terça-feira, 31 de dezembro de 2024

VIVER O NOVO ANO COMO FILHOS E NÃO COMO ESCRAVOS

 Missa Maria mãe de Deus. Palavra de Deus: Números 6,22-27; Gálatas 4,4-7; Lucas 2,16-21.

 

Antes de entrarmos no ano de 2025, vamos recordar as palavras de Moisés a Israel, do mesmo entrar na terra prometida: “Lembra-te de todo o caminho que o Senhor teu Deus te fez percorrer... Reconhece no teu coração que o Senhor teu Deus te educava como um homem educa seu filho” (Dt 8,2.5). Para quem olha a vida com os olhos da fé, cada acontecimento tem algo a ensinar, sejam os acontecimentos bons, sejam os ruins, os alegres e os tristes. Para a mentalidade bíblica, a função do pai é “educar” o filho. A palavra “educar” vem do latim educare, educere, que significa literalmente “conduzir para fora” ou “direcionar para fora”. Deus deseja fazer vir para fora o melhor de nós: força, coragem, humanidade, bondade. No entanto, a nossa dificuldade em aceitar sermos educados por Deus pode fazer vir para fora o nosso pior: revolta, raiva,  teimosia, obstinação no erro etc.

            Certamente, muitas coisas que aconteceram ao longo do ano que termina não faziam parte dos nossos projetos, e nem foram causadas por nós. Apesar disso, nós confiamos que “o Senhor desfaz os planos das nações e os projetos que os povos se propõem, mas os desígnios do Senhor são para sempre, e os pensamentos que ele traz no coração, de geração em geração vão perdurar” (Sl 33,10-11). Por isso, bendizemos e agradecemos a Deus não só pelo que pudemos realizar, mas também por aquilo que foi mudado e até mesmo frustrado em nossa vida, porque sua vontade para nós era outra, e a nossa confiança repousa nisso: “Deus faz com que tudo concorra para o bem daqueles que o amam, daqueles que são chamados segundo o seu desígnio” (Rm 8,28).

Ao entrarmos num novo ano, devemos ter ciência de que “o coração do homem planeja seu caminho, mas é o Senhor que firma seus passos” (Pr 16,9). Estamos aqui para pedir com o salmista: “Que Deus nos dê a sua graça e sua bênção, e sua face resplandeça sobre nós!” (Sl 66,2). Precisamos que a luz da face do Senhor ilumine o nosso caminho, nos proteja dos perigos e nos dirija segundo a justiça e a verdade. Mais importante de que Deus esteja conosco em nosso caminho de vida neste novo ano, é que cada um de nós se disponha a trilhar o caminho que a sua Palavra nos indica, para que alcancemos a vida e a salvação em seu Filho Jesus Cristo.

            A grande bênção que nós já recebemos de Deus é o fato de Ele ter derramado em nossos “corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abá - ó Pai!” (Gl 4,6). Esse clamor é uma declaração de confiança: “Eu não estou só, porque o Pai está comigo” (Jo 16,32); “Pai, eu sei que sempre me ouves” (Jo 11,42); “O próprio Espírito se une ao nosso espírito para atestar que somos filhos de Deus” (Rm 8,16). Não podemos nos comportar perante a vida como escravos (medo), mas como filhos (confiança). Com toda a certeza, cada um de nós está preso a algum tipo de escravidão, com seu próprio consentimento. Isso acontece por causa dos ganhos secundários. Apesar disso, somos chamados a ser livres – “É para a liberdade que Cristo nos libertou. Permanecei firmes e não vos deixeis prender de novo ao jugo da escravidão” (Gl 5,1). Isso supõe aprender a lidar com a frustração, com o tédio, como o “ainda não”, sem cair na tentação de buscar falsas compensações.          

            Estamos no oitavo dia do Natal: “Quando se completaram os oito dias para a circuncisão do menino, deram-lhe o nome de Jesus, como fora chamado pelo anjo antes de ser concebido” (Lc 2,21). A circuncisão era um corte feito na pele do órgão genital do menino, como sinal de consagração, de pertença a Deus. Ora, fazer um pequeno corte em nosso corpo não é tão doloroso quanto tomar a decisão de cortar da nossa vida atitudes, pessoas e situações que comprometem a nossa consagração diária a Deus e à sua vontade. Além disso, hoje é declarado ao mundo o nome do menino que nasceu para a salvação de todo ser humano: “Jesus”, nome que significa “Deus salva”: “Não há debaixo do céu outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos” (At 4,12). Em relação a quem ou ao quê você precisa ser salvo(a)? O nome representa a pessoa. Invocar o nome de Jesus significa desejar viver junto d’Ele e pautar a própria conduta imitando-o. Só Jesus pode nos fazer passar da condição de escravos para a condição de filhos: “Se o Filho vos libertar, sereis, realmente, livres” (Jo 8,36).       

