilidade de cura para os nossos relacionamentos. Acolhamos os alertas que Deus nos faz quanto a tudo aquilo que ameaça machucar ou destruir o que mais amamos, ou roubar nosso bem mais precioso. Que em nossa casa cada um reconheça não apenas sua parcela de responsabilidade quanto ao que nela se vivencia diariamente, mas, sobretudo, sua potencialidade em mudar, em tornar-se melhor e em dedicar o melhor de si para revigorar a saúde emocional e espiritual de nossa família.

Pe. Paulo Cezar Mazzi    



terça-feira, 24 de dezembro de 2019

NOSSA CARNE REDIMIDA POR AQUELE QUE SE FEZ CARNE


Missa de Natal. Palavra de Deus: Isaías 9,1-6; Tito 2,11-14; Lucas 2,1-14; João 1,1-5.9-14.  

                A Sagrada Escritura nos ensina que “Deus é Espírito” (Jo 4,24), mas o ser humano é “carne” (Is 40,6). Enquanto “Espírito” significa vida, força e imortalidade, “carne” significa aquilo que perece, envelhece, adoece e morre. “Carne” significa aquilo que apodrece, que se corrompe, que se estraga. Nós somos “carne”! Apesar dessa verdade nua e crua, o nascimento de Jesus Cristo foi anunciado por João com essas palavras: “E toda carne verá a salvação que vem de Deus” (Lc 3,6). Por isso, Santo Agostinho afirmou, em sua homilia de Natal: “Por tua causa Deus se fez homem. Estarias morto para sempre, se ele não tivesse nascido no tempo. Jamais te libertarias da carne do pecado, se ele não tivesse assumido uma carne semelhante à do pecado. Estarias condenado a uma eterna miséria, se não fosse a sua misericórdia. Não voltarias à vida, se ele não tivesse vindo ao encontro da tua morte. Terias perecido, se ele não te socorresse. Estarias perdido, se ele não viesse salvar-te”.
            Natal é a festa da “Encarnação”, pois “a Palavra se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Jesus, Palavra viva do Pai, por meio da qual tudo foi criado – “Tudo foi feito por ela” (Jo 1,3) – assumiu a nossa “carne”, isto é, a nossa condição humana. Ele assumiu a nossa carne, justamente para redimi-la, para libertá-la da estreiteza do seu egoísmo, da cegueira do seu horizonte fechado, do círculo vicioso do seu pecado e de todo tipo de opressão e injustiça a que o ser humano está exposto neste mundo. É por isso que o profeta Isaías proclama: “(...) para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu” (Is 9,1), e o Evangelho afirma a respeito do nascimento de Jesus: “Era a luz da verdade que, vindo ao mundo, ilumina todo ser humano” (Jo 1,9).
            Quando os anjos anunciam aos pastores: “Hoje... nasceu para nós um salvador, que é o Cristo Senhor” (Lc 2,11), estão afirmando que Jesus nasceu como salvador de todo ser humano. Ele não nasceu apenas para Maria e José, como também não nasceu apenas para o povo judeu; ele nasceu para todo ser humano, porque “a graça de Deus se manifestou, trazendo a salvação para todos os homens” (Tt 2,11), isto é, para todas as pessoas. Onde quer que exista uma “carne”, isto é, um ser humano ferido, violentado, injustiçado, fragilizado, desrespeitado, entristecido, sem esperança, é ali que Jesus quer se fazer presente, assumindo toda a sua situação de sofrimento para libertá-lo, redimi-lo, salvá-lo.           
            Se queremos celebrar verdadeiramente o Natal, precisamos nos lembrar deste conselho de Deus: “Não se esconda daquele que é sua própria carne” (Is 58,7), ou seja, não ignore o sofrimento daquele que é humano como você; não se torne indiferente às pessoas à sua volta; não se desumanize, pois o Filho de Deus se fez pessoa humana e veio devolver humanidade ao nosso coração, ferido pelo ódio, adoecido pelo rancor, endurecido pela maldade que há em nosso mundo. “Não esconder-se da sua própria carne” também significa olhar com coragem e sinceridade para si mesmo, para aquilo que em você é frágil, imperfeito, doente, deformado pelo mal, e acolher-se, reconciliar-se com sua própria história, dialogar com sua própria verdade, admitir sua absoluta necessidade de ser redimido, liberto, salvo.
            A manjedoura onde Jesus foi colocado após seu nascimento, “pois não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2,7), nos remete para tantas situações da nossa vida onde o ideal foi ocupado pelo real. Quantos ideais, quantos sonhos e quantos projetos nossos foram desfeitos, modificados, atropelados por acontecimentos que viraram a nossa vida do avesso? E, no entanto, Deus, ao permitir que Seu Filho nascesse naquela situação de total desamparo, está nos dizendo que Ele está conosco em toda e qualquer situação. Embora nem sempre consigamos perceber, Ele está nos acompanhando nas nossas noites escuras, conduzindo os acontecimentos de modo que tudo concorra para o nosso bem, segundo o Seu amor e seu desígnio de salvação para conosco. Portanto, justamente ali, onde pensamos “não haver lugar” para a vida nascer, para a esperança nos visitar, para a nossa situação se transformar, é ali que Deus nos surpreende com a sua Providência e nos revela que a luz sempre encontra uma forma de vencer as trevas.
Porque Jesus Cristo é “a luz da verdade que, vindo ao mundo, ilumina todo ser humano” (Jo 1,9), nesta noite de Natal nós suplicamos por todas as pessoas e situações em nosso mundo que precisam ser iluminadas pela verdade da encarnação, para que cada ser humano experimente em sua própria “carne”, em sua própria condição de finitude, de fragilidade, de sofrimento e de morte, a graça da redenção, a certeza de ser infinitamente amado pelo Pai que enviou seu Filho para nos salvar.    
      
