sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

O NECESSÁRIO CUIDADO COM AS NOSSAS RAÍZES


Missa da Sagrada Família de Nazaré. Palavra de Deus: Eclesiástico 3,3-7.14-17a; Colossenses 3,12-21; Lucas 2,41-52.

            Uma das marcas do nosso mundo atual é a rejeição à instituição. Rejeita-se instituições como o Estado, a Escola, o Casamento, a Família, a Religião Tradicional. Mas, por que rejeita-se tudo isso? Porque rejeita-se o vínculo, o compromisso. As pessoas querem ser livres; não querem se prender a nada e não admitem ser orientadas a partir de fora, a partir de cima ou a partir de alguém que não sejam elas próprias e seus interesses. No entanto, essa rejeição parece gerar na humanidade um forte sentimento de desamparo, de orfandade: por rejeitar suas próprias raízes, as pessoas deixam de ser árvores que resistem aos ventos contrários e se comportam como folhas secas levadas pelo vento da desorientação. Por rejeitarem qualquer tipo de “norte”, as pessoas vivem desnorteadas.
            Hoje, ao celebrarmos a Sagrada Família de Nazaré, a Palavra de Deus nos convida a olhar para as nossas raízes, a cuidar dessas raízes, sem as quais nós tombamos diante de qualquer vento contrário. Nenhum ser humano nasce sem raízes, sem família; nenhum ser humano nasce como uma folha solta. Todos nós nascemos a partir de uma árvore chamada “família”. Com certeza, não é uma família ideal, porque família ideal não existe, mas é a família a partir da qual Deus nos chamou à existência e nos confiou a missão de restaurar a família humana.
            Neste imenso jardim que é a humanidade, não existe apenas um tipo de árvore, assim como não existe apenas um tipo de família. Em algumas famílias existem pai, mãe e filhos; em outras, apenas a mãe/ou o pai e os filhos; em outras, o marido e a esposa, mas nenhum filho; em outras, dois homens ou duas mulheres que escolheram viver juntos e adotar um filho etc. Em meio a essa grande diversidade familiar, nós, cristãos, somos desafiados a anunciar o Evangelho de Jesus Cristo, que não veio para os justos, mas para os pecadores; que não veio apenas aspergir água benta sobre as famílias tradicionais, mas veio, sobretudo, curar as feridas das famílias desestruturadas, pois ele mesmo disse: “O Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19,10).
            Segundo o livro do Eclesiástico, o cuidado com as nossas raízes começa com o cuidado para com os nossos pais. Assim como os pais não escolhem seus filhos, os filhos também não escolhem seus pais. A vida nos deu uns aos outros, como pais e filhos. Nosso grande desafio é abandonar nossas ilusões e nossas expectativas exageradas em relação aos outros, para acolher e aprender a amar o outro como ele é, e não como gostaríamos que ele fosse. A cura das raízes da nossa família passa pela aceitação e pelo perdão: o outro nos amou como conseguiu nos amar; ele nos deu o que conseguiu nos dar. Agora cabe a cada um de nós fazer seu próprio caminho, assumir a responsabilidade por si mesmo, ao invés de passar a vida culpando os outros pela nossa infelicidade. Nenhuma pessoa é o resultado daquilo que recebeu dos seus pais, mas o resultado daquilo que ela decidiu fazer com aquilo que recebeu dos seus pais.    
            Segundo o apóstolo Paulo, cada pessoa da família é responsável pelo bom funcionamento da mesma: “Esposas, sede solícitas para com vossos maridos... Maridos, amai vossas esposas e não sejais grosseiros com elas. Filhos, obedecei em tudo aos vossos pais... Pais, não intimideis os vossos filhos, para que eles não desanimem” (Cl 3,18-21). Quando cada um faz a sua parte, ninguém se sobrecarrega. Portanto, se alguém está esgotado ou sobrecarregado, alguém está folgando e se omitindo, o que gera desequilíbrio emocional na família. Neste sentido, a família deve ser o lugar da correção mútua, o lugar onde se enfrenta com coragem os problemas e se dá nome ao que se sente; onde, mais do que ficar procurando o culpado pelo mal estar, cada um se pergunta o que está fazendo para ajudar com que o mal estar seja superado.
            Enfim, o Evangelho de hoje nos traz uma dura revelação: toda e qualquer família tem seus momentos de desencontro, de dor, de angústia. A fé, a religião, a crença em Deus são valores fundamentais para que uma família não tombe diante dos ventos contrários, mas esses valores jamais funcionarão como uma redoma de vidro, poupando a família de sofrimentos. Não existem relacionamentos sem conflitos; não existe amor sem dor, renúncia ou sacrifício; não existem sonhos sem algum tipo de pesadelo; enfim, nenhuma família atravessa o mar da vida sem enfrentar algumas tempestades.    
            Estamos diante da perda e do reencontro do menino Jesus no templo, em Jerusalém. Talvez não seja coincidência que essa perda tenha se dado quando Jesus estava com doze anos; portanto, no início da adolescência. Esse período marca uma etapa de crise no relacionamento entre pais e filhos, o início de uma certa reivindicação de independência por parte dos filhos. No entanto, aqui poderíamos mencionar a forte contradição que existe na vida de muitos filhos que, apesar de já serem jovens ou adultos, ainda permanecem na adolescência da sua vida emocional: não admitem obedecer aos pais, mas vivem às custas dos mesmos, jamais assumindo a responsabilidade para com a própria vida.
            Quando Maria questionou Jesus a respeito da sua permanência no templo, ele também a questionou: “Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?” (Lc 2,49). O que Jesus faz aqui é demarcar o terreno: o filho precisa seguir o caminho para o qual nasceu; precisa abraçar a missão para a qual foi chamado à existência, e, para isso, precisa romper com a dependência familiar, precisa deixar o conforto do colo paterno/materno e se lançar com coragem na vida, se quiser se tornar um verdadeiro adulto, uma pessoa que assumirá o papel de sujeito da sua história e que dará efetivamente sua contribuição para o bem da família humana.
            Mas há uma outra verdade por trás da pergunta de Jesus a Maria: o filho não pertence aos seus pais terrenos; ele pertence, sobretudo, ao Pai do céu. Da mesma forma como é importante cuidarmos das nossas raízes familiares, dos nossos vínculos afetivos, é igualmente importante cuidarmos das nossas raízes espirituais, da nossa pertença a Deus. Muito mais do que aos nossos pais terrenos, é a Ele que devemos a nossa existência, a nossa razão de ser, e todos nós um dia deixaremos a nossa casa terrena para estar na casa do nosso Pai, pois a nossa família de sangue um dia dará lugar à nossa família espiritual.
           
Oração: Deus Pai, as raízes da minha existência estão em Ti. Abençoa os meus pais e avós. Abençoa as minhas raízes terrenas. Quero me reconciliar com as minhas raízes, com a minha história de vida. Agradeço-Te pelos pais que me geraram e me amaram como puderam me amar. Guarda-os na Tua bênção e na Tua paz!
Senhor Jesus, ensina-me a assumir a responsabilidade para com a minha própria vida. Diante de qualquer ferida do meu passado, ensina-me a olhar para o meu presente e entender que o meu destino depende das decisões que eu tomo hoje, e não das coisas que me aconteceram ontem. Que eu me torne uma pessoa madura emocional e espiritualmente, assumindo o meu lugar na história da salvação.
Divino Espírito Santo, derrama o Teu bálsamo sobre as raízes da minha família. Cura nossas feridas, perdoa nossos pecados, transforma nossos desencontros em reencontros. Visita todas as famílias da terra e preenche o coração de cada uma delas com a Tua consolação, a Tua alegria, a Tua luz e a Tua paz. Que todos nós possamos, em comunhão contigo, trabalhar pelo resgate da família humana. Amém!  

Pe. Paulo Cezar Mazzi            
             

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