Missa de Natal. Palavra de Deus: Isaías 9,1-6; Tito 2,11-14; Lucas 2,1-14.
Nós chegamos a este Natal mais
inseguros, mais angustiados, com nossa esperança cansada, ou até mesmo abalada.
Nós chegamos a este Natal mais tristes e machucados – perdemos parentes ou
amigos devido ao coronavírus. Nós chegamos a este Natal com o coração mais
sombrio, com mais dificuldade financeira – muitos perderam o emprego ou tiveram
seu salário reduzido como efeito colateral da pandemia. Essa pandemia poderia ter
tornado o ser humano melhor, focado no essencial, mais humilde, mais solidário.
No entanto, em muitos casos, ela fez vir para fora o que as pessoas têm de pior,
revelando-se mais egoístas e mais ignorantes. Aliás, o vírus da ignorância
revelou-se muito mais contagioso, nesse contexto de pandemia, sobretudo no
Brasil, do que o próprio coronavírus.
Mas, nesta noite de Natal, nós
ouvimos o anúncio de que “o povo, que andava na escuridão, viu uma grande luz; para
os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu” (Is 9,1). De fato,
Jesus nasceu como luz que “ilumina todo ser humano que vem a este mundo” (Jo 1,9).
Ainda que a maior parte da humanidade desconheça essa luz e viva na escuridão
da falta de amor, de fé e de esperança, na escuridão da ignorância, da
violência, das drogas e da desestruturação familiar; ainda que muitas pessoas à
nossa volta nunca fizeram uma experiência de comunhão profunda com a pessoa de Jesus
Cristo e outras rejeitam, como morcegos, tudo aquilo que possa ser luz – o
Evangelho, a Igreja, os cristãos, Jesus continua a oferecer-se como sentido de
vida para todo ser humano.
Seja para aqueles em
cujos corações Cristo ainda não nasceu pela fé, seja para aqueles que o recusam
como Salvador, o Natal é a proclamação de que “a graça de Deus se manifestou trazendo
salvação para todos os homens” (Tt 2,11). A manifestação do Filho de Deus se
deu no momento em que a história mundial estava dominada por um Império –
dominação expressa na obrigatoriedade do recenseamento – de modo que Jesus nasceu
em condições nada favoráveis, “pois não havia lugar para eles na hospedaria”
(Lc 2,7). Isso significa que, enquanto o medo e a falta de esperança nos fecham
em nós mesmos, Deus bate à nossa porta e nos convida a nos abrir à sua
salvação. Enquanto a fé na vida e no próprio ser humano diminui, Deus escolhe visitar-nos
nascendo como ser humano na pessoa de seu Filho Jesus. Enquanto nós recolhemos
nossas redes e guardamos nossas sementes, porque as condições não parecem ser
favoráveis para pescar ou para semear, o Natal nos provoca a lançar as redes e
a semear as sementes porque Jesus é Deus conosco: conosco em nossa dor e em
nossa fragilidade; conosco em nossa luta em favor da vida. Isso significa que não
estamos sozinhos em nossa doença, em nossas dificuldades, em nossas lágrimas, em
nosso luto; não estamos sozinhos com nossos medos e com nossa solidão.
“Nasceu para vós
um Salvador, que é o Cristo Senhor” (Lc 2,11). Do que precisamos ser salvos? Recentemente
o Papa Francisco nos recordou, na sua encíclica social Fratelli Tutti, que “a
pandemia do Covid-19 despertou, por algum tempo, a consciência de sermos uma
comunidade mundial que viaja no mesmo barco, onde o mal de um prejudica a todos”
(n.32). Nós precisamos ser salvos não somente do coronavírus, mas salvos do vírus
da ignorância, que faz piada da morte alheia, que nega a realidade do
aquecimento global e do desmatamento da Amazônia, que dissemina ódio e desinformação
nas redes sociais. Nós precisamos ser salvos de um consumismo que promete
saciar a fome dos nossos desejos, mas é incapaz de nos fazer sentir felizes e de
dar sentido à nossa própria vida.
Nesta noite de
Natal, somos convidados a silenciar a nossa alma para acolher “a Palavra (que)
se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Deus tem uma palavra a dizer a
cada ser humano: uma palavra de cura para o doente, de direção para o que se
sente perdido, de libertação para o que se sente preso, de força para o
enfraquecido, de consolo para o que está triste, e essa Palavra é seu próprio
Filho feito homem (cf. Hb 1,1-2), pessoa humana, que conhece o chão da nossa
história, nossas misérias, nossas lutas e nossas esperanças. E aqui se revela a
nossa tarefa como cristãos: fazer ecoar em nossas atitudes o “Verbo de Deus”,
colocando-nos junto das pessoas abatidas para levar-lhes uma palavra de
conforto da parte de Deus (cf. Is 50,4), o Consolador de todo ser humano.
Nesta noite, nosso
olhar se volta mais uma vez para o presépio, especialmente para a manjedoura;
ela que antes estava vazia e agora recebe o Menino Jesus. “Nasceu para nós um
menino, foi-nos dado um filho; ele traz aos ombros a marca da realeza; o nome
que lhe foi dado é: Conselheiro admirável, Deus forte, Pai dos tempos futuros,
Príncipe da Paz” (Is 9,5). Um menino nasce como sinal de que a vida sempre
encontrará um meio de renascer, assim como a luz sempre encontrará alguma
brecha no meio das trevas para fazer brilhar o seu resplendor. O menino nasce “para
nós”, para a nossa salvação, para nos orientar com seu Conselho, para nos socorrer
com sua Força, para abrir o nosso presente ao Futuro e para trazer àqueles que
nele creem a Paz. Que no coração de cada um de nós haja lugar para Cristo
renascer em nós pela fé.
ORAÇÃO: Deus Pai, que
nesta noite de Natal a luz do nascimento de teu Filho resplandeça sobre a noite
escura do medo, do desamor e da falta de esperança. Que todo ser humano seja envolvido
pela luz da Tua salvação e reconheça em Teu Filho o Salvador que ele necessita
e procura, ainda que de maneira inconsciente. Afasta de nós a escuridão da
ignorância. Não queremos ignorar teu Filho – Deus conosco – junto à história de
cada um de nós, assim como não queremos ignorar a nossa responsabilidade perante
as necessidades da humanidade, no seio da qual nos encontramos como testemunhas
da luz e da verdade. Faz ecoar na consciência e no coração de cada ser humano a
tua “Palavra feita carne”, de modo que o teu Filho possa nascer em cada coração
pela fé. Por Cristo, nosso Senhor. Amém!
Pe. Paulo Cezar
Mazzi
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