            ORAÇÃO: “Para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu” (Is 9,1). Deus da luz, em Ti não há trevas! Desce a nós, Pai das luzes! Visita-nos em nossas trevas. Visita especialmente todas as pessoas que se encontram na sombra escura da bebida e das drogas, do desemprego, da violência, da angústia, da depressão ou da falta de sentido para a vida. “Botas de tropa de assalto, trajes manchados de sangue, tudo será queimado e devorado pelas chamas” (Is 9,4). Deus forte, Príncipe da paz, desarma o coração daqueles que promovem guerras; livra nosso mundo da violência do tráfico e do trânsito, da intolerância e da perseguição política e religiosa. Derruba os muros que levantamos e ensina-nos a construir pontes em nossas famílias, igrejas e ambientes de trabalho. “Nasceu para nós um salvador, que é o Cristo Senhor” (Lc 2,11). Que a luz do Teu nascimento, Senhor Jesus, resplandeça sobre toda consciência e todo coração, de modo que nenhuma pessoa seja tomada pelo desespero, mas experimente a graça da Tua libertação e salvação. “E a Palavra se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Habita em nós, Senhor Jesus! Toca em nossa carne, abraça nossa fragilidade mais profunda, reconcilia-nos com a nossa própria humanidade e liberta-nos de nós mesmos! Amém!  

Pe. Paulo Cezar Mazzi    

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

OCUPE SEU LUGAR NA HISTÓRIA DA SALVAÇÃO!


Missa do 4º dom. do Advento. Palavra de Deus: Isaías 7,10-14; Romanos 1,1-7; Mateus 1,18-24.

