quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

"VOSSA FACE, SENHOR, EU A PROCURO!" (Sl 27,8)

 Missa da Epifania do Senhor. Palavra de Deus: Isaías 60,1-6; Efésios 3,2-3a.5-6; Mateus 2,1-12.

           

No coração de todo ser humano, no mais íntimo de cada um de nós, existe uma súplica: “É tua face, Senhor, que eu procuro. Não escondas de mim a tua face” (Sl 27,8-9). A nossa busca por Deus é a nossa busca por sentido. Não nos basta apenas existir; nós precisamos de uma razão para existir, e somente Deus pode responder à nossa busca por sentido de vida.

            A procura dos magos do Oriente pelo menino Jesus nos fala do quão sofrida às vezes se torna a nossa busca por Deus, pois a Escritura diz: “Tu és o Deus escondido” (Is 45,15). O Deus a quem o nosso coração busca é “escondido” porque mora dentro de nós, e não fora, como afirmou Santo Agostinho: “Eu era inquieto, alguém que buscava a felicidade, buscava algo que não achava. Mas Tu me deixaste conhecer-Te. Eis que estavas dentro e eu fora! Estavas comigo e não eu Contigo”.

Apesar de não termos um contato direto e imediato com Deus, o autor da carta aos Hebreus afirma que “quem se aproxima de Deus (quem procura por Deus) deve crer que Ele existe e recompensa aqueles que o procuram” (Hb 11,6). Os magos deixam isso claro: existe uma recompensa para quem busca Deus, para quem se desacomoda e se põe a percorrer o sofrido caminho da fé, atravessando noites escuras, suportando perguntas angustiantes em sua alma, até que possa encontrar-se com Aquele que é a verdade. Sim; a busca por Deus é a busca pela verdade. Por isso, só pode encontrar Deus quem O procura de coração sincero (cf. Sl 145,18).

A alegria dos magos, ao encontrarem Jesus, nos recorda a maneira como Deus se expressa no Antigo Testamento: “Deixei-me encontrar por aqueles que não perguntavam por mim. Deixei-me encontrar por aqueles que não me procuravam. A uma nação que não invocava o meu nome eu disse: ‘Aqui estou, aqui estou!’” (Is 65,1). Essas palavras se referem aos povos pagãos, povos representados aqui no Evangelho pelos magos do Oriente. Quantas pessoas, que nós jamais imaginaríamos que estivessem abertas a Deus, foram alcançadas pela graça d’Ele e se abriram à Sua verdade?

Se hoje somos chamados a nos alegrar pela oferta da salvação de Deus em Seu Filho Jesus, acolhida com alegria pelos povos pagãos, precisamos também considerar o perigo do nosso fechamento a Deus: “Estendi as mãos todos os dias a um povo desobediente, que andava por caminho mau, seguindo seus próprios caprichos” (Is 65,2). Deus estende Suas mãos todos os dias, para salvar o ser humano, mas muitos não se dão ao trabalho de estender suas próprias mãos para segurar as mãos de Deus. Muitos até gostariam de ter um encontro íntimo e transformador com Deus, mas não se dispõem a sair do seu comodismo, da sua preguiça espiritual. Como uma geração como a atual, preguiçosa e acomodada, vai se dispor a buscar Deus? 

Foi graças à luz de uma estrela que os magos do Oriente puderam encontrar Jesus. A luz dessa estrela nos recorda a palavra de Jesus: “Vós sois a luz do mundo... Brilhe a vossa luz diante das pessoas, para que elas vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,14.16). Como cristãos, somos chamados a fazer brilhar a luz das nossas boas obras, isto é, do nosso esforço diário em nos comportar como Jesus se comportou, lembrando sempre que o brilho da nossa luz deve glorificar o Pai e não a nós mesmos.

Assim que encontraram o Menino Jesus, os magos se ajoelharam e o adoraram. Adorar significa respeitar Deus; colocar-nos humildemente diante da Sua presença misteriosa; não nos apropriarmos d’Ele como se fosse um objeto sagrado que pudéssemos usar a nosso favor. Adorar significa buscar a Deus por quem ele é, e não porque necessitamos d’Ele. Significa também jogar fora os nossos ídolos, nossas falsas seguranças, e reconhecer que a nossa cura, a nossa salvação não vem de nós mesmos, mas do Deus vivo e verdadeiro. Adorar significa ainda nos desarmar, substituindo o medo pela confiança, permitindo que Deus possa tomar posse de nós e nos inundar com a Sua graça, que tudo transforma.

Diante de Jesus, o verdadeiro presente de Deus para a humanidade, os magos “abriram seus cofres e ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra” (Mt 2,11). Que o Pai nos ensine a enxergar em cada ser humano o ouro da sua dignidade e da sua unicidade, o incenso do sagrado que carrega em si como Seu filho amado e a mirra da sua fragilidade, espaço por meio do qual a força do Pai se manifesta como amor que redime, como bálsamo que alivia a dor e como convite ao amadurecimento e à superação dos seus obstáculos. 

 

Oração: Meu Deus, eu procuro a Tua face. Tu és o Deus escondido, o Deus que eu não posso manipular e usar segundo os meus caprichos. Quero respeitar o Teu mistério, a Tua transcendência, o Teu sagrado. Eu creio que o Senhor sempre se deixa encontrar por quem O procura de coração sincero, e que o Senhor nunca deixa sem resposta quem pergunta por Ti. Acolho a luz do Teu Filho! Ele é o presente que o Senhor oferece a toda a humanidade. Concede-me a graça de, ao longo deste novo ano, enxergar em cada ser humano o ouro da sua dignidade, o incenso do sagrado que carrega em si como Seu filho amado e a mirra da sua fragilidade. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

CONFIAR ÀS MÃOS DO PAI NOSSA BREVE EXISTÊNCIA NESTE MUNDO

 Missa Maria, Mãe de Deus. Palavra de Deus: Números 6,22-27; Gálatas 4,4-7; Lucas 2,16-21.

 

Fim de 2025: mais um ano vivido, e também um ano a menos em nossa existência terrena. Nossos dias escorrem como água pelo vão dos nossos dedos: “Pode durar setenta anos nossa vida, os mais fortes talvez cheguem a oitenta; a maior parte é ilusão e sofrimento: passam depressa e também nós assim passamos” (Sl 90,10). Ter a consciência de que temos um ano a menos para viver, em nossa breve existência neste mundo, deveria nos fazer abandonar as coisas fúteis e inúteis, e direcionar nossas energias para aquilo que é verdadeiramente essencial. Muitos de nós já não podem se dar ao luxo de gastar tempo e energia com ilusões que levam a um constante sofrimento inútil.

Diante da constatação do quanto a nossa vida corre rápida e o quanto nós perdemos tempo com ilusões e sofrimentos desnecessários, o salmista pede a Deus:  “Ensinai-nos a contar os nossos dias, e dai ao nosso coração sabedoria! Que a bondade do Senhor e nosso Deus repouse sobre nós e nos conduza! Tornai fecundo, ó Senhor, nosso trabalho, fazei dar frutos o labor de nossas mãos!” (Sl 90,12.16-17).

Ao encerrarmos o ano de 2025 algumas perguntas precisam ser respondidas: O que a vida tentou me ensinar neste ano, mas eu fiz de conta que não era comigo? Em quais momentos eu senti medo, raiva, tristeza, ou frustração, mas engoli e segui, como se nada tivesse acontecido? Que situações eu evitei enfrentar, acreditando que elas iriam se resolver sozinhas? Tudo aquilo de que fugimos em 2025 voltará a nos encontrar em 2026, em algum momento, porque, ou nós escolhemos ouvir por bem as perguntas que a vida nos coloca, ou teremos que ouvi-las por mal.

É possível que todos nós desejemos ou tenhamos nos proposto mudanças neste novo ano. Mas já fizemos isso muitas outras vezes, e pouca coisa mudou. O problema está na nossa vontade, que é fraca. Sem uma vontade séria e decidida da nossa parte, nada muda em nós, nem à nossa volta. Nossa vontade tem que ser treinada, disciplinada. Nenhum hábito muda sem ser exercitado ao longo de seis meses, no mínimo. E por falar em hábito, algo que todos nós precisamos nos propor é visualizar menos telas e ler livros. Eis alguns benefícios da leitura: 1. Ajuda a exercitar a imaginação e criatividade. 2. Amplia o vocabulário e melhora a escrita. 3. Contribui para a redução da ansiedade e do estresse. 4. Exercita a memória, aumenta o conhecimento e previne demência. 5. Promove o relaxamento e melhora a qualidade do sono.

Na época em que Jesus nasceu, apenas 10% da população sabia ler. Maria aprendeu a ler a vida por meio dos acontecimentos: “Quanto a Maria, guardava todos estes fatos e meditava sobre eles em seu coração” (Lc 2,19). Guardar e meditar no coração significa escutar o que a vida quer nos ensinar; significa entender que os acontecimentos não são fruto do acaso, mas consequência das nossas atitudes ou da alta delas, e também intervenções de Deus, que deseja abrir nossa vida para novos caminhos. Contudo, nada pode ser guardado e meditado no coração quando nossos olhos vivem fixados nas telas.

            Hoje estamos invocando as bênçãos de Deus para o novo ano: “Que Deus nos dê a sua graça e sua bênção. Que Deus nos dê a sua graça e sua bênção, e sua face resplandeça sobre nós!” (Sl 67,4.6). Contudo, não podemos esperar as bênçãos do céu para a nossa vida de cada dia transferindo para as mãos daqueles que nos governam tarefas que são nossa responsabilidade: “Abençoem... Abençoem e não amaldiçoem. Alegrem-se com os que se alegram, chorem com os que choram... A ninguém paguem o mal com o mal; seja a preocupação de vocês fazer o que é bom para todas as pessoas... Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal pelo bem” (Rm 12,14-15.17.21).

            Elevemos nossas mãos de filhos para segurar as mãos do Pai, permitindo que Ele nos conduza em cada dia do ano que está nascendo: “Entrega o teu caminho ao Senhor, confia nele e ele agirá” (Sl 37,5). Muito mais do que as vozes dos nossos projetos, planos, do nosso medo ou das nossas preocupações, queremos nos orientar pela voz do Espírito Santo, que clama em nós: “Abá, ó Pai!” (Gl 4,6). Assim, façamos agora a nossa oração:

            Abbá, Papai! Desde criança eu aprendi que era conduzido(a) por Ti, nesse estranho caminho que é o meu. Jamais considerei a vida como um peso que eu tenho de levar sozinho(a), pois teu amor me sustenta e me ampara. Mas confesso que às vezes tenho medo, e esse medo me impede de fazer a travessia. Continuo a ficar do lado de cá, ao que já me é familiar, não avançando rumo ao desconhecido, quando somente ali poderia fazer a experiência de que tu me amparas.

Abbá, Papai! Sei que o que o Senhor espera de mim não é que eu faça grandes coisas por Ti, mas que eu me atreva a me entregar confiantemente em tuas mãos, crendo que a tua atitude para comigo é, radicalmente, positiva. E a firmeza que o Senhor me oferece é um dom que tu concedes gratuitamente a quem se atreve a confiar em ti em meio às tormentas da vida. Abençoa-me, Papai, com a verdade do teu amor, e guia meus passos neste novo ano que se inicia. Por Cristo, nosso Senhor. Amém!*

 

            Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

*Trechos de Dolores Aleixandre, Revela-me o teu nome.

 

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

REZAR NOSSA REALIDADE DE FAMÍLIA DIANTE DO SENHOR JESUS, NOSSO MÉDICO E NOSSO REMÉDIO

 Missa da Sagrada Família de Nazaré. Palavra de Deus: Eclesiástico 3,3-7.14-17a; Colossenses 3,12-21; Mateus 2,13-15.19-23.

 

Neste dia em que fazemos memória da Sagrada Família de Nazaré e em que oramos pela nossa, alguns aspectos da vida em família precisam ser meditados e colocados nas mãos do Senhor nosso Deus, sabendo que “se o Senhor não constrói a casa, em vão trabalhamos seus construtores” (cf. Sl 126,1).

 

Família e violência – O Evangelho de hoje nos fala da violência cega e brutal de Herodes, que persegue o menino Jesus para matá-lo. As “conversas” que o Anjo do Senhor tem com José deixam claro que cabe a cada membro da família ouvir a voz de Deus em sua consciência e tomar a atitude diária de se afastar dos Herodes atuais. Herodes não é somente o traficante, o pedófilo, as mentiras das redes sociais, os diversos sites que corrompem crianças e adolescentes. Ele é também o pai que assassina sua mulher e seus filhos, assim como ele é o filho que assassina os pais por dinheiro (dependência química). Conselho bíblico: “Irai-vos, mas não pequeis. Não se ponha o sol sobre a vossa ira, nem deis lugar ao diabo” (Ef 4,26-27).  

 

Família e dinheiro – 79,5% das famílias brasileiras estão endividadas (outubro de 2025). Vivendo num país onde a pobreza não é apenas mantida, mas sempre mais aprofundada por políticos do Congresso Nacional, que legislam em favor das grandes empresas que despejam dinheiro em seus currais eleitorais, o empobrecimento não é simplesmente resultado do fracasso pessoal, mas politicamente necessário para manter os salários abusivos de políticos, juízes e militares. Contudo, há uma “tarefa de casa” que quase nunca é feita: planejar o gasto mensal. Além de o cartão de crédito ser o principal meio de endividamento, compra-se o que não é essencial e a emoção sempre cede diante dos apelos da propaganda de consumo. Conselho bíblico: “Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro” (Mt 6,24).

 

Família e jogos de aposta (Bets) – Enquanto muitas famílias procuram se proteger de ladrões e bandidos, elas mesmas abrem a porta da casa para outro tipo de ladrão: as bets – casas de aposta eletrônica. “86% das pessoas que apostam têm dívida e 64% estão negativadas na Serasa, diz pesquisa” (Estadão, novembro de 2024). Esse endividamento em apostas eletrônicas tem motivadores irresistíveis: times de futebol, cujas camisetas sempre estampam nomes de bets: “Todos os clubes do Brasileirão 2025 são patrocinados por bets. 90% dos times da Série A deste ano têm patrocínio master de empresas de apostas esportivas” (Ge.Globo, 11/03/2025). Um patrocinador master é uma entidade ou empresa que se destaca como o principal apoiador financeiro de um evento, projeto ou organização. Ver no You Tube: “A Banca Sempre Ganha - Episódio 1 - Bets: O jogo sujo que ninguém comenta”. Conselho bíblico: “Tomai cuidado contra todo tipo de ganância” (Lc 12,15).

 

Família e sexualidade – O acesso fácil à pornografia e o resultado rápido de prazer que ela oferece tem fechado pessoas em si mesmas, de modo que as dificuldades na harmonia sexual não são mais enfrentadas. Enquanto na vida real dá trabalho estabelecer um diálogo e buscar caminhos para tratar desvios ou doenças que prejudicam a saúde sexual, muitas pessoas mergulham na pornografia quase que diariamente, regredindo nas suas relações de convivência e viciando seu cérebro em compensações imediatas. Enquanto o casal se angustia com a possibilidade de traição, os filhos passam a noite mergulhados na Internet, se afogando na desorientação sexual da pornografia. Desse modo, na casa nunca falta a satisfação do prazer, mas sempre falta a alegria e o sentido de estarem juntos. Conselho bíblico: “A lâmpada do corpo é o teu olho. Se teu olho estiver são, todo o teu corpo também ficará iluminado; mas se ele for mau, todo o teu corpo também ficará no escuro” (Lc 11,34).  

 

Família e Deus (espiritualidade) – O fechamento em nós mesmos não somente nos afasta uns dos outros, mas principalmente do “Outro”: Deus. A oração dá lugar à diversão (filmes, jogos). A missa é rapidamente substituída pelo passeio do final de semana. Saciar o estômago com comida e bebida é muito mais prazeroso do que receber um “alimento tão mesquinho” (cf. Nm 21,5), como a Eucaristia. Conselho bíblico: “Creia no Senhor Jesus e serão salvos você e sua família” (At 16,31). A cura e a restauração da nossa família passam pela relação de cada um de nós com a pessoa de Jesus Cristo, nosso médico e nosso remédio, ele que nos garantiu: “Sem mim, vocês nada podem fazer” (Jo 15,5) e nos fez este apelo: “Permaneçam em mim. Permaneçam no meu amor” (Jo 15,7.9).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

A "PALAVRA QUE SE FEZ CARNE" SÓ PODE SER OUVIDA NA SIMPLICIDADE E NO SILÊNCIO

 Missa de Natal. Palavra de Deus (Noite): Isaías 9,1-6; Tito 2,11-14; Lucas 2,1-14; (Dia): Isaías 52,7-10; Hebreus 1,1-6; João 1,1-18.

