Missa de São
Pedro e São Paulo. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 12,1-11; 2Timóteo
4,6-8.17-18; Mateus 16,13-19.
Neste final de semana em que
celebramos São Pedro e São Paulo, as duas colunas da Igreja que Jesus fundou
sobre os apóstolos (cf. Ef 2,20), vemos o presidente da celebração revestido da
cor vermelha, cor que remete para o sangue que Pedro e Paulo derramaram por
Jesus Cristo e pelo anúncio do Evangelho, sangue que também o apóstolo Tiago
derramou (cf. At 12,2). De fato, sobretudo nos primeiros séculos, inúmeros
cristãos foram perseguidos e mortos por causa da sua fé. Mas também precisamos
reconhecer que alguns dirigentes da Igreja não hesitaram em derramar o sangue
de muitas pessoas, sobretudo na época das Cruzadas e da Inquisição, pensando
com isso estar defendo a verdadeira fé.
Ao recordar a perseguição violenta
de Herodes contra a Igreja, podemos nos perguntar: A Igreja hoje sofre
perseguição? Quando e por que a Igreja incomoda? A Igreja incomoda sempre que
se posiciona contra uma economia e uma política que dão prioridade ao dinheiro
em detrimento da pessoa humana. A Igreja igualmente incomoda sempre que defende
valores como a família, o casamento e a vida, desde a sua concepção até o seu
fim natural. Mas, sobretudo, a Igreja incomoda e sofre ataques quando denuncia
as injustiças sociais e cobra das autoridades uma atenção especial aos pobres.
Quando isso acontece, não são poucos os que a acusam de ser “de esquerda”, ou
comunista.
Por respeito à verdade, precisamos
considerar que a Igreja não é simplesmente “vítima” de inúmeras tentativas de
desacreditá-la, dificultando que sua voz profética ouvida. O padrão de vida
luxuoso e o consequente distanciamento dos pobres e daqueles que vivem nas
periferias existenciais, adotado por alguns de seus representantes, além do
inaceitável escândalo da pedofilia, fazem a Igreja atualmente pagar o preço do
descrédito, consequência do seu distanciar-se do Evangelho e do não tratar com
seriedade e firmeza suas próprias doenças. Portanto, nem todo ataque à Igreja é
injusto e gratuito...
O fato é que a Igreja não é, e nem
tem como ser, um espaço sagrado onde existem somente o bem, a verdade e a
justiça. Como todo lugar ocupado pelo ser humano, a Igreja é um campo onde
crescem juntos o trigo e o joio, o bem e o mal, a verdade e a mentira, a
justiça e injustiça. Embora muitos, ao se deparar com as falhas e incoerências
de alguns representantes da Igreja, tenham decidido jogar fora o bebê junto com
a água do banho, abandonando de vez sua participação nas celebrações e demais atividades
da Igreja, o Papa Francisco nos convida a “cultivar o trigo e não perder a paz
por causa do joio” (EG 24). Se as feridas que alguns representantes da Igreja
causaram a algumas pessoas não são pequenas, muito maiores são as feridas de
Cristo para santificar continuamente essa mesma Igreja (cf. Ef 5,25-27).
A liturgia de hoje nos fala de Pedro
e Paulo presos e aguardando o momento de serem condenados à morte. Pedro foi
preso com duas correntes. Quais correntes nos aprisionam, como cristãos: vergonha,
medo, comodismo, sentimento de impotência diante do mal que assola o mundo? “Enquanto
Pedro era mantido na prisão, a Igreja rezava continuamente a Deus por ele” (At
12,5). Eis a resposta às orações: “O Senhor enviou o seu anjo para me libertar
do poder de Herodes...” (At 12,11). Nós oramos uns pelos outros? Oramos pelo
Papa Francisco, criticado e perseguido por pessoas de dentro da nossa própria
Igreja? Oramos pelos nossos dirigentes e pelos cristãos que são perseguidos? Nós
acreditamos no poder da oração de quebrar as correntes que nos aprisionam?
Enquanto Paulo, na prisão, aguardava
o momento da sua execução, declarou: “Combati o bom combate, completei a
corrida, guardei a fé” (2Tm 4,7). Como entendemos a fé? Como uma força, uma
energia, um “anestésico”, uma redoma de vidro capaz de nos manter blindados
contra os sofrimentos da vida e os ataques do mundo? Paulo entendeu a fé como um
combate a ser enfrentado, como uma corrida a ser percorrida, como um bem
precioso a ser defendido e guardado. Não são poucas as pessoas hoje que têm uma
fé inconsistente: bastou se depararem com uma dificuldade, bastou uma decepção
com alguém da Igreja, bastou uma aparente ausência de Deus na vida delas, e sua
fé deixou de ter sentido.
O Evangelho nos revela algo
inquietante: ao longo da vida, a nossa fé não será questionada apenas pelo mundo,
mas pelo próprio Jesus: “Quem eu sou para vocês? (Mt 16,15). E aqui Jesus não
está pedindo nossa opinião sobre Ele, mas perguntando o que Ele verdadeiramente
significa para nós. E antes que pensemos qual resposta dar a essa pergunta,
tenhamos consciência de que a resposta não está em nossos lábios, mas na
maneira como vivemos. Não é aquilo que falamos aos outros que nos define como
cristãos, mas a maneira como vivemos o nosso dia a dia. Pedro, apesar da sua
inconsistência humana, tinha uma convicção no seu coração a respeito de Jesus: “Tu
és o Messias (Cristo), o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16). Aquilo que nos mantém
em pé diante das dificuldades, aquilo que não nos deixa afundar, diante deste
mundo mergulhado em tantas incertezas, é ter convicção da nossa fé. Justamente
por isso, Jesus disse: “(...) tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a
minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la” (Mt 16,18).
Jesus
disse: “minha Igreja” – a Igreja é d’Ele!
Jesus quis a Igreja como “lugar” onde os Seus se reúnem para ouvir Sua palavra
e se alimentar do Seu Corpo e Sangue. Que hoje possamos recobrar a consciência
de que somos “membros da família de Deus” (Ef 2,19); estamos “edificados sobre
o fundamento dos apóstolos e dos profetas, do qual é Cristo Jesus a pedra
principal” (Ef 2,20). Não somos folhas secas empurradas pelo vento da
desorientação, nem pessoas que afundam no pântano da angústia, da incerteza e
da falta de fé; somos como Pedro, somos “pedras vivas” (1Pd 2,5), pessoas que
escolheram apoiar-se em Jesus Cristo, a pedra principal. É sobre Ele e sobre sua
Igreja que hoje reafirmamos o desejo de fundar a nossa própria vida, porque é
em Cristo e na sua Igreja que encontramos estabilidade, segurança, proteção e
salvação.