Que lugar eu ocupo no mundo? Minha existência faz alguma diferença para a humanidade? Por mais que existam pessoas consideradas “importantes”, “absolutamente necessárias”, “insubstituíveis”, a verdade é que ninguém é o centro do mundo, ninguém é o centro do universo: todos nós somos mortais e, de certa forma, “substituíveis”; nem o mundo, nem a história da humanidade, começaram conosco ou tem em nós o seu eixo. Pode até ser que muita coisa dependa de nós nesse momento, mas quando viermos a faltar, a vida passará por um processo de adaptação e seguirá seu curso, assim como a história humana continuará a ser escrita por outras pessoas. Então, mais uma vez a pergunta: Minha existência faz alguma diferença para a humanidade?
No centro do Evangelho que hoje ouvimos está a figura de José, um homem que não teve qualquer palavra registrada na Sagrada Escritura, um homem silencioso e humilde, mas cuja presença na vida de Jesus – uma presença querida por Deus – nos ensina que cada um de nós ocupa um lugar importante, único e específico dentro da história da salvação. Enquanto as narrativas do nascimento e da infância de Jesus dão muito destaque à figura de Maria, o evangelista Mateus quis resgatar a figura de José, para nos falar da importância de compreendermos a nossa existência como uma vocação, como um convite a fazer da nossa vida uma “palavra de salvação” para o mundo.
            Assim como José, nós passamos por situações onde a vida parece virar de cabeça para baixo. Quando tudo estava caminhando segundo os nossos sonhos e projetos, um acontecimento estranho chegou e tirou o chão debaixo dos nossos pés, nos enchendo de medo, de raiva, de angústia e de incompreensão. É a nossa noite escura; é quando não entendemos mais o que está acontecendo e não conseguimos nos conectar com Deus, para receber uma mensagem Sua que responda às nossas perguntas. No entanto, apesar de estar com sua vida totalmente “desajustada”, o Evangelho afirma que José “era justo”. Não compreendendo a origem da gravidez de Maria, ele toma a decisão de abandoná-la em segredo. Fazendo assim, Maria não seria vista como adúltera, enquanto José seria visto como um homem irresponsável, que engravidou sua noiva e depois a abandonou.
A resposta que José não encontrou nos seus pensamentos embaralhados pelo medo, pela angústia, pela raiva e pela incompreensão, ele a encontrou quando conseguiu dormir, isto é, quando se desarmou. Como escreveu o Pe. Pagola, “acordado, consciente, o homem se defende, censurando aquilo que não quer. No sono, se desarma, e pode receber aquilo que Deus quer dar-lhe”. Quantas vezes rezamos “armados” em relação a Deus? Reclamamos das nossas feridas, mas não permitimos que Ele toque nelas; sofremos com determinadas situações, mas não aceitamos que Ele nos torne conscientes sobre a nossa responsabilidade em relação às mesmas. É verdade que Deus tem algo novo para nos dar, mas nossas mãos estão firmemente fechadas, assim como fechados estão os nossos pensamentos e também o nosso coração. E quanto mais nós estamos fechados, mais Deus precisa bater, quem sabe até nos “quebrar”, até abrir uma brecha através da qual fazer brilhar a Sua luz no meio da nossa sofrida noite escura...
Deus encontrou uma abertura na mente, na psique, na alma de José, e ampliou o seu horizonte de compreensão: se José não foi de modo algum “necessário” para o filho de Deus vir ao mundo, ele era “absolutamente necessário” para impor o nome ao Menino, isto é, para ajudá-lo a tornar-se consciente da sua própria identidade, para transmitir-lhe uma segurança emocional, para encaminhá-lo na vida e prepará-lo para a missão de salvar a humanidade. Eis aí, portanto, o lugar de cada um de nós na história da salvação: não somos salvadores das pessoas, mas colaboradores na salvação delas; não somos o personagem central na história da vida, mas sem a nossa presença e atuação, essa história fica gravemente prejudicada, incompleta.
Portanto, nós não somos a Mãe que gera o Filho de Deus, mas somos o “pai” que tem como tarefa sagrada amparar os inúmeros filhos de Deus que ainda não sabem seu próprio nome; crianças, adolescentes e jovens sem identidade ou com uma identidade profundamente frágil, confusa, fragmentada, adoecida; uma geração sem rumo e sem sentido para a vida, que não sabe o que significa “limite”, que não admite ser frustrada; uma geração que não sabe diferenciar o bem do mal, a justiça da injustiça; que só conhece a liberdade, mas não a responsabilidade...
“Quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor havia mandado, e aceitou sua esposa” (Mt 1,24). Eis aqui outro traço importante da “justiça” de José. Enquanto se debatia entre os seus projetos humanos e o projeto de Deus, José havia perdido a sua paz e se enchido de angústia. A partir do momento em que ele decidiu “ajustar” a sua vida à vontade de Deus, voltou a sentir paz, confiança, serenidade e clareza. Desse modo, ele “aceitou” receber Maria, grávida do Filho de Deus. À semelhança de José, nós somos convidados a nos tornar homens e mulheres “justos”, isto é, capazes de – não sem dor, não sem uma intensa luta interior – ajustar a nossa vida à vontade de Deus, abrindo-nos àquilo que Ele quer gerar em nós: uma vida mais ampla, mais profunda, mais livre, mais plena de sentido, uma vida que se torne “palavra de salvação” para a humanidade da qual fazemos parte.