 

 “Eu vos anuncio uma grande alegria (...): Nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor” (Lc 2,11). Como você está celebrando este Natal? A notícia do nascimento de Jesus enche seu coração de alegria, ou a tristeza pela enfermidade, pela dificuldade financeira, pela perda de alguém, pelo rompimento de um relacionamento etc., tem sufocado a alegre notícia de saber que, antes de você vir ao mundo e se confrontar com muitas situações tristes, o seu Salvador já havia nascido?

“Nasceu para vós”. Jesus não nasceu para si mesmo, assim como não viveu para si mesmo. Ele nasceu para cada um de nós. Além disso, viveu e morreu em favor da salvação de cada um de nós. Crer que Jesus se tenha feito pessoa humana e entrado na história humana não muda nada na vida de ninguém. O que muda é o fato de crermos que Ele nasceu como Salvador de cada um de nós; nasceu como “a luz da verdade que, vindo ao mundo, ilumina todo ser humano” (Jo 1,9). Luz é sinônimo de vida, verdade, direção e orientação. Vivendo dentro da grande desorientação do mundo atual, onde a IA se tornou um instrumento perfeito para se disseminar todo tipo de mentira nas redes sociais, nós seguimos Jesus: Caminho (orientação), Verdade (aquilo que é sólido e digno de confiança) e Vida (sentido e transcendência).

 A simplicidade do nascimento de Jesus – seu primeiro berço foi uma manjedoura, lugar onde os animais comem – é um ótimo questionamento para nós, que nos afastamos de tudo o que é simples e passamos a viver escravos das constantes solicitações da tecnologia e da propaganda de consumo. Como a nossa mente não suporta o excesso de informações (ou seria, na verdade, desinformações?) e o nosso emocional se esgota devido ao excesso de solicitações, a manjedoura de Jesus continua a nos alertar que a doença está no excesso, enquanto que a cura está na simplicidade. Nenhum excesso (comida, bebida, dinheiro, bens, poder, sexo, validação etc.) é capaz de responder à nossa busca mais profunda: a busca pelo sentido da vida.

No dia em que celebramos o nascimento do nosso Salvador precisamos ter a coragem de escutar o nosso coração, com suas angústias e tristezas, suas perguntas ainda sem respostas, seu vazio que não pode ser preenchido com nada que o mundo invente e nos venda com a falsa promessa de felicidade. Aliás, quanto mais presentes uma criança ganha, menos ela os valoriza; quanto menos, mais valorização e cuidado. Justamente porque a celebração do Natal foi corrompida pela indústria e pelo comércio, na sua sede insaciável de vender e lucrar conosco, para muitas pessoas o sentido do Natal passou a depender da quantidade de presentes que ganham.

O verdadeiro sentido do Natal está numa Palavra que se fez pessoa humana e desejou entrar em diálogo conosco: “E a Palavra se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Jesus, Palavra viva do Pai, se fez pessoa humana para falar ao humano de cada um de nós. Ele se fez “carne” para dialogar com a nossa carne, a qual, no sentido bíblico, significa debilidade, ambiguidade, contradição, miséria, insuficiência, algo sujeito à tentação e ao pecado, aquilo que é chamado a ser (ideal), mas que constantemente se acomoda ao que é (real)... Jesus é verdadeiramente a Palavra viva do Pai para falar à nossa carne, e essa Palavra só pode curar, perdoar, libertar, ressuscitar e transformar aquele que faz silêncio para ouvi-La; aquele que, em meio às inúmeras solicitações por atenção, toma a decisão de ouvi-La!            

            “Ninguém jamais viu a Deus. O Filho único, que está voltado para o seio do Pai, este nos deu a conhecê-Lo” (Jo 1,18). O Filho nasceu para nos libertar de toda compreensão doentia ou deformada que tínhamos do Pai. Portanto, só podemos conhecer o Deus único e verdadeiro ouvindo o Filho, a quem o Pai concedeu o poder sobre toda carne, ou seja, sobre todo ser humano. Mas qual poder? O poder de nos dar a vida eterna. “Ora, a vida eterna é esta: que eles conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e aquele que enviaste, Jesus Cristo” (Jo 17,2-3).

Que você tenha um Natal habitado pelo silêncio e pela simplicidade de coração, para permitir ao Filho pronunciar sobre a sua carne a Palavra da Verdade, e lhe introduzir na intimidade amorosa, curativa e libertadora do Pai.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

NOSSOS PESADELOS NÃO IMPEDEM DEUS DE SONHAR EM NÓS

 Missa do 4º dom. Advento. Palavra de Deus: Isaías 7,10-14; Romanos 1,1-7; Mateus 1,18-24.

Os textos bíblicos deste último domingo do Advento nos colocam diante de dois homens chamados a se tornarem pais: o rei Acaz (séc. 8 aC) e o carpinteiro José (séc. 1 dC). Enquanto o filho de Acaz representa a promessa, o filho de José representa a realização da promessa, para mostrar que Deus “vigia sobre a sua Palavra até que ela se realize” (cf. Jr 1,12). Isso significa que nenhuma das promessas de Deus ficará esquecida ou perdida no tempo, mas todas se cumprirão no seu devido tempo.

        O rei Acaz é chamado a tornar-se pai num contexto de ameaça de guerra. A guerra destrói tudo, trazendo consigo a morte e a perda de confiança no futuro. Exatamente na iminência de uma guerra que poderá destruir o seu reino, Acaz recebe uma promessa de Deus: “Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de Emanuel” (Is 7,14). A virgem, nesse caso, é a esposa de Acaz; o filho é Ezequiel, futuro rei de Israel, garantia de que haverá um futuro para um reino que está ameaçado de ser eliminado da face da terra.

           O futuro nascimento de Ezequias aponta para outro nascimento, o de Jesus Cristo, verdadeiro Emanuel, o “Deus conosco” (Mt 1,23), que nos garantiu: “Eu estarei convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28,20). Séculos mais tarde, o apóstolo Paulo perguntará: “Se Deus está conosco, quem estará contra nós?” (Rm 8,31).

O Evangelho de hoje nos fala da “origem” humana de Jesus, uma origem que se dá num contexto de forte crise para o coração de José. A gravidez de Maria surpreendeu José e o jogou numa profunda crise, enchendo seu coração de perguntas que ele não conseguia responder. Desconhecendo o plano de Deus, era natural que José concluísse que a gravidez de Maria era fruto de uma traição, a qual pedia a justiça da época: o apedrejamento até a morte.

Aqui entra a grandeza de José, aquilo que o Evangelho chama de “justiça”: “José, seu marido, era justo” (Mt 1,19). Para não denunciar Maria publicamente e expô-la ao risco de um apedrejamento, José decide abandoná-la em segredo, assumindo a “culpa” de ter engravidado sua noiva e não ter assumido a responsabilidade pelo filho. José poderia ter exigido “justiça” e entregue Maria ao apedrejamento, mas ele não o fez. Quantas injustiças nós causamos aos outros ao ficarmos cegos pelo nosso desejo de justiça?

         Assim como José, alguns dos nossos sonhos se tornam pesadelos: o sonhado filho cresce e se torna dependente químico, ou mesmo bandido; o casamento se deteriora em divórcio; determinado sonho de consumo traz consigo dívidas impagáveis que transtornam a família; o sonhado trabalho numa determinada empresa esconde a convivência com pessoas corruptas ou pagãs, que serão má companhia para o marido ou para a esposa...

            Durante a vida, todos nós teremos que enfrentar alguns pesadelos, mas o Evangelho nos traz a boa notícia de que Deus pode sonhar dentro dos nossos pesadelos, falar ao nosso inconsciente e ampliar o horizonte da nossa vida. Enquanto o nosso consciente se defende daquilo que a vida está nos pedindo, o nosso inconsciente se mantém aberto àquilo que Deus sonha para nós. Desse modo, Deus fala a José por meio de um sonho, explicando a “origem” da gravidez de Maria e convidando José a se abrir aos Seus planos.

         José foi chamado a cuidar de um filho que ele não gerou. A quantos de nós a vida está pedindo para cuidar de algo – ou de alguém – que não geramos, que não foi querido ou “causado” por nós, mas que depende absolutamente do nosso cuidado, para ter prosseguimento e futuro? A nossa vida pode ganhar um sentido totalmente novo quando aceitamos cuidar de algo que não é nosso, mas que Deus colocou em nosso caminho, para que o abracemos como nossa responsabilidade.  

            José não teve participação alguma na geração de Jesus no ventre de Maria, mas cabe a ele dar um nome àquele menino: “Tu lhe darás no nome de Jesus” (Mt 1,21), que significa “Deus salva”. Toda criança que nasce precisa de uma referência masculina e de uma feminina. Infelizmente, mais da metade das famílias brasileiras não tem “José” dentro de casa. A ausência de uma figura paterna abre uma lacuna enorme na formação da personalidade dos filhos, por mais que a mãe seja uma heroína e os crie sozinha.

            Deus nos desafia como Igreja a sermos a presença de José junto às inúmeras crianças carentes de pai, crianças “adotadas” precocemente pelo tráfico de drogas, pelo mundo da criminalidade e pela profunda desorientação das redes sociais. Que a presença discreta e silenciosa de José na Sagrada Escritura nos inspire a ocuparmos o nosso lugar na história da salvação. Assim como ele, que nós nos tornemos homens e mulheres “justos”, dispostos a ajustar a nossa vida aos projetos de Deus, que visam o bem e a salvação nossa e da humanidade.

 

Oração: Senhor Deus, meu Pai, muitos são os pesadelos que atormentam a minha mente e angustiam o meu coração. Ajuda-me a dormir, para que o meu consciente, que sempre se defende dos Seus planos a meu respeito, desligue e o meu inconsciente acolha os sonhos que Tu tens para mim. Desse modo, poderei compreender a razão pela qual fui chamado(a) à existência, e ocupar o meu lugar na história da Salvação, sendo fiel à tarefa de cuidar daquilo que a vida está me pedindo para cuidar, neste momento. Por Jesus Cristo, na força do Espírito Santo. Amém.   

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

NUNCA SE ESQUEÇA DE QUE "A REALIDADE É MAIOR DO QUE A IDEIA"

Missa do 3º dom. Advento. Palavra de Deus: Isaías 35,1-6a.10; Tiago 5,7-10; Mateus 11,2-11.

 

O Evangelho nos fala de João Batista preso, por ter confrontado Herodes com o seu pecado de adultério. Na prisão, João faz uma pergunta sobre Jesus que revela a sua decepção: “És tu, aquele que há de vir, ou devemos esperar um outro?” (Mt 11,3). “És tu, aquele que há de vir, ou devemos esperar um outro?” (Mt 11,3). Eu estou na igreja/religião certa, ou devo procurar outra? Sempre que Deus não responde imediatamente à nossa oração, nós nos decepcionamos com Ele.  João esperava que Jesus fosse radical como ele, mas, em lugar de colocar o machado na raiz da árvore, Jesus colocou o adubo da misericórdia, na esperança de que cada pessoa se converta e seja salva.

            Jesus reponde à pergunta de João: “Os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados” (Mt 11,5), cumprindo a profecia de Isaías que ouvimos na primeira leitura (cf. Is 35,5-6a). E Jesus acrescenta algo na resposta para falar a todo aquele que, ao longos dos tempos, aderir a ele pela fé: “Feliz aquele que não se escandaliza por causa de mim!” (Mt 11,6). No sentido bíblico, “escândalo” significa aquilo que leva uma pessoa a perder a fé. E João Batista estava perdendo a fé em Jesus não por estar preso, mas por Jesus não corresponder às suas expectativas.

            “Feliz aquele que não se escandaliza por causa de mim!” (Mt 11,6). Ao longo da vida, nós nos escandalizamos com Deus, por Ele não fazer por nós o que esperávamos que fizesse; pelo fato de que os Seus caminhos não são os nossos (cf. Is 55,8); pelo fato de, exatamente como Jesus, nós termos a nítida sensação de que Ele nos abandonou no momento em que mais precisávamos (cf. Mt 27,46). Um fé que não sobrevive às inúmeras decepções com Deus – não por Ele ser indiferente a nós, mas porque nossas expectativas não têm o poder de colocá-Lo a nosso serviço –, conhecerá o seu fim rapidamente.

            Justamente porque a nossa fé precisa suportar o mistério de Deus, Isaías nos faz esse convite: “Fortalecei as mãos enfraquecidas e firmai os joelhos debilitados” (Is 35,3). O apóstolo Tiago, por sua vez, nos aconselha: “Ficai firmes até à vinda do Senhor. Vede o agricultor: ele espera o precioso fruto da terra e fica firme até cair a chuva do outono ou da primavera” (Tg 5,7). A chuva que esperávamos tanto veio agora, e compensou o trabalho e a espera de cada agricultor. Como toda espera é sofrida, São Tiago nos ensina: “Tomai por modelo de sofrimento e firmeza os profetas” (Tg 5,10). Sofrimento e firmeza precisam caminhar juntos. Se o sofrimento aumenta, a firmeza deve aumentar também.

            Aqui entra o modelo de firmeza que Jesus nos propõe: João Batista. Mesmo tendo decepções em seu coração, ele não era “um caniço agitado pelo vento” – uma pessoa volúvel, que não tem raiz e que, por isso mesmo, vive como folha seca empurrada pelo vento da constante desorientação do nosso mundo. João também não era “um homem vestido com roupas finas, morando num palácio” – uma pessoa vaidosa e, por isso mesmo, vazia, fútil, escrava do consumismo, que sonha com palácios e rejeita a simplicidade de uma modesta casa. Em outras palavras, João Batista nos ensina a cultivar a nossa essência, numa sociedade escrava da aparência; a sermos livres, numa época em que a tecnologia nos torna escravos das suas constantes novidades.

Se nós quisermos sair da prisão da nossa decepção para com Deus, devemos recordar um importante ensinamento que orientou o ministério do Papa Francisco: “A realidade é maior que a ideia”. O mistério de Deus se revela muito mais na vida real do que nos livros de teologia. Cada decepção que temos com Deus é um convite a nos abrirmos à realidade à nossa volta e entendermos melhor o que Deus está nos mostrando e nos dizendo, devolvendo sentido à nossa fé, à nossa esperança e, principalmente, à nossa vida.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi


quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

NOSSO LOBO E NOSSO CORDEIRO PODERÃO VIVER JUNTOS, PACIFICAMENTE!

 Missa do 2º. dom. do avento. Palavra de Deus: Isaías 11,1-10; Romanos 15,4-9; Mateus 3,1-12.

 

         Estamos entrando na segunda semana do Advento. Nosso olhar se levanta para o que está por vir: a Parusia, ou seja, a segunda Vinda de Cristo. Segundo o profeta Isaías, a vinda de Cristo provocará uma mudança no interior das pessoas e até mesmo dos animais: “O lobo e o cordeiro viverão juntos..., o leão comerá palha como o boi; a criança de peito vai brincar em cima do buraco da cobra venenosa... Não haverá danos nem mortes...” (Is 11,6.7.8.9). Dentro de nós há um lobo, um leão, uma cobra venenosa; há uma pessoa que instintivamente age no sentido de se defender quando ameaçada. Mas também moram em nós um cordeiro manso, um boi que não se alimenta de sangue, uma criança capaz de brincar. A nossa saúde física, mental e espiritual depende de aprendermos a colocar em diálogo o lobo e o cordeiro, o leão e o boi, a criança e a cobra venenosa que nos habitam.

Se a profecia de Isaías nos parece uma utopia, um sonho maravilhoso, mas tremendamente irreal, o apóstolo Paulo afirma que tudo o que foi escrito no passado foi escrito para que, “pelo conforto espiritual das Escrituras, tenhamos firme esperança” (Rm 15,4). Ora, a esperança não se assenta sobre aquilo que somos agora, mas sobre aquilo que podemos vir a ser, na medida em que nos deixamos conduzir pelo Espírito de Deus. Ele pode nos conceder “a graça da harmonia e da concórdia uns com os outros” (Rm 15,5). O Natal só é possível de ser celebrado quando nos dispomos à reconciliação, à reaproximação, a acolher aqueles para os quais temos mantida fechada a porta do nosso coração.

                Nesta segunda semana do advento, bate à porta da nossa consciência a voz de João Batista, aquele que veio preparar a primeira vinda de Cristo: “Convertei-vos! (...) Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas!” (Mt 3,2-3). O contrário da conversão – voltar-se para Deus – é a perversão – andar numa direção que não é a de Deus, que não conduz para Deus. “Converter-se”, no seu mais genuíno sentido bíblico, é abandonar os caminhos que nos levam para longe de Deus (os caminhos do egoísmo, da autossuficiência, do orgulho, da preocupação com os bens materiais) e voltar para trás, ao encontro de Deus; é tomar a decisão de viver ao estilo de Jesus, no amor, na partilha, no serviço, no perdão, no dom de si próprio a Deus e aos irmãos.

Para aqueles que têm a convicção de estarem caminhando na direção de Deus, vale o alerta de João Batista a alguns grupos religiosos do seu tempo: “Raça de cobras venenosas... Produzi frutos que comprovem a vossa conversão” (Mt 3,7-8). Nós nos julgamos ‘filhos de Deus’, mas muitas vezes nos comportamos como ‘filhos do maligno’, simbolizado biblicamente pela serpente. Participamos das celebrações da nossa Igreja sem escutar a voz da nossa consciência e sem a disposição de mudar nossas atitudes.  

             O que identifica a árvore é o fruto que ela produz. “Toda árvore que não der bom fruto será cortada e jogada no fogo” (Mt 3,10). Talvez você já tenha montado sua árvore de Natal. Os enfeites dela apontam para os frutos. Que frutos as pessoas têm encontrado em você? As suas atitudes têm ajudado a despertar a fé e a esperança nos outros? Na sua segunda vinda, o Senhor Jesus virá como Juiz. Julgar, no sentido bíblico, significa separar. “Ele está com a pá na mão; ele vai limpar sua eira e recolher seu trigo no celeiro; mas a palha ele a queimará num fogo que não se apaga” (Mt 3,12). Trigo – imagem bíblica de uma pessoa que amadureceu como bom fruto; palha – imagem bíblica de uma pessoa vazia, desprovida de conteúdo. Você está cuidando do seu cultivo pessoal, para um dia se tornar trigo e não palha?

Algumas tarefas que podemos assumir durante esta segunda semana do Advento: 1) Colocar em diálogo nosso lobo e nosso cordeiro; 2) Quem devemos acolher? A quem devemos voltar a abrir a porta ou à porta de quem precisamos bater, em busca de reconciliação? 3) Nós estamos amadurecendo como trigo ou como palha?

Pe. Paulo Cezar Mazzi

   

             

 

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

PREPARAR-SE PARA O SENHOR É RESPONSABILIDADE DE CADA PESSOA

 

Missa do 1º dom. do advento. Palavra de Deus: Isaías 2,1-5; Romanos 13,11-14a; Mateus 24,37-44.

 

O Tempo do Advento, que hoje iniciamos, é composto por quatro semanas. Nas duas primeiras, fortalecemos a nossa esperança diante da segunda vinda de Jesus, com poder e glória; nas duas últimas, fazemos a memória da sua primeira vinda, na fragilidade da carne humana, como afirma o Prefácio do Advento I: “Revestido da nossa fragilidade, ele veio a primeira vez para realizar seu eterno plano de amor e abrir-nos o caminho da salvação. Revestido de sua glória, ele virá uma segunda vez para conceder-nos em plenitude os bens prometidos que hoje, vigilantes, esperamos”.

Um profeta nos ajuda a viver o Tempo do Advento: Isaías. Ele é, por excelência, “o profeta da espera”. Toda a sua profecia está direcionada para a vinda de Cristo, o qual restaurará todas as coisas. E aqui está a primeira profecia de Isaías: “Acontecerá, nos últimos tempos” (Is 2,2). Isaías levanta o véu que cobre os nossos olhos e nos impede de enxergar para além do momento presente. Ele nos revela o que acontecerá: Cristo virá para nos ensinar, e o seu ensinamento provocará uma transformação em nós: “transformarão suas espadas em arados e suas lanças em foices: não pegarão em armas uns contra os outros e não mais travarão combate” (Is 2,4).

Diante dessa transformação de pessoas agressivas em pessoas que promovem a paz, podemos nos perguntar como anda a nossa agressividade, a nossa impaciência e a nossa baixa tolerância. Sempre é bom lembrar que nós não escolhemos sentir agressividade, raiva, ódio, nervosismo – há situações específicas que despertam essas coisas em nós. Mas é nossa responsabilidade escolher a forma de lidar com isso. Se, na noite de Natal, o profeta Isaías proclamará que o menino que nasceu para nós é “o príncipe da paz” (Is 9,5), precisamos, desde agora, reconhecer todo tipo de agressividade que nos habita e permitir que Jesus opere uma transformação interior dos nossos instintos, para que este Natal não seja uma mentira em nossa vida. Portanto, acolhamos o convite do profeta: “Deixemo-nos guiar pela luz do Senhor” (Is 2,5).

O Tempo do Advento nos convida a olhar para frente: “agora a salvação está mais perto de nós do que quando abraçamos a fé” (Rm 13,11). O Cristo que nos alcançou no passado, por meio do Evangelho, está à nossa frente: “Cristo foi oferecido uma vez por todas para tirar os pecados da multidão; Ele aparecerá uma segunda vez (...), àqueles que o esperam para lhes dar a salvação” (Hb 9,28). Essa segunda vinda de Cristo é chamada no Novo Testamento de “Dia”, “Dia do Senhor Jesus”: “O dia vem chegando: despojemo-nos das ações das trevas e vistamos as armas da luz” (Rm 13,12).

Na missa do dia de Natal, o Evangelho nos recordará que “nele (em Jesus Cristo) estava a vida, e a vida era a luz dos homens” (Jo 1,4). Se nessa época do ano muitas casas são enfeitadas com “luzes de Natal”, tais luzes nos lembram do nosso compromisso de vivermos como filhos da luz e não das trevas. Concretamente, isso significa não nos comportarmos como pagãos: nada de comer exageradamente, beber exageradamente, levar vida sexual desregrada, viver em brigas (de novo, a agressividade) e com rivalidades (cf. Rm 13,13). Essa palavra do apóstolo Paulo nos revela o quanto o final do ano é uma época onde o paganismo escancara a sua face.

Acolhamos agora a palavra de Jesus, no Evangelho: “A vinda do Filho do Homem será como no tempo de Noé (...): todos comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca. E eles nada perceberam até que veio o dilúvio e arrastou a todos” (Mt 24,37-39). A questão principal está aqui: eles nada perceberam até que veio a destruição. Esse é retrato do nosso mundo. A indústria da distração foi criada para não percebermos o que está acontecendo à nossa volta. Nós buscamos nos desligar da realidade mergulhando em vídeos, filmes, séries etc., enquanto os grandes bilionários seguem firmes no seu propósito insano de enriquecimento sem limites à custa da destruição do Planeta.

A vinda de Jesus não será precedida por nada de espetacular porque, na verdade, ele vem todos os dias e nos visita nas mais diversas situações. Quem espera por algo grandiosamente impactante, para só então mudar suas atitudes, vai morrer por situações desastrosas criadas por si mesmo. Mas, atenção! Essa destruição não se refere a todos, como Jesus acabou de afirmar: “Dois homens estarão trabalhando no campo: um será levado e o outro será deixado. Duas mulheres estarão moendo no moinho: uma será levada e a outra será deixada” (Mt 24,40-41). Ser levado significa ser salvo; ser deixado significa ser condenado à destruição que a própria pessoa ajudou a provocar. Portanto, a salvação passa por uma escolha livre e consciente de cada um.  

            Eis o apelo final de Jesus: “ficai atentos!” (Mt 24,42); “ficai preparados! Porque na hora em que menos pensais, o Filho do Homem virá” (Mt 24,44). Toda pessoa que decide separar um tempo diário para meditar e rezar percebe os sinais da vinda de Jesus na sua vida particular. Ela não será surpreendida, por causa da sua preparação diária para o encontro com o seu Esposo e Salvador.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

Oração do Advento

 

Para Te acolher, Senhor Jesus, para preparar nossa terra, para crer em Ti, nosso grande Senhor e Salvador, não há nada de extraordinário a fazer: basta ter um coração sincero e sem máscaras. Basta ter um olhar de acolhida e ternura para com toda pessoa que encontramos no dia a dia. Basta colocar nos lábios o sorriso e a alegria. Basta abrir as mãos para dar e repartir. Basta ser atencioso e fiel à Tua Palavra. Basta amar, sem colocar condições. Basta ouvir o Teu apelo e decidir mudar de vida, Senhor! Amém.

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

NÃO EXISTE CONDENAÇÃO PARA QUEM ESCOLHE VIVER SOB O DOMÍNIO ESPIRITUAL DE CRISTO

Missa de Cristo, Rei do Universo. Palavra de Deus: 2Samuel 5,1-3; Colossenses 1,12-20; Lucas 23,35-43.

 

            Hoje se dá o enceramento do ano litúrgico. Cada celebração dele nos ensina que a nossa vida neste mundo, marcada pelo tempo cronológico, está inserida num tempo maior, que nos ultrapassa, o tempo chamado “kairós”, palavra grega que significa “o momento certo” ou “o tempo oportuno”, tempo onde Deus realiza a sua salvação na vida de cada um de nós. Esse tempo de Deus tem como horizonte final restaurar todas as coisas em seu Filho Jesus Cristo. Uma vez que “tudo foi criado por meio dele (Cristo) e para ele” (Ef 1,16), Deus Pai “quis habitar nele com toda a sua plenitude e por ele reconciliar consigo todos os seres, os que estão na terra e no céu, realizando a paz pelo sangue da sua cruz” (Ef 1,19-20).

            Existe uma afirmação bíblica que nos deixa desconcertados, quando proclamamos que Jesus Cristo é o rei do universo: “O mundo inteiro está sob o poder do Maligno” (1Jo 5,19). João, ao afirmar isso, está dizendo que todos aqueles que não aceitam livremente se colocar debaixo do domínio de Cristo (obediência ao seu Evangelho), acabam sofrendo uma dominação imposta pelo Maligno. Ora, o Maligno é o divisor: aonde ele exerce o domínio, cria conflito. Esse conflito se encontra no coração de muitas pessoas e igualmente em muitas famílias e locais de trabalho. Somente quando deixamos os sentimentos de Jesus (cf. Fl 2,5) reinarem sobre nós é que podemos nos beneficiar da reconciliação que o Pai nos oferece, reconduzindo-nos à Sua paz.

            A leitura de Samuel 5,1-3 nos fala do momento em que todo o país de Israel decide se colocar sob o senhorio de Davi, reconhecendo-o como rei. Até então, Israel era dividido entre reino do norte e reino do sul, uma divisão que sempre prejudicou a vida das pessoas e enfraqueceu o país na sua política, na sua economia e também na sua religião. Quando o rei Davi unificou o país, os israelitas voltaram a ter paz. Davi foi “um homem segundo o coração de Deus” (cf. 1Sm 13,14). Mas, no auge do seu reinado, não dominou os seus desejos e cometeu adultério, tentando depois escondê-lo de todos, a ponto de mandar matar a esposo da adúltera (cf. 2Sm 11 – 12). A partir desse momento, Davi recebeu o anúncio da futura divisão do reino que ele tanto lutou para unificar.

            O sucesso e o fracasso do rei Davi nos ensinam que nenhum homem pode pretender ser rei, isto é, exercer domínio sobre pessoas ou situações, quando ele não sabe dominar a si mesmo. O contrário do domínio sobre si é aquilo que assistimos na vida política do mundo: escândalos sexuais e financeiros. Os roubos bilionários, que às vezes são descobertos, têm uma ligação direta com a vida promíscua de políticos e empresários corruptos.

            Se o rei Davi traiu a sua identidade de “homem segundo o coração de Deus”, Jesus é verdadeiramente o Filho segundo o coração do Pai. Sendo verdadeiramente homem, ele escolheu viver longe dos centros de poder, tanto político quanto religioso. Embora tenha vindo para libertar o ser humano de todo tipo de domínio injusto, doentio e destrutivo, Jesus encontrou muitas pessoas fechadas à sua proposta de salvação: “Não queremos que esse homem reine sobre nós” (Lc 19,14).

O trono de Jesus, por excelência, foi a cruz. Exatamente ali a sua realeza foi questionada três vezes: “Salve-se a si mesmo” (Lc 23,35); “Salva-te a ti mesmo!” (Lc 23,37); “Salva-te a ti mesmo e a nós!” (Lc 23,39). Nós também pensamos a vida dessa forma: salvar a nós mesmos. Quanto aos outros... Um exemplo claro. Os mesmos super-ricos que  esgotam os recursos naturais e fazem campanha contra a preservação do meio ambiente, unicamente para aumentarem o próprio capital, estão se preparando para o que eles mesmos chamam de “grande apocalipse”, construindo bunkers (construções de ferro e concreto subterrâneas) e estocando comida e água para sobreviverem às catástrofes provenientes das mudanças climáticas, as quais são negadas por eles (Assista ao vídeo de Átila Iamarino: “O que os BILIONÁRIOS não te contam” – Youtube).

Jesus não é o rei “salve-se a si mesmo” porque ele não veio “se” salvar, mas salvar a humanidade de si mesma (pecado pessoal) e da tirania dos reis do mundo (pecado social). Além disso, o domínio salvífico de Jesus só pode ser experimentado por quem se submete à verdade do Evangelho, como ele mesmo afirmou: “Todo aquele que comete pecado é escravo do pecado. Se o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres” (cf. Jo 8,34.36). Essa libertação foi experimentada por um homem que, assim como Jesus, estava condenado à morte: “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reinado”. Jesus lhe respondeu: “Em verdade eu te digo: ainda hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23,42-43).

Na sua carta aos Romanos, ao apóstolo Paulo afirma: “Não existe mais condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus” (Rm 8,1). Muitas vezes já nos sentimos e, certamente, ainda vamos nos sentir condenados: uma doença incurável; uma culpa que não nos abandona; uma situação de penúria na vida financeira; a solidão pelo término de um relacionamento; um vício que não superamos; a voz do acusador (Maligno), que tenta nos fazer desacreditar do perdão de Deus e cancelar a nossa esperança de salvação, etc. Em todas essas situações nas quais nos sentimos “condenados”, precisamos clamar como o ladrão na cruz: “Lembra-te de mim”.

“Em verdade eu te digo: ainda hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23,43). O Reino do Pai e do Filho não é para quem não tem nenhuma condenação, mas para quem não aceita morrer condenado a nada, e por isso recorre ao perdão do Rei; e também por isso decide viver cada dia de sua vida não mais carregando o peso de uma condenação, mas liberto por Aquele que o Pai enviou não para condenar, mas para salvar.  

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

HÁ UM SENTIDO MAIOR POR DETRÁS DE DESTRUIÇÃO DE TODAS AS COISAS

 Missa do 33º dom. comum. Palavra de Deus: Malaquias 3,19-20a; 2Tessalonicensses 3,7-12; Lucas 21,5-19. 

 

Estamos caminhando para o final do ano litúrgico, o qual será encerrado no próximo domingo, com a festa de Cristo, Rei do Universo. Por isso, as leituras de hoje, sobretudo o Evangelho, são leituras “escatológicas”. Escaton é uma palavra grega que significa “o fim”. Trata-se do evento final do plano divino para a criação e toda a humanidade.  

No Antigo Testamento, os profetas anunciavam o “Dia do Senhor”, um dia de ira, onde Deus viria para fazer justiça aos justos e destruir os injustos. Uma vez que Jesus afirmou que “o Pai a ninguém julga, mas confiou ao Filho todo julgamento” (Jo 5,22), o Novo Testamento passou a anunciar o “Dia do Senhor” como “Dia do Senhor Jesus”, dia da Parusia, da segunda vinda de Cristo, o qual virá como Juiz (julgar significa separar). Ele separará a humanidade, recolhendo os justos como trigo no celeiro de Deus e esmagando os injustos como uvas, “no grande lagar do furor da ira de Deus” (cf. Ap 14,14-20). A cor da uva – vermelho – significa que todos aqueles que derramam sangue sobre a terra (violência, destruição, morte), terão o seu sangue derramado, isto é, serão condenados.

O profeta Malaquias nos fala do “Dia do Senhor” como um fogo que destruirá as pessoas injustas e más como palha. Ao mesmo tempo, esse fogo do julgamento de Deus se tornará “sol da justiça” para os que perseveraram no bem. Já o salmista nos convidou a confiar que “O Senhor virá julgar a terra inteira; com justiça julgará”. A impunidade e a injustiça que pairam sobre a Terra não têm a última palavra.

No Evangelho, Jesus dialoga com pessoas que estavam maravilhadas com a beleza e suntuosidade do Templo de Jerusalém. Hoje também as pessoas se maravilham com muitas coisas: Inteligência Artificial, celulares e computadores de última geração, carros elétricos, robôs inteligentes etc. Mas, para quem quer que esteja encantado com a evolução da ciência e da tecnologia, Jesus questiona e alerta: “Vocês admiram estas coisas? Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído” (Lc 21,6).

Quantas vezes a vida já nos colocou diante da realidade da destruição? Morte de crianças e de jovens por doença ou acidente; acidentes fatais; catástrofes ambientais; o “pequeno apocalipse” de Rio Bonito (Paraná), provocado por um tornado que destruiu 90% da cidade, e, contudo, matou “apenas” sete pessoas; o câncer, que continua a espalhar a sua destruição sobre cada vez mais pessoas, independente da idade e da condição social, etc.

Ao nos tornar conscientes da futura destruição de tudo aquilo que hoje temos como segurança e amparo na vida presente, Jesus nos convida a não nos iludir: a Terra não é o Céu. Tudo o que vivemos aqui é transitório, e nada ficará para sempre; nada, nem mesmo nós. Retornando à imagem do Apocalipse, todos seremos ceifados desta Terra, e a questão é saber se a ceifa nos encontrará como trigo (pessoas que não desistiram de caminhar na justiça e na santidade) ou como uva (pessoas que se cansaram de perseverar no bem e decidiram aproveitar deste mundo enquanto ele, que já está em processo de destruição, serve aos nossos interesses egoístas).

Muitas coisas ruins já estão acontecendo, e muitas outras coisas ainda virão. Quanto mais se aproxima a volta de Jesus, mais o maligno grita de desespero, sabendo da sua destruição definitiva. Em meio a tudo isso, Jesus nos faz um apelo: “Esta será a ocasião em que testemunharão a sua fé” (Lc 21,13). Uma casa só testemunha o seu alicerce diante de uma forte tempestade. Da mesma forma, a nossa fé é chamada a se erguer como absoluta confiança no Pai que nos chamou à salvação em seu Filho Jesus Cristo, o qual nos advertiu: “O céu e a terra passarão; minhas palavras, porém, não passarão” (Lc 21,33).

 Eis o convite de Jesus para nós: “É permanecendo firmes que vocês irão ganhar a vida!” (Lc 21,19). Toda e qualquer destruição que já tenha nos visitado em nossa vida pessoal, ou que esteja visitando a história da humanidade, não deve nos encher de pessimismo e falta de sentido, mas despertar a firmeza da nossa fé e da nossa esperança, uma firmeza que se traduz em não desistirmos de viver cada um dos nossos dias na santidade e na justiça, esperando o momento da nossa colheita, não desistindo de fazer o bem de que somos capazes e esperando firmemente no “sol da justiça”, que nos garantiu: “Eis que venho muito em breve e retribuirei a cada um segundo as suas obras (atitudes)” (Ap 22,12).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

COISAS E ATITUDES QUE DESTROEM O TEMPLO QUE É O CORPO HUMANO

 Homilia da Dedicação da Basílica de São João do Latrão. Palavra de Deus: Ezequiel 47,1-2.8-9.12; 1Coríntios 3,9c-11.16-17; João 2,13-22. 

 

“A Basílica de São João de Latrão é a catedral do Papa, enquanto Bispo de Roma. Ela é chamada “a igreja-mãe de todas as igrejas”, símbolo das Igrejas de todo o mundo, unidas ao Sucessor de Pedro. A Festa da sua Dedicação nos recorda que a Igreja nascida de Jesus Cristo é hoje, no meio do mundo, o testemunho vivo da presença de Deus na caminhada histórica dos homens” (Dehonianos).

            Segundo o apóstolo Paulo, a Igreja é o Corpo de Cristo, do qual somos os membros (cf. 1Cor 12,12-30). O próprio Jesus acabou de falar do seu corpo como o verdadeiro Templo de Deus: “Destruam este Templo, e em três dias o levantarei” – “Jesus estava falando do Templo do seu corpo”, esclarece o evangelista João (cf. Jo 2,19.21). A prefiguração do corpo de Jesus como Templo de Deus foi descrita, pelo profeta Ezequiel, na belíssima imagem da água que escorre de dentro do Templo e, por onde passa, gera vida: “Onde o rio chegar, todos os animais que ali se movem poderão viver. Nas margens junto ao rio, de ambos os lados, crescerá toda espécie de árvores frutíferas; suas folhas não murcharão e seus frutos jamais se acabarão. Seus frutos servirão de alimento e suas folhas serão remédio” (Ez 47,9.12).

            Essa profecia de Ezequiel se cumpriu na cruz, quando um soldado perfurou o peito de Jesus com uma lança, e dali escorreu sangue e água (cf. Jo 19,34). Cada um de nós, membros do Corpo de Cristo, que é a Igreja, deve lançar suas raízes na direção da água viva que sai do peito de Cristo, imagem bíblica do Espírito Santo (cf. Jo 7,37-39), para nos tornar fecundos e sermos curados das nossas doenças, acolhendo o convite de Jesus: “Quem tem sede, venha a mim e beba” (Jo 7,37).

Daí se segue uma primeira aplicação prática. O corpo humano tem 70% de água! Essa água é perdida no suor, na urina e nas fezes. Portanto, precisa ser reposta. A medicina nos orienta a beber de 2 a 3 litros de água por dia! Aqui estão um dos muitos benefícios da água em nosso corpo:  1. Regula a temperatura corporal. 2. Evita a pedra nos rins. 3. Desintoxica o organismo. 4. Ajuda na perda de peso. 5. Regula o sistema imunológico... Apesar dos muitos benefícios da água, ela foi substituída pelo refrigerante, principalmente na vida de crianças e adolescentes.

São Paulo nos lembra, na liturgia de hoje, que não somente o corpo de Jesus, mas também o nosso corpo é um templo, um santuário: “Acaso não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus mora em vós? Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá, pois o santuário de Deus é santo, e vós sois esse santuário” (1Cor 3,16-17). Quais coisas ou atitudes destroem o nosso corpo como santuário de Deus? Vida sexual desregrada, drogas, todo tipo de excesso (bebida alcoólica, comida, preguiça), cigarro (sobretudo eletrônico), etc. Uma vez que a saúde do nosso corpo depende da saúde da nossa mente, a falta de descanso adequado, o vício das telas, não ler nenhum livro, cultivar pensamentos negativos etc., também colaboram para adoecer o nosso corpo.

Daí surge uma segunda aplicação prática. As roupas que vestimos respeitam o sagrado do nosso corpo? Temos consciência de que a tendência atual de “adultizar”* crianças, vestindo-as com roupas sensuais ou antecipando uma idade que elas ainda não têm, chama a atenção de pedófilos e deixam nossas crianças expostas a redes de pedofilia? O abuso sexual nas famílias** tem como causa apenas a perversão sexual do abusador, ou a pessoa responsável por vestir a criança também é cúmplice do abuso? A maquiagem que muitas meninas costumam usar está de acordo com a idade das mesmas?    

Olhemos agora para o Evangelho. Jesus descarrega a sua ira contra o coração da religião judaica: o Templo. O chicote que ele faz e com o qual derruba as mesas dos cambista – sem atingir qualquer pessoa ou animal comercializado ali – expressa o julgamento de Deus contra uma religião que usa do sagrado para lucrar financeiramente, uma religião que se mantém distante da dor humana, ao mesmo tempo em que ama o poder mundano e faz do dinheiro o seu verdadeiro deus.  

Daí se segue uma terceira aplicação prática. Podemos assistir os episódios 2 e 3 da quinta temporada da série The Chosen (digitar no buscador: assistir The Chosen gratuitamente) e entrar em comunhão com essa cena magnífica da expulsão dos vendilhões do Templo, nos perguntando, ao mesmo tempo, o que Jesus exige que seja retirado do templo que somos, segundo a sua ordem: “Tirai isso daqui!” (Jo 2,16).    

Uma última palavra. O filme “O som da liberdade” (2023) denuncia que os EUA são o país que mais consome sexo infantil, fazendo vista grossa ao tráfico internacional de crianças e adolescentes. Segundo dados da Unicef, 300 milhões de crianças sofreram exploração sexual e abuso infantil online. Assista ao documentário da CNN: “EUA: Crianças à Venda”, em https://www.youtube.com/watch?v=zQsDjtOpNF8.

 

*A adultização infantil ocorre quando crianças começam a adotar comportamentos, escolhas e responsabilidades típicas de adultos, muitas vezes influenciadas pela mídia, pela internet e pelo ambiente em que vivem. Essa influência faz com que as crianças tenham contato com conteúdos e padrões que não são adequados para a idade, como músicas, roupas ou atitudes ligadas à aparência e à sexualidade. Também é comum que tenham rotinas cheias de compromissos e responsabilidades. A adultização infantil pode mudar o caminho natural do crescimento, antecipando preocupações que deveriam surgir só mais tarde e comprometendo a saúde emocional, psicológica e o desenvolvimento da criança (Fonte: https://www.tuasaude.com/adultizacao-infantil/).

*Abuso sexual na família: 70% dos estupros acontecem em casa! (Fonte: https://vlvadvogados.com/abuso-sexual-na-familia/).

Pe. Paulo Cezar Mazzi

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

SÍNDROME DE PAVÃO

Menos panos e rendas, menos palácios de veludo e frases de efeito ensaiadas. O que falta não é brilho nos paramentos, mas brilho no olhar de quem realmente caminha com o povo. A fé não precisa de vitrines douradas, precisa de pés na estrada, mãos sujas de serviço e ouvidos abertos para as dores que ecoam pelas ruas e nos corações cansados.

Menos barretes e enfeites, menos preocupação com holofotes e mais consciência de que o Reino não se ergue sobre aparências, mas sobre compromisso. Não é a estética que sustenta a verdade do Evangelho, mas a entrega sincera e o amor encarnado na vida comum de cada dia.

Menos “cercos”, menos teatralidade de piedade, menos pregações que colocam Deus em um trono inalcançável, distante, inatingível. Ele desceu, caminhou conosco, chorou nossas lágrimas, sentiu o peso da fome e da solidão, e nisso nos ensinou que a santidade começa no chão.

É triste ver uma geração de padres mais preocupada em ser vista do que em ver; mais interessada em ser celebrada do que em celebrar a vida de Cristo entre os pequenos. A missão não é virar celebridade da fé, mas testemunha do Cristo servo, aquele que se curva para lavar os pés, que abraça o sofrimento humano para transformá-lo em esperança.

Que voltemos ao essencial: menos espetáculo, mais Evangelho. Menos pose, mais presença. Menos glória humana, mais cruz compartilhada. Porque o Reino nasce quando alguém escolhe amar sem precisar ser aplaudido.

Samuel Elânio

 





quinta-feira, 30 de outubro de 2025

DEIXE SUA CASA EM ORDEM, POIS A MORTE O(A) ENCONTRARÁ NA HORA EM QUE VOCÊ MENOS IMAGINAR.

 Missa pelos fiéis falecidos. Palavra de Deus: Jó,19,1.23-27a; 1Coríntios 15,20-24a.25-28; Lucas 12,35-40. 

 

Dia de Finados, palavra que nos remete para o fim. A nossa existência terrena um dia terá um fim. Mas a nossa fé nos faz olhar para além do fim, isto é, para a finalidade para a qual tende a nossa vida, que é a nossa ressurreição em Jesus Cristo, ele que nos prepara um lugar na casa do Pai, porque quer que estejamos onde ele mesmo está (cf. Jo 14,3). Se hoje sentimos saudades e tristeza por aqueles que partiram, sabendo que a tristeza é proporcional ao amor que temos pela pessoa, a nossa tristeza deve unir-se à esperança de reencontrarmos aqueles que partiram e que estão em Cristo (1Ts 4,13.16-17), o qual afirmou que o nosso Deus “não é Deus de mortos, mas sim de vivos; todos, com efeito, vivem para ele” (Lc 20,38).

A morte, fim da nossa existência terrena, nos ensina a rever a forma como vivemos a nossa vida. “Lembra-te do fim e deixa o ódio” (Eclo 28,6). Não devemos permitir que o ódio adoeça a nossa breve existência neste mundo. A consciência da nossa morte deve nos levar a perdoar. Mas o Eclesiástico também nos orienta quanto ao luto: “Filho, derrama tuas lágrimas por um falecido. Chora amargamente; depois, consola-te de tua tristeza. Porque a tristeza leva à morte. Não abandones teu coração à tristeza, afasta-a” (Eclo 38, 16.17.20).

A morte nos dá a consciência de que a nossa existência neste mundo é única, e nunca mais se repetirá: “Os homens morrem uma só vez, depois do que vem um julgamento” (Hb 9,27). A respeito desse julgamento, o apóstolo Paulo afirma: “Todos nós compareceremos perante o tribunal de Cristo, a fim de que cada um receba a retribuição do que tiver feito em sua vida no corpo, seja para o bem, seja para o mal” (2Cor 5,10). Aquilo que plantamos hoje, em nossa vida terrena, será colhido por nós mesmos, após a nossa morte.  

Segundo Jesus, a consciência da nossa morte deve nos libertar de todo tipo de ganância material. Quando um homem muito rico, após ter derrubado todos os seus celeiros para construir outros maiores, a fim de guardar toda a sua riqueza, diz a si mesmo: “Descansa, come, bebe, aproveita!”, Deus lhe diz: “Insensato, nesta mesma noite será pedida de volta a tua vida. E as coisas que acumulaste, de quem serão?” (Lc 12,16-20). Aqui entra também a sabedoria de Dalai Lama: “Os homens do nosso tempo vivem como se nunca fossem morrer, e morrem como se nunca tivessem vivido”.

Quando o rei Ezequias ficou gravemente enfermo, o profeta Isaías recebeu a ordem de Deus para dizer-lhe: “Põem em ordem a tua casa, porque vais morrer, e não sobreviverás” (2Rs 20,1). A consciência de que um dia iremos morrer deve nos fazer perguntar: O que eu preciso colocar em ordem, na minha vida, antes de morrer? Para Jesus, o principal a ser colocado em ordem é a nossa reconciliação com o próximo (cf. Mt 5,25-26).

Como encaramos a certeza de que um dia iremos morrer? O apóstolo Paulo nos anuncia uma grande consolação: “Ninguém de nós vive para si mesmo ou morre para si mesmo. Se vivemos é para o Senhor que vivemos, e se morremos é para o Senhor que morremos. Portanto, quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor. Com efeito, Cristo morreu e ressuscitou para ser o Senhor dos vivos e dos mortos” (Rm 14,7-9). Ainda segundo o apóstolo, morrer significa mudar da tenda (morada provisória) para a casa, “morada eterna, não feita por mãos humanas” (2Cor 5,1). Em outras palavras, morrer significa “deixar a mansão deste nosso corpo para ir morar junto Senhor” (2Cor 5,8).       

Em cada experiência de morte que fazemos, diante da perda de pessoas que nos são caras, devemos manter os olhos fixos em Jesus, que disse: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá. E quem vive e crê em mim nunca morrerá” (Jo 11,25-26). A morte biológica do corpo não é a morte da pessoa. Jesus experimentou a morte “em favor de todos os seres humanos” (Hb 2,9). Como ele mesmo afirma: “Eu sou o Vivente: estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos, e tenho comigo as chaves da morte e da região dos mortos” (Ap 1,17-18). Ter as chaves significa ter o poder de arrancar da morte e da região dos mortos todos os que morreram.

Diante desta catequese bíblica sobre a morte, podemos rezar, neste dia de Finados: “Ó Deus, nosso Pai, vossos dias não conhecem fim, e a vossa misericórdia não tem limites. Fazei-nos lembrar sempre a brevidade da vida e a incerteza da hora da nossa morte. Que o vosso Espírito Santo nos conduza neste mundo, todos os dias da nossa vida, na santidade e na justiça. E depois de vos servirmos na terra na comunhão da vossa Igreja, na confiança de uma fé segura, na consolação da esperança e na perfeita caridade para com todos, possamos chegar ao vosso Reino. Por Cristo, nosso Senhor. Amém” (Sacramentário, Rito das Exéquias, p.229).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi