quarta-feira, 8 de abril de 2020

AOS PÉS DA CRUZ, DIANTE DO TRONO DA GRAÇA


Celebração da Adoração de Cruz de nosso Senhor. Palavra de Deus: Isaías 52,13 – 53,12; Hebreus 4,14-16; 5,7-9; João 18,1 – 19,42.

Se fosse possível, nós atravessaríamos a vida nos desviando de toda forma de sofrimento. Muito da nossa energia emocional é gasto neste sentido. Para isso, recorremos à medicina, à ciência, à tecnologia, às filosofias de vida e às religiões que prometem nos livrar do sofrimento. Mas o dia de hoje nos convida a olhar, encarar, reconhecer o sofrimento que está presente em nossa vida, ou na vida de alguém próximo a nós.
Quando falamos a respeito do sofrimento, precisamos ter claro que existem sofrimentos em nossa vida que são consequência de atitudes erradas que tomamos, assim como existem sofrimentos que são consequência não tanto daquilo que nos acontece, mas consequência da maneira como lidamos com aquilo que nos acontece. Além disso, existem sofrimentos que são o resultado de uma vida coerente, pautada na retidão e na justiça, assim como existem sofrimentos que são o resultado da maldade dos homens e da injustiça que existe no mundo.
A maneira como Jesus lidou com a sua cruz nos ensina que não devemos buscar o sofrimento por si mesmo, mas também não devemos fugir dele quando se apresenta a nós como consequência da nossa fidelidade ao Pai. O Cristo que vemos na cruz é a atualização da figura do Servo Sofredor, descrita pelo profeta Isaías. “Ele cresceu diante do Senhor, como raiz em terra seca” (Is 53,2). Em toda estação da nossa vida podemos crescer. É possível crescer também no tempo da aridez, na experiência do sofrimento! “Ele não tinha beleza, não tinha aparência que nos agradasse” (Is 53,2). É fácil enxergar Deus quando tudo está colorido em nossa vida. É fácil sentir Deus junto a nós quando estamos felizes e tranquilos em nosso bem estar. Mas Deus também nos fala por meio do cinza e do preto e branco; Ele nos fala também por meio daquilo que não é bonito, daquilo que é doloroso e feio, por meio de situações que não nos agradam. Precisamos aceitar esse fato.
O profeta Isaías descreve o Servo Sofredor como um “homem coberto de dores, cheio de sofrimentos” (Is 53,3), uma pessoa ou situação que nos causa repulsa e que, justamente por isso, preferimos não ver. Quantas vezes, ao cruzar com um sofredor, julgamos que ele era alguém castigado por Deus ou pelo destino? No entanto, “ele foi ferido por nossos pecados, esmagado por nossos crimes” (Is 53,5). Para nós é sempre mais fácil colocar nas costas de Deus a responsabilidade pelo sofrimento que existe no mundo, quando deveríamos nos dar conta da nossa parcela de responsabilidade em criar ou alimentar situações de sofrimento à nossa volta. A verdade é que nossos pecados, nossos pequenos crimes cotidianos causam sofrimento nas pessoas e no ambiente ao nosso redor...
Jesus jamais buscou o sofrimento por ele mesmo. O que Ele decidiu fazer foi não desviar o seu rosto da dor humana, isto é, não se tornar indiferente ao sofrimento que atinge as pessoas. Na sua cruz, Ele abraçou a cada um de nós e nos amou até o fim. Por isso, podemos dizer com o apóstolo Paulo: “A minha vida neste mundo eu a vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20). Como disse o Papa Francisco, a cruz de Jesus nos dá a certeza do amor fiel de Deus por nós. Seus braços estendidos são um convite para nos abrigarmos em Seu amor. A cruz também nos ensina a olhar para o outro com misericórdia e amor, principalmente o que sofre, o que precisa de ajuda, quem espera uma palavra, um gesto nosso.
A carta aos Hebreus nos lembra que Jesus não está mais na cruz, mas no céu, como aquele que intercede por nós, alguém capaz de se compadecer das nossas fraquezas, pois ele foi provado em tudo como nós: “permaneçamos firmes na fé que professamos” (Hb 4,14), porque temos, no céu, Jesus, aquele que, com sumo sacerdote, intercede por nós: Ele “é capaz de se compadecer de nossas fraquezas” (Hb 4,15). Nada que nos acontece é estranho a Jesus. Nenhuma dor, nenhum sofrimento, nenhum absurdo pelo qual passamos é estranho ou desconhecido para Ele. Olhando para a maneira como Jesus lidou com o seu sofrimento, podemos aprender a transformar nossa dor em oração, uma oração que é verdadeira entrega ao Pai.
Meditando sobre o sofrimento de Cristo na cruz, o autor da carta aos Hebreus afirma que “mesmo sendo Filho, (Jesus) aprendeu o que significa a obediência a Deus por aquilo que ele sofreu” (Hb 5,8). Nós não gostamos de obedecer, porque queremos que prevaleça a nossa vontade, não só diante das pessoas, mas diante de Deus também. Não percebemos que, quanto maior é a nossa rebeldia, a nossa teimosia, a nossa auto-afirmação, mais o sofrimento pode se tornar necessário, até que aprendamos a obedecer a Deus.
Ao profetizar a sua morte de Cruz, Jesus disse: “Quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,32). O que nos atrai hoje para a Cruz de nosso Senhor Jesus Cristo é a sua atitude de recolher em si toda dor, todo sofrimento, toda morte, e entregar tudo ao Pai, o único que pode transformar a morte em vida. O que nos atrai para a Cruz de nosso Senhor é enxergar nela o trono da graça: “Aproximemo-nos... com toda a confiança do trono da graça, para conseguirmos misericórdia e alcançarmos a graça de um auxílio no momento oportuno” (Hb 4,16). Na tarde desta Sexta-feira Santa, nos aproximamos do trono da graça com toda confiança, para pedir a Jesus Cristo por todos os crucificados, por todos nós, que fazemos nossa própria experiência de cruz. Especialmente, depositamos na Cruz de nosso Redentor todos os que morreram vítima do novo coronavírus em nosso mundo. Pedimos a Nossa Senhora, que permaneceu em pé diante da Cruz de seu Filho, que interceda por todos os profissionais da saúde, para que permaneçam firmes em sua sagrada missão de lutar em favor da vida até o fim.

Pe. Paulo Cezar Mazzi



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