ORAÇÃO: Pai, quero tornar-me consciente do meu lugar na história da salvação. Eu tenho meus planos e meus sonhos, mas sei que a minha realização está em abrir-me aos Teus planos e os Teus sonhos a respeito de mim e da humanidade. Muitas vezes eu resisto ao Teu querer e me fecho à Tua vontade porque tenho medo, porque quero manter o controle da minha vida em minhas mãos. Mas hoje o Senhor me convida a abrir mão desse controle; o Senhor me convida a dormir, a me desarmar, a permitir que o meu horizonte estreito e fechado se abra para algo novo, para algo muito maior que o Senhor tem para mim e para aqueles que o Senhor quer salvar por meio da minha humilde e breve existência neste mundo. Eu aceito ser Teu José. Eu quero ocupar o lugar que me cabe na história humana, para o bem da humanidade e para que a Tua salvação chegue onde ela ainda precisa chegar. Faça-se em mim o Teu querer. Sou Teu José! Em nome de Jesus, amém!     


Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

NÃO BASTA A CHUVA DA GRAÇA DE DEUS; AS SEMENTES DOS NOSSOS ESFORÇOS SÃO ABSOLUTAMENTE NECESSÁRIAS


Missa do 3º dom. do advento. Palavra de Deus: Isaías 35,1-6a.10; Tiago 5,7-10; Mateus 11,2-11.

Na vida precisamos ter expectativas: expectativas quanto à nossa saúde, aos nossos relacionamentos, à nossa vida profissional, ao nosso futuro, à nossa vida de fé etc. É justamente porque tem expectativa quanto à chegada da chuva que o agricultor, mesmo no tempo da estiagem, prepara a terra, lançando nela a semente. Ele tem esperança! Igualmente nós, cristãos, devemos esperar o Senhor Jesus cheios de expectativa, cheios de esperança, trabalhando o chão da nossa vida e lançando nele as sementes que fomos chamados a lançar, isto é, cultivando em nós e no mundo à nossa volta valores como o bem, a verdade, a justiça, o amor etc.
Mas há um problema quando se fala de expectativas: elas podem não se cumprir; elas podem até mesmo nos decepcionar, seja porque são expectativas irrealistas, exageradas, seja porque a vida nos responde de uma outra forma em relação àquilo que esperamos. Quando isso acontece, passamos por um momento de crise, de questionamento, de revisão das nossas expectativas, das nossas esperanças. Assim estava João Batista. Ele havia preparado a humanidade para a chegada do Messias, do Ungido do Senhor, prometido a Israel. No entanto, quando Jesus começou seu ministério, a forma de agir era tão diferente das expectativas de João que ele ficou confuso e chegou a duvidar de que Jesus era realmente o Messias esperado.
Eis, portanto, a pergunta de João a Jesus:  “És tu, aquele que há de vir, ou devemos esperar um outro?” (Mt 11,3). Nós já nos fizemos essa pergunta muitas vezes. Diante do fim de um relacionamento, de uma doença, de um acidente, de uma perda irreparável, de uma tragédia, de um problema enorme ou de um sofrimento intenso, nós começamos a questionar a nós mesmos, a vida e o próprio Deus. Onde foi que nós erramos? Será que não rezamos como deveríamos ter rezado? Será que Deus realmente existe? Se existe, será que realmente vê e se importa com o que acontece conosco? Será que estamos na Igreja certa, na religião certa? Ainda existe sentido em esperar por Deus, por seu socorro, por sua intervenção, por sua salvação?
Depois de responder à pergunta de João, Jesus lhe fez uma observação que é importantíssima também para nós: “Feliz aquele que não se escandaliza por causa de mim!” (Mt 11,6). Feliz aquele que não desistiu de buscar Deus só porque Ele frustrou suas expectativas. Feliz aquele que não jogou Deus fora quando sua imagem a respeito d’Ele se quebrou totalmente. Feliz aquele que não reduziu Deus ao tamanho das suas expectativas humanas, mas permitiu que Ele alargasse o seu horizonte de compreensão por meio de uma sofrida crise. Feliz aquele que desistiu de enquadrar Deus nos seus esquemas humanos e permanece aberto a algo novo que Ele está lhe dizendo, mostrando, ensinando. Feliz aquele que, mesmo não vendo uma nuvem no céu, continua a cultivar o chão da sua vida com a semente da esperança, crendo que, mais cedo ou mais tarde, Deus derramará a chuva da sua resposta à suplica que lhe foi feita.
Eis, portanto, o modelo de expectativa, o modelo de esperança, que o apóstolo Tiago coloca diante de nós: “Ficai firmes até à vinda do Senhor. Vede o agricultor: ele espera o precioso fruto da terra e fica firme até cair a chuva do outono ou da primavera. Também vós, ficai firmes e fortalecei vossos corações, porque a vinda do Senhor está próxima” (Tg 5,7-8). Quem é movido por uma expectativa ou por uma esperança autêntica não fica de braços cruzados, esperando que a vida mude por si mesma, mas se levanta todos os dias e cultiva o chão da sua existência com as sementes daquilo que ele espera colher como resultado dos seus esforços.
São Tiago está nos lembrando de algo importante e óbvio, mas que nós às vezes nos esquecemos: do céu só cai chuva, nunca semente! Se a chuva cai, mas não semeamos nada no solo da nossa existência, a única coisa que crescerá ali é mato. Contudo, se quando a chuva cai, encontra nosso solo trabalhado, semeado, “grávido” de sementes, então os frutos dos nossos esforços, o resultado da nossa esperança ativa (e não passiva!) começam a brotar como fruto de uma parceria entre a graça de Deus e o nosso esforço humano.
Geração estranha a nossa! Queremos colher o que não cultivamos! Queremos colher resultados, mudanças, transformações, mas sem o esforço do trabalho, do cultivo diário, de atitudes firmes e constantes que possibilitem que essas coisas aconteçam. Além disso, às vezes nos recusamos a cultivar atitudes diferentes em nossa vida simplesmente porque não existem garantias de que aquilo valerá a pena, de que realmente vai chover e o fruto do nosso esforço será recompensado. Por isso, o profeta Isaías insiste conosco: “Fortalecei as mãos enfraquecidas e firmai os joelhos debilitados... Criai ânimo, não tenhais medo! Vede, é vosso Deus, é a vingança que vem, é a recompensa de Deus; é ele que vem para vos salvar” (Is 35,3-4). Por isso, o próprio Jesus nos questiona a partir da pessoa de João Batista: “O que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? O que fostes ver? Um homem vestido com roupas finas? Mas os que vestem roupas finas estão nos palácios dos reis” (Mt 11,7-8).
Que tipo de pessoas somos: caniços agitados pelo vento, pessoas que se quebram diante de qualquer pancada que levam da vida? Somos pessoas inconstantes, que começam um caminho de autoconhecimento, de mudança, de enfrentamento de uma situação, mas que acabam por abandoná-lo porque as coisas não estão saindo do jeito que esperamos ou planejamos? Que tipo de pessoas somos: delicadas como roupas finas, pessoas que se rasgam diante dos puxões que o mundo nos dá? Somos pessoas sem consistência interna, que ao invés de acolherem a vida como ela é, vivem se refugiando dentro do palácio do seu melindre, do seu capricho, dos seus sonhos infantis de uma vida idealizada, perfeita?
Jesus nos convida a sermos maduros, firmes e realistas como João Batista o foi; um homem que, como nós, teve suas crises, lidou com a frustração de algumas de suas expectativas, mas permaneceu aberto para aquilo que a vida queria lhe ensinar. Não nos cabe controlar o céu e fazer chover na hora em que entendemos ser necessária; nos cabe, sim, cultivar-nos, cultivar o chão da nossa existência, cultivar o solo do mundo à nossa volta, lançando nele as melhores sementes de que somos capazes de lançar, colaborando para o surgimento de uma humanidade nova, de homens e mulheres enraizados em Deus, firmados na esperança que não decepciona, na expectativa que se alimenta da verdade da sua Palavra.  

Oração: Deus Pai, tua Palavra hoje me convida a cultivar-me, a cultivar valores que possibilitem o surgimento de mudanças em minha vida, o surgimento de transformações necessárias para o bem da humanidade. Preciso de sabedoria para rever minhas expectativas, para aprender a esperar confiantemente pela chuva da tua graça no chão árido da minha existência. O Senhor me convida ao trabalho diário de lançar as sementes das transformações que eu desejo, mantendo-me firme nas atitudes que possibilitarão tais transformações, sabendo que elas são fruto de uma parceria entre as sementes dos meus esforços e a chuva da tua graça. Concede-me a força do teu Espírito, para que eu não quebre diante dos ventos contrários e não retroceda diante das dificuldades, mas continue a dar os passos necessários em vista da meta que o Senhor me chama a alcançar em Cristo Jesus, meu Salvador. Amém!

Pe. Paulo Cezar Mazzi


quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

MANCHAS QUE DEVEM NOS INCOMODAR


Missa da Imaculada Conceição da Virgem Maria. Palavra de Deus: Gênesis 3,9-15.20; Efésios 1,3-6.11-12; Lucas 1,26-38.

                        A liturgia de hoje nos convida a celebrar o dogma (afirmação de fé) da Imaculada Conceição da Virgem Maria, segundo o qual Maria, preparada por Deus para ser a Mãe de Seu Filho, foi concebida sem a mancha do pecado original, isto é, do pecado que todos nós herdamos de Adão (cf. Rm 5,12), por sermos humanos como ele e, portanto, passíveis de erro. Diferente de Maria, nós não somos “imaculados”; pelo contrário, temos consciência de que levamos conosco a “mácula” (mancha) do nosso pecado pessoal, além de nos “macularmos” com certas concessões que nos “mancham” por meio da corrupção, da desonestidade, da mentira e da agressividade nos tempos atuais. Diferente de Maria, que foi chamada pelo anjo de “cheia de graça” (Lc 1,28), nós não estamos “cheios” da graça de Deus, mas estamos aqui como Igreja para receber do Senhor a Sua graça, a graça que nos santifica por meio da Palavra que Ele nos fala (cf. Jo 15,3). 
                        Para compreendermos a importância do dogma que afirma Maria como concebida sem a mancha do pecado original, precisamos nos voltar justamente para o momento em que esse pecado se dá, conforme relatado pelo texto de Gênesis. “Onde você está?”, perguntou o Senhor Deus a Adão (cf. Gn 3,9). Deus, que tudo vê e tudo conhece, fez esta pergunta a Adão, para que ele tomasse consciência da direção errada e destrutiva que o pecado estava dando à sua vida, quando decidiu desobedecê-Lo. Da mesma forma, através da pergunta “onde você está?” Deus nos ajuda a perceber qual tem sido a nossa parcela de responsabilidade naquilo que está acontecendo conosco. Portanto, não se trata de reclamar das nossas feridas, mas de agir com firmeza diante das situações que nos ferem.
                        Eis a resposta de Adão: “Ouvi tua voz, (...) fiquei com medo (...) e me escondi” (Gn 3,10). Diariamente Deus fala conosco em nossa consciência. Diante dessa voz, sentimos medo ou nos sentimos amados por Deus? Quantas pessoas se escondem de Deus no seu dia a dia por meio do ativismo, não se dando a chance de serem encontradas por Ele através da oração? Adão estava com vergonha da sua nudez, mas hoje a Palavra do Senhor nos convida a olhar para a nossa nudez, para as consequências maléficas e destruidoras que o pecado causa em nós, e reconhecer que somente o Senhor pode cobrir a nossa nudez; somente Ele pode curar as feridas que o pecado tem aberto em nós, em nossa família, em nossa Igreja, em nossa sociedade. Por maior que possa ser o nosso pecado, devemos nos lembrar da Palavra que diz: “Onde foi grande o pecado, muito maior foi a graça” de Deus em nos salvar (cf. Rm 5,20).
                        Ao tentador, que seduz as pessoas por meio do pecado, Deus fez uma promessa: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3,15). Tal promessa se cumpriu na pessoa de Maria, cuja descendência (Jesus) veio nos libertar do círculo vicioso do pecado, conforme está escrito: “É pelo seu sangue que nós temos a redenção, a remissão dos pecados” (Ef 1,7). Maria sempre foi preservada da mancha do pecado, não por ser mais forte do que ele, mas por a Mãe do Salvador, o único que tem poder de destruir a força do pecado em nós.
                        Diante de uma geração como a nossa, que supervaloriza a estética, a beleza externa, a pele sem mancha e sem ruga, Maria Imaculada nos questiona quanto àquelas atitudes que trazem sujeira à nossa consciência e ao nosso coração. Em nome da melhora na vida financeira, quantas pessoas jogam sua ética no lixo? Em nome de compensar a sua carência afetiva, quantos mancham seu próprio leito conjugal ou o leito conjugal de outros com a sujeira do adultério? Quem de nós, cristãos, se incomoda com a sujeira do desmatamento na Amazônia, com a sujeira da morte de jovens negros e pobres em nosso país ou com a sujeira da desigualdade social que intensifica sempre mais a violência em nossas cidades? Quem de nós se sente incomodado com a mancha da vergonha no que diz respeito à Educação em nosso país, onde 4 em cada 10 alunos brasileiros, na faixa dos 15 anos, não entendem o que leem, não sabem fazer contas básicas e não compreendem conceitos elementares de ciência?
                        Maria sempre foi compreendida como imagem da própria Igreja. O que ela é a Igreja é chamada a ser. De maneira profética, o Papa Francisco declarou que prefere uma Igreja “suja”, que sai de si e vai até os outros, para curá-los, para salvá-los, a uma Igreja “pura”, fechada em si mesma, preservada do contato com o sofrimento humano: “Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e comodidade de se agarrar às próprias seguranças” (EG 49). Essas palavras do Papa Francisco precisam gritar forte à nossa consciência, numa época em que cresce entre nós o número de cristãos conservadores e moralistas, que se mantêm distantes dos problemas sociais.
                        Finalizando esta reflexão, lembremos que se a nossa vida não é uma vida totalmente isenta de mancha, de pecado, ela é chamada a se tornar o “lugar da graça” de Deus, o lugar onde o Pai possa gerar seu Filho Jesus em nós, e por meio de nós, no mundo. O próprio Pai nos amou e nos escolheu em seu Filho Jesus “para que sejamos santos e irrepreensíveis, e vivamos sob o seu olhar, no amor” (Ef 1,4). Adão e Eva escolheram livremente se afastar desse olhar amoroso do Pai. Maria, pelo contrário, escolheu viver sob esse olhar: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” (Lc 1,38). Que neste tempo de Advento, possamos a cada dia converter o nosso “não” (fechamento à vontade de Deus) em “sim” (abertura e docilidade à Sua vontade), sabendo que é através dos nossos gestos de amor e de serviço que Deus torna-Se presente no mundo e o transforma.  

                        Pe. Paulo Cezar Mazzi