Nesta noite pedimos confiantemente ao Pai a sua bênção para o novo ano. “O Senhor te abençoe e te guarde!” (Nm 6,24). Todos precisamos que o Senhor nos guarde não apenas do mal dos homens, mas principalmente do espírito do Mal. Que Ele também nos guarde da covardia, do vitimismo e da falta de vontade em enfrentar aquilo que seremos chamados a enfrentar. “O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face, e se compadeça de ti” (Nm 6,25). Todos necessitamos da compaixão do Senhor, porque somos falhos e pecadores. Se acontecer de tropeçarmos e cairmos, que possamos nos levantar e prosseguir o caminho, rumo à meta que Deus deseja que alcancemos. “O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz!” (Nm 6,26). Todos desejamos a paz, mas esta depende de estarmos na vontade de Deus: quando nos afastamos dessa vontade, perdemos a paz. “Se algo rouba a paz do teu coração, é porque ocupou o lugar de Deus” (São Francisco de Assis).

Que Maria Santíssima, rainha da paz, interceda pela paz no mundo e pelo renascimento da esperança no coração de cada ser humano.

   

            Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

TODO DESENCONTRO PODE SER TRANSFORMADO EM REENCONTRO

 Missa da Sagrada Família de Nazaré. Palavra de Deus: Eclesiástico 3,3-7.14-17; Colossenses 3,12-21; Lucas 2,41-52.

 

A febre é sempre um sinal importante: ela indica que há alguma infecção no corpo que precisa ser tratada. No corpo chamado “família” a febre se manifesta normalmente na criança: depressão, transtorno opositor-desafiador (TOD), transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), transtorno de ansiedade generalizada (TAG), transtorno obsessivo compulsivo (TOC) etc. Quando investigamos a causa da febre descobrimos que as infecções podem ser várias: transtorno de déficit de pai, transtorno de déficit de mãe, ausência de limites, ausência de frustração, ausência de “não”, ausência de afeto, criação/educação terceirizada etc.

Também a Sagrada Família de Nazaré passou por transtornos: espada de dor (cf. Lc 2,35), fuga para o Egito (cf. Mt 2,13), perda do Menino Jesus em Jerusalém (cf. Lc 2,43-44), para nos recordar de que não existe família perfeita, nem ideal. Pais não escolhem filhos e filhos não escolhem pais: a vida nos dá uns aos outros, para que possamos crescer, amadurecer e exercer o cuidado.    

A primeira indicação importante que nos vem do Evangelho é o cuidado da família com a espiritualidade: “Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, para a festa da Páscoa” (Lc 2,41). Essa realidade mudou drasticamente: nas famílias onde ainda há pai e mãe, a maioria não pratica nenhuma religião. Cada vez mais as pessoas não veem necessidade de “irem a um templo”; quando rezam, o fazem em casa mesmo. A única pessoa da família que vai ao templo é a avó, via de regra. A atitude de Maria e José de levarem o menino Jesus ao Templo nos recorda uma constatação feita por Içami Tiba: “Pais que levam seus filhos a uma igreja dificilmente terão que visitá-los um dia numa prisão”.  

“Passados os dias da Páscoa, começaram a viagem de volta, mas o menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o notassem” (Lc 2,43). Na vida corrida de hoje em dia quem nota alguém? O horário de trabalho da mãe ou do pai, somado ao tempo de deslocação para o mesmo, impede de notar como os filhos estão. Estes, por sua vez, com os olhos fixados na tela do celular, também não notam como a mãe ou o pai está. A febre do isolamento, do esgotamento, da depressão ou da ansiedade começa a dar sinais, mas ninguém nota; se nota, não se tem coragem de enfrentar a situação, a qual vai exigir um diálogo difícil e a revisão das próprias atitudes.

“Não o tendo encontrado, voltaram para Jerusalém à sua procura. Três dias depois, o encontraram no Templo” (Lc 2,45-46). Nenhuma família está garantida de não perder ninguém. Quando se constata o processo de perda, é preciso iniciar o de busca, de regate, de procura. Os três dias de demora em reencontrar o menino Jesus têm uma ligação teológica com a sua futura ressurreição ao terceiro dia. Portanto, precisamos resgatar a nossa confiança de que, em nossa família, aquilo que se perdeu pode ser reencontrado, assim como aquilo que morreu pode ressuscitar; depende da nossa decisão em trabalharmos unidos a Deus pela reconstrução da nossa casa, pela restauração da nossa família.

“Ao vê-lo, seus pais ficaram muito admirados e sua mãe lhe disse: ‘Meu filho, por que agiste assim conosco? Olha que teu pai e eu estávamos, angustiados, à tua procura’” (Lc 2,48). As atitudes sinalizam algo, dizem algo. Por que a criança não vai bem, na escola? Por que o filho adolescente está se isolando cada vez mais? Pai/mãe precisa dialogar com o filho, questionar suas atitudes. Isso ajuda a entender o que se passa no seu mundo interior.  

“Jesus respondeu: ‘Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?’” (Lc 2,49). A resposta de Jesus a seus pais contém a chave do seu amadurecimento como pessoa: “devo”. Nenhuma pessoa cresce e se torna responsável fazendo somente o que gosta. É o sentido do dever que torna uma pessoa capaz de tomar decisões firmes e de não retroceder diante das dificuldades. Na medida em que vai crescendo, a criança precisa assumir pequenos deveres. Estudar, arrumar a própria cama, guardar seus brinquedos, ajudar na limpeza da casa são tarefas que não se faz porque se gosta, mas porque se deve fazer. Quem só faz o que gosta não cresce, não se torna adulto e não se responsabiliza pela própria vida; será sempre um adulto infantilizado, um parasita buscando alguém em quem se encostar e a quem sugar.  

“Jesus desceu então com seus pais para Nazaré, e era-lhes obediente” (Lc 2,51). Só existe obediência quando a mãe ou o pai não busca ser amado(a), mas respeitado(a) pelo filho. O Eclesiástico deixou claro que só é ouvido por Deus na oração quem trata com respeito seus pais e quem não os desampara na velhice.

Ainda uma palavra a respeito da perda: pais que perderam um filho. “Eu devo estar na casa de meu Pai” (Lc 2,49). Filho é dom, e não direito dos pais. Quando a vida inverte as coisas e é a mãe ou o pai que precisa enterrar o filho, é importante lembrar de que aquele filho pertence, antes de tudo, ao Pai. O filho que partiu está na casa do Pai, lugar de cada um de nós; casa onde não há mais dor, nem luto, nem sofrimento, nem lágrimas; lugar onde todos os que foram perdidos serão reencontrados, todos os que morreram serão ressuscitados, e todas as famílias serão restauradas e se tornarão uma só família.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi  

 

P.S. Países que proíbem ou restringem o uso de celular nas escolas: Suíça, Portugal, Espanha, Austrália, Estados Unidos, França, Finlândia, Holanda, México, Escócia e Canadá. Os pais vão sabotar essa medida no Brasil?

Suécia e outros países abandonam tecnologia e retornam livros impressos para crianças e jovens. 

O que você deu de presente para o seu filho, no Natal? Um brinquedo eletrônico, uma roupa ou um livro?  

Na China o Tik Tok é proibido, e ele é uma rede social chinesa. 

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

O QUE É O NATAL?

 Missa do Natal. Palavra de Deus: Isaías 9,1-6; Tito 2,11-14 ; Lucas 2,1-14; Isaías 52,7-10; Hebreus 1,1-6; João 1,1-18.

 

“O ser humano caiu, mas Deus desceu. O ser humano caiu miseravelmente, mas Deus desceu misericordiosamente” (Santo Agostinho). 

Natal é descida. Em seu Filho Jesus Cristo, Deus Pai desceu até onde cada ser humano estava caído. Deus desceu para nos fazer subir do abismo em que nos jogamos ou fomos jogados: o abismo do pecado, da dor, do sofrimento, da depressão, da falta de sentido para a vida. “Eu habito em lugar alto e santo, mas estou junto com o humilhado e desamparado, a fim de animar os espíritos desamparados, a fim de animar os corações humilhados" (Is 57,15). 

Natal é luz: “Para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu. Porque nasceu para nós um menino, foi-nos dado um filho” (Is 9,1b.5). O nascimento de Jesus é comparado ao “Astro das alturas” (o Sol), por meio do qual Deus nos visita, “para iluminar os que se encontram nas trevas e na sombra da morte” (Lc 1,79). Por mais que fujamos, a sombra da morte sempre parece nos alcançar, por meio de uma doença, de uma perda, de um sofrimento que nos joga numa situação de escuridão, onde não enxergamos luz, saída, sentido. Mas Jesus é “a luz verdadeira que ilumina todo homem” (Jo 1,9). Ele mesmo se definiu como “a luz do mundo” (Jo 8,12). Mas é preciso que cada ser humano decida deixar as trevas em que se encontra e caminhar na direção da luz. Não nos esqueçamos desse alerta do próprio Jesus: “A luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas, porque suas obras eram más. Pois quem faz o mal odeia a luz e não vem para a luz” (Jo 3,19-20).  

“Luz que vem do alto, luz que traz a vida, vem brilhar em nós, ó luz divina!”

 

Natal é graça: “A graça de Deus se manifestou trazendo a salvação para todos os homens” (Tt 2,11), cumprindo a promessa feita em Is 52,10: “Todos os confins da terra hão de ver a salvação que vem do nosso Deus”. Jesus é a manifestação do amor gratuito de Deus, que nos salva pela graça e não pelo mérito (cf. Ef 2,5.8). Seu amor ama a todos, mas principalmente os que não se sentem ou não são de fato amados pelo mundo. Sua salvação não é oferecida como um prêmio a quem se esforça ou é impecável na sua conduta, mas é como o sol que oferece seus raios gratuitamente sobre bons e maus e como a chuva que se derrama gratuitamente sobre justos e injustos (cf. Mt 5,45). Jesus nasceu para todos, porque Deus quer que todos sejam salvos (cf. 1Tm 2,4) e também porque todos necessitam ser salvos.

“Eis que já chegou quem devia vir. Deus está conosco: Emanuel, Shekinah! Deus nos visitou, Deus desceu do céu. Céus e terra cantam este dia. Deus desceu do céu e nos visitou. Em seu Filho Santo nos salvou. Graça de Natal, graça fraternal, dentro de Maria ele habitou” (Shekiná, Pe. Zezinho).  

 

 Natal é manjedoura: “Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o enfaixou e o colocou na manjedoura” (Lc 2,7). A manjedoura é o lugar onde se coloca comida para os animais. Aquele que teve por primeiro berço uma manjedoura veio nos ensinar que “nem só de pão vive o homem” (Mt 4,4) e que devemos nos esforçar “não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que dura para a vida eterna” (Jo 6,27). Além disso, a manjedoura nos faz uma advertência: “O boi conhece o seu dono, e o jumento aquele que o alimenta, mas o meu povo não me reconhece como seu Deus” (cf. Is 1,3). Nós celebramos o Natal como cristãos ou como pagãos, cujo deus é o estômago? O consumismo perverteu o sentido do Natal ao substituir o essencial pelo excesso e pelo desperdício.  

“Quantas vezes quis tudo pra mim: o poder, o saber, a riqueza... Quão mesquinho parece teu Reino se rejeito as migalhas da mesa” (Irmã Míria Kolling).

 

Natal é hoje: “Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor” (Lc 2,11). Aquele cujo nascimento celebramos hoje prometeu estar conosco todos os dias (cf. Mt 28,20), e deseja estar hoje em nossa casa (cf. Lc 19,5): “Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo” (Ap 3,20-21). Jesus está presente em nosso presente, nos orientando com sua Palavra, nos alimentando com sua Eucaristia e nos sustentando com a força do seu Espírito.

“Procuro abrigo nos corações; de porta em porta desejo entrar. Se alguém me acolhe com gratidão, faremos juntos a refeição. Se alguém me acolhe com gratidão, faremos juntos a refeição”.

 

Natal é paz na terra: “Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por ele amados” (Lc 2,14). Jesus nasceu para derrubar os muros da inimizade e construir pontes de reconciliação. “Ele é a nossa paz” (Ef 2,14). “Como são belos, andando sobre os montes, os pés de quem anuncia e prega a paz” (Is 52,7). Natal pede reconciliação, reaproximação, perdão. Por isso, o Natal nos coloca uma pergunta e nos faz um desafio. A pergunta é: “Onde está teu irmão?” (Gn 4,9); o desafio é: “Não se esconda daquele que é a sua própria carne” (cf. Is 58,7).   

“Onde há ofensa que dói, que eu leve o perdão; onde houver a discórdia que eu leve a união e tua paz!”.

 

Natal é Palavra: “Muitas vezes e de muitos modos falou Deus outrora aos nossos pais, pelos profetas; nestes dias, que são os últimos, ele nos falou por meio do Filho” (Hb 1,1). Jesus é a Palavra definitiva do Pai para cada filho Seu na face da terra, Palavra que desperta a vida em quem está morto, porque faz passar da morte para a vida aquele que a escuta e nela crê (cf. Jo 5,25): “Nela estava a vida, e a vida era a luz dos homens” (Jo 1,4). O nascimento de Jesus é descrito como o momento no qual “a Palavra se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Carne é o ser humano na sua fragilidade mais profunda, na sua miséria, na sua mortalidade. Jesus é a Palavra que Deus dirige a cada um de nós quando fazemos a nossa experiência mais profunda de sermos carne. Quando pecamos, essa Palavra nos diz: “Filho, teus pecados estão perdoados” (Mc 2,5). Quando nos perdemos, essa Palavra nos diz: “Eu vim procurar e salvar o que estava perdido” (cf. Lc 19,10). Quando sofremos tribulações, essa Palavra nos diz: “No mundo vocês terão tribulações, mas tenham coragem: eu venci o mundo!” (Jo 16,33).  

“Eu guardarei tua Palavra em meu coração. Na tribulação invocarei teu santo Nome, Jesus. A tua destra me sustenta. Da Aliança não esquecerei. Tua Palavra me alimenta: não vacilarei. Leva-me às águas profundas, aviva-me de novo, Senhor! Leva-me às águas profundas e fala ao meu coração!” (Tony Allysson, Águas profundas).

 

Natal é, enfim, tornar-se humano, amar ser humano, não desistir de ser humano, voltar a ser humano: “Neste Natal, faça como Deus: torne-se humano!” (Jung Mo Sung, teólogo coreano).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

FAZER DA NOSSA EXISTÊNCIA UMA OFERENDA A DEUS, PELA SALVAÇÃO DA HUMANIDADE

 Missa do 4º dom. do advento. Palavra de Deus: Miqueias 5,1-4a; Hebreus 10,5-10; Lucas 1,39-45. 

 

Segundo o evangelista Lucas, a vida de cada um de nós está inserida dentro da história da salvação, uma história que abrange três tempos: o tempo da promessa (Antigo Testamento), o tempo do cumprimento (Novo Testamento) e o tempo da Igreja, que se estende até a segunda vinda do Senhor Jesus (Parusia). Nós estamos, especificamente, dentro da última fase da história da salvação.

O tempo da promessa aparece na profecia de Miqueias. A um povo humilhado, angustiado e com um futuro incerto, Deus promete lhe enviar um rei humilde e bom, que vai lhe trazer prosperidade, justiça e harmonia. Detalhe importante: esse rei não nascerá em Jerusalém, no palácio real, onde a vida decorre no meio de intrigas, ambições, corrupções e jogos de poder; mas virá da pequena aldeia de Belém de onde veio o rei Davi, homem segundo o coração de Deus. Ele será a paz, porque trará abundância de vida, harmonia e felicidade plena. A insignificante Belém nos lança uma pergunta: “Onde você procura pelos sinais de Deus em sua vida: nos acontecimentos extraordinários, ou na rotina do seu dia a dia?”.

O grande desafio do tempo da promessa é esperar pelo seu cumprimento: “Deus deixará seu povo ao abandono, até ao tempo em que uma mãe der à luz!” (Mq 5,2). Essa sensação de abandono se refere a um tempo de provação e sofrimento, algo que conhecemos muito bem! No entanto, esse abandono pode se dar também por nós, como Jesus afirma à Igreja de Éfeso: “Você abandonou o seu primeiro amor... Recorde-se onde você caiu, converta-se e retome a conduta de antes” (Ap 2,4-5). Nós até podemos continuar a caminhar com Jesus, mas o fazemos sem o ardor inicial, sem um amor profundo por Ele; talvez, apenas por medo de perder a salvação, mas não por convicção de que Ele é o nosso tudo.   

O Evangelho nos traz o tempo do cumprimento da promessa. O rei prometido já se encontra no ventre de Maria, uma mulher simples e pobre, moradora da insignificante cidade de Nazaré. Estamos diante da “visitação” de Maria a Isabel. Para falar da cura da esterilidade de Sara, mulher de Abraão, a Escritura diz que “o Senhor visitou Sara, como dissera, e fez por ela como prometera. Sara concebeu e deu à luz um filho...” (Gn 21,1-2). Para anunciar o nascimento de Jesus, nosso Salvador, Zacarias disse: “Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e redimiu seu povo” (Lc 1,68). Nós acolhemos as visitas de Deus, ou nos comportamos como a cidade de Jerusalém, quando Jesus a visitou: “Não reconheceste o tempo em que foste visitada!” (Lc 19,44)?  

A visita de Maria fez com que a criança pulasse de alegria no ventre de Isabel e ela ficasse cheia do Espírito Santo (cf. Lc 1,41). Maria e Isabel eram primas. O Evangelho está nos convidando a visitar nossos familiares, a romper o silêncio, a diminuir a distância, a derrubar o muro de separação, a passar por cima do nosso orgulho, a diluir o nosso ressentimento, a vivermos a experiência do milagre da reconciliação. Além disso, hoje somos nós que, junto com o salmista, pedimos: “Lembra-te de mim, Senhor, (...) visita-me com a tua salvação” (Sl 106,4). Cada um de nós necessita ser visitado por Deus, para que a alegria da salvação seja sentida a partir do nosso íntimo. Por isso, em sintonia com o salmo de hoje, nós suplicamos: “Despertai vosso poder, ó nosso Deus, e vinde logo nos trazer a salvação! (...) Visitai a vossa vinha e protegei-a!” (Sl 80,3.15).  

Já meditamos sobre o tempo da promessa (Miqueias) e o tempo do cumprimento (Evangelho). Consideremos agora o tempo da Igreja, o nosso tempo atual. Ele se encontra na carta aos Hebreus, convidando-nos a nos posicionar diante de Deus e da vida como Jesus se posicionou. Desde que veio ao mundo, Jesus escolheu fazer da sua vida uma entrega absoluta à vontade do Pai: “Eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade” (Hb 10,7). Ora, a obediência a Deus implica muitas vezes em sacrificar o nosso ego, os nossos planos, para abraçarmos os planos d’Ele a nosso respeito. O que é que nos move, nos faz todos os dias levantar da cama e enfrentar o mundo: os nossos interesses pessoais, as nossas realizações humanas, ou a fidelidade à missão que o Pai nos confiou?

Para o autor da carta aos Hebreus, fazer a vontade do Pai é fazer da própria vida uma entrega, uma oferenda, um sacrifício: “É graças a esta vontade (escolha diária do Filho em fazer a vontade do Pai) que somos santificados pela oferenda do corpo de Jesus Cristo, realizada uma vez por todas” (Hb 10,10). A Eucaristia que comungamos é a oferenda do corpo de Jesus Cristo, realizada uma vez por todas na cruz. Comungá-la implica em fazermos da nossa vida uma oferenda ao Pai, pela salvação dos nossos irmãos e irmãs. Quem comunga o corpo de Jesus Cristo, mas não está disposto a se sacrificar pela salvação da família, da sociedade humana, da Igreja, do mundo atual, não entendeu o significado da oferenda do corpo de Cristo. Em suma, a pergunta que a Eucaristia nos coloca nunca será: “O que a vida tem a me oferecer?”, mas sempre será: “O que eu tenho a oferecer à vida?”. Isso significa que é a oferenda diária de nós mesmos que fará as pessoas do nosso tempo sentirem-se visitadas por Deus e por Sua salvação.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

DESOBSTRUIR A FONTE INTERNA DA NOSSA ALEGRIA

 Missa do 3º dom. do advento. Palavra de Deus: Sofonias 3,14-18a; Filipenses 4,4-7; Lucas 3,10-18.

 

            “Canta de alegria, cidade de Sião; rejubila, povo de Israel! Alegra-te e exulta de todo o coração, cidade de Jerusalém!” (Sf 3,14). Quando foi a última vez que você sentiu alegria? O que é preciso acontecer na sua vida para que você sinta alegria?

            Quando o profeta Sofonias convidou o povo de Israel a se alegrar, o país estava mergulhado na miséria, na violência e no sofrimento. Mesmo diante desse contexto de desolação, o profeta levanta sua voz para anunciar: “Não temas, (...) não te deixes levar pelo desânimo! O Senhor, teu Deus, está no meio de ti” (Sf 3,16-17). Ainda que as circunstâncias não sejam favoráveis; ainda que a época em que estamos vivendo seja excessivamente problemática; ainda que estejamos feridos e tenhamos sofrido perdas, não podemos deixar o medo nos engolir, nem nos entregar ao desânimo, porque o Senhor está conosco! Sua presença junto a nós não é uma ameaça, mas um convite à confiança no Seu amor e no Seu poder de tudo transformar.

            Esse mesmo convite à alegria é retomado pelo salmista: “Exultai cantando alegres, habitantes de Sião, porque é grande em vosso meio o Deus Santo de Israel!” (Is 12,6). A razão da nossa alegria não depende do fato de que tudo esteja correndo bem em nossa vida; ela se apoia na certeza de que Deus é grande; Ele é maior que tudo o que nos acontece e está no meio de nós, junto a nós, dentro de nós, através do Seu Espírito! Portanto, a alegria renasce em nós todas as vezes em que tomamos consciência de que somos habitados por Deus, através do Espírito Santo. Também o apóstolo Paulo, mesmo estando preso, nos convida à alegria: “Alegrai-vos sempre no Senhor; eu repito, alegrai-vos” (Fl 4,4). Trata-se de nos alegrar “no Senhor” e por causa do Senhor, em cujas mãos está a nossa existência.

            Não há dúvida de que são muitas as nossas preocupações e os nossos problemas; não há como ignorá-los, mas o apóstolo Paulo nos dá um conselho: “Não vos inquieteis com coisa alguma, mas apresentai as vossas necessidades a Deus, em orações e súplicas, acompanhadas de ação de graças” (Fl 4,6). A inquietação, o medo, o sentimento de ameaça devem dar lugar dentro de nós à confiança e à entrega, fazendo da nossa oração o momento em que colocamos tudo nas mãos de Deus e nos abandonamos por completo aos Seus cuidados. Quando fazemos isso, a inquietação, o medo, a angústia dão lugar à paz: aconteça o que acontecer, estamos sob os cuidados de Deus. Ele sempre faz com que tudo concorra para o bem daqueles que a Ele se confiam e n’Ele esperam.

            Se o motivo da alegria cristã é a proximidade da vinda do Senhor, diante do anúncio desta, feito por João Batista, pessoas de diferentes categorias fizeram-lhe a seguinte pergunta: “Que devemos fazer?” (Lc 3,10.12.14). A alegria está no esperar o Senhor fazendo, isto é, cuidando daquilo que a vida está nos pedindo para cuidar, neste momento. Algumas frases possam nos ajudar a compreender melhor no que consiste a alegria: “A alegria está na luta, na tentativa, no sofrimento envolvido e não na vitória propriamente dita” (Ghandi). “A alegria de fazer o bem é a única felicidade verdadeira” (Tolstói). “Há mais alegria em dar do que em receber” (At 20,35). “O sábio não se senta para lamentar-se, mas se põe alegremente em sua tarefa de consertar o dano feito” (Shakspeare). “Não há satisfação maior do que aquela que sentimos quando proporcionamos alegria aos outros” (Masaharu Taniguchi).

 

            Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

UMA GERAÇÃO LIGADA NA ESTÉTICA (PELE SEM MANCHA), MAS DESLIGADA DA ÉTICA (CONSCIÊNCIA LIMPA)

Missa da Imaculada Conceição. Palavra de Deus: Gênesis 3,9-15.20; Efésios 1,3-6.11-12; Lucas 1,26-38.

 

Neste ano, a liturgia do segundo domingo do advento cede lugar à Solenidade da Imaculada Conceição, celebrada no dia 08 de dezembro. Recordemos o dogma de fé que fundamenta tal solenidade: “Por uma graça e favor singular de Deus onipotente e em previsão dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, a bem-aventurada Virgem Maria foi preservada intacta de toda a mancha do pecado original no primeiro instante da sua conceição” (Papa Pio IX, 1854). Em outras palavras, nossa Igreja crê que Maria, diferente de qualquer outro ser humano, foi concebida sem a mancha do pecado original, justamente para ser a mãe do Santo de Deus, Jesus Cristo, nosso Salvador.

O texto do Gênesis nos relata aquilo que a Igreja chama de “pecado original”. Adão e Eva, personagens bíblicos que simbolizam a humanidade nas suas origens, desobedeceram a Deus e comeram o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Eles são o retrato de todo ser humano que escolhe não viver na dependência de Deus, mas determinar por si mesmo o que é o bem e o que é mal, segundo a sua conveniência. Aqui entra a noção bíblica de pecado: pecar significa “fazer o que é mal aos olhos de Deus” (Sl 51,6). Se alguma coisa nos oferece algum tipo benefício, mas provoca o mal em nós mesmos, em nosso próximo ou na criação (meio ambiente), ela é má aos olhos de Deus e deve ser evitada. O resultado de todo pecado é o sofrimento, a destruição, a infelicidade e a morte.

A pergunta de Deus a Adão é dirigida a cada um de nós, hoje: “Onde você está?” (Gn 3,9). Deus quer que cada um de nós tome consciência de como está sua vida; como temos usado a nossa liberdade; para onde nossas escolhas e nossas decisões estão nos levando e o que elas têm produzido em nossa história pessoal e social. Enquanto Adão se dá conta de que o pecado o afastou de Deus, Eva explica que pecou porque foi enganada: “A serpente enganou-me e eu comi” (Gn 3,13). Na época em que esta página do Gênesis foi escrita, a serpente estava ligada aos rituais de fertilidade e de fecundidade, e os israelitas deixavam-se fascinar por esses cultos cananeus. A serpente é apenas um símbolo da sedução do maligno, o “pai da mentira” (Jo 8,44). Nós só pecamos porque nos deixamos enganar, caindo na armadilha do maligno.

A boa notícia no relato do pecado de Adão e Eva é a promessa de que o Filho da Mulher esmagará a cabeça da serpente (cf. Gn 3,15), uma referência a Jesus Cristo, nascido da Virgem Maria como Santo (cf. Lc 1,35), para nos libertar da condenação do nosso pecado, nos retirar de uma situação de desobediência e tornar o nosso coração capaz de obediência à vontade de Deus, que deseja o nosso verdadeiro bem, a nossa verdadeira felicidade e salvação.

O Evangelho nos anuncia o cumprimento da promessa de Deus, apresentando-nos Maria, a nova Eva, aquela que não dialoga com o maligno, nem se deixa enganar por suas seduções, mas dialoga com Deus na sua consciência, e procura em tudo fazer a sua vontade. A Virgem Maria é saudada pelo anjo Gabriel como “cheia de graça” (cf. Lc 1,28); portanto, como uma pessoa em quem o pecado nunca teve espaço para entrar e macular, sujar, corromper. Diferente de Eva, Maria escolhe obedecer em tudo a Deus, tornando-se, assim, modelo para cada um de nós, sempre que somos convidados a abraçar a missão que Deus deseja nos confiar, para a salvação da humanidade: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” (Lc 1,38). Aqui começa o Natal! Ao dizer “faça-se em mim segundo a tua palavra!”, Maria permite que a Palavra de Deus se faça carne (cf. Jo 1,14), pessoa humana em seu ventre, e nasça Aquele que cujo sangue tem o poder de perdoar nossos pecados (cf. Ef 1,7), verdade atestada também na carta aos Hebreus: “O sangue de Cristo que, pelo Espírito eterno, se ofereceu a si mesmo a Deus como vítima sem mancha, há de purificar a nossa consciência das obras mortas para que prestemos culto ao Deus vivo” (Hb 9,14).    

            Cristo, vítima sem mancha, nascido da Virgem Maria, imaculada, concebida sem a mancha do pecado original. Ambos são o que cada um de nós é chamado a se tornar: “Em Cristo, ele (Deus Pai) nos escolheu, antes da fundação do mundo, para que sejamos santos e irrepreensíveis sob o seu olhar, no amor” (Ef 1,4). Nenhum ser humano passa por este mundo sem pecar, sem se manchar: “Se dissermos: ‘Não temos pecado’, enganamo-nos e a verdade não está em nós” (1Jo 1,8). Nossa verdade de filhos de Deus é o fato de que sempre seremos livres para fazer escolhas e tomar decisões, independente das circunstâncias que marcam a nossa vida em cada momento, e nem sempre nossa escolha ou decisão será a de Maria: “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38); algumas vezes, em busca de um bem aparente, mas não verdadeiro, nós interromperemos nosso diálogo com Deus, para abrir um diálogo com o Tentador, dizendo-lhe: “Faça-se em mim segundo a tua mentira”. Desse modo, conceberemos o pecado, e mancharemos a nossa história pessoal e social.

            Nesta festa da Imaculada Conceição da Virgem Maria, assumamos o compromisso de cuidar mais da ética (comportamento justo) do que da estética (remover manchas da nossa pele). Não nos esqueçamos do alerta do Papa Francisco: muitos filhos comem pão sujo em casa, porque a maneira como seus pais ganham dinheiro é desonesta. Lembremos do conselho de Jesus: “Deem o que possuem em esmola (socorram os pobres), e tudo ficará puro (sem mácula) para vocês” (Lc 11,41). Cuidemos, enfim, do nosso olhar: “A lâmpada do corpo é o teu olho. Se o teu olho estiver são, todo o teu corpo ficará iluminado (limpo, imaculado); mas se ele for mau, teu corpo também ficará escuro (sujo, maculado)” (Lc 11,34).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi