terça-feira, 26 de março de 2024

CEIAS QUE TRANSFORMAM

 Missa da Ceia do Senhor. Palavra de Deus: Êxodo 12,1-8.11-14; 1Coríntios 11,23-26; João 13,1-15.

 

Estamos aqui para celebrar a última ceia de Jesus, na qual ele se entregou aos discípulos num pedaço de pão e num pouco de vinho, antes de entregar o seu Corpo e derramar o seu Sangue na cruz pela salvação da humanidade. Vamos relembrar algumas imagens de ceia que aparecem no Evangelho para tentar compreender o significado de estarmos aqui hoje.

            Numa ceia para a qual Jesus não foi convidado decidiu-se a morte de João Batista (Mt 14,3-12). Existem ceias onde se come e se bebe muito, mas onde o coração se alimenta de ideias e sentimentos de morte. São ceias onde a alegria provocada pela bebida e pelas músicas não consegue criar um clima de fraternidade verdadeira entre as pessoas. Existem ceias que não transformam, mas deformam as pessoas. Mas os evangelhos nos falam de diversas ceias onde Jesus esteve presente e onde houve uma transformação na vida de quem delas participou. Na ceia onde Jesus estava presente uma mulher foi perdoada (cf. Lc 7,36-50 – “Teus pecados estão perdoados”), um homem foi convertido (cf. Lc 19,1-10 – “O Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido”), os pecadores foram acolhidos e os doentes foram curados (cf. Mt 9,10-13 – “Quem precisa de médico é quem está doente. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores”). Nessas ceias houve uma transformação porque as pessoas que ali estavam não se alimentaram somente de pão, mas das palavras de Jesus, cuja verdade nos liberta.

            A última Ceia de Jesus com seus discípulos aconteceu “antes da festa da Páscoa” (Jo 13,1). Já havia uma páscoa, celebrada todos os anos pelos judeus, conforme nos relatou a leitura do livro do Êxodo. Nessa páscoa, um cordeiro deveria ser sacrificado ao cair da tarde. Seu sangue marcaria as portas das casas. Sua carne seria comida com pães sem fermento (lembrança da pressa em fugir do Egito) e ervas amargas (lembrança da escravidão vivida ali). Ao fazer memória dessa páscoa do Antigo Testamento podemos nos perguntar: Que praga exterminadora ameaça nossa família hoje? Qual sinal marca a nossa casa como uma casa cristã? O que é sacrificado pelo bem da família? Em muitas casas, vivemos uma inversão de valores: filhos são sacrificados em nome da felicidade dos pais; pais são sacrificados em nome da felicidade dos filhos. Um outro aspecto: os pães sem fermento são a imagem de Jesus, homem não inchado de orgulho; assim somos chamados a ser também (cf. 1Cor 5,7). As ervas amargas, por sua vez, nos recordam o amargo da correção, da frustração, da renúncia, atitudes necessárias para a formação do caráter dos filhos e para a nossa própria santificação.

Voltemos ao Evangelho da última Ceia. Jesus tinha consciência de que chegara o momento de passar deste mundo para o Pai. Ele decidiu amar seus discípulos até o fim. Quando chegar o momento de passar deste mundo para o Pai nós estaremos amando? Amar é servir, cuidando daquilo que nos foi confiado. Jesus quis que seus discípulos se lembrassem dele não como alguém que veio para ser servido, mas como alguém que veio para servir. Quando a nossa comunhão com Jesus é verdadeira, nós nos dispomos a servir: “Deveis lavar os pés uns dos outros” (Jo 13,14). Nisto seremos reconhecidos como seus discípulos: pela decisão de amar até o fim, até o ponto de nos inclinar sobre aqueles que necessitam da nossa ajuda.  

Cada Eucaristia que celebramos é uma atualização da última Ceia: “Fazei isto em memória de mim” (1Cor 11,24.25). Cada Eucaristia alcança o nosso passado (Jesus morreu por nós), o nosso presente (Ele está no meio de nós) e o nosso futuro (Ele virá para nos introduzir no banquete do Reino de Deus): “Todas as vezes que comemos deste pão e bebemos deste cálice, estamos proclamando a morte do Senhor, até que ele venha” (1Cor 11,26). Cada Eucaristia nos recorda o convite de Jesus: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouve a minha voz e abre a porta, eu entro, faço a ceia com ele e ele comigo” (Ap 3,21). Nesta noite começa a nossa páscoa. Abramos a porta para Jesus e deixemos com que ele nos conduza para fora da escravidão do pecado pessoal e social, e nos faça passar da morte para a vida.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi  

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