Missa
do 4. dom. da quaresma. Palavra de Deus: 2Crônicas 36,14-16.19-23; Efésios
2,4-10; João 3,14-21.
Quantas
pessoas ainda creem em Deus? Muitas pessoas deixaram de crer em Deus por causa
das imagens deformadas d’Ele que lhes foram mostradas. Muitos deixaram de crer
em Deus porque os homens que lhes falavam d’Ele negavam com as atitudes aquilo
que anunciavam com a boca. Maior ainda é o número das pessoas que abandonaram a
fé em Deus porque Ele não impediu o sofrimento, a dor, a morte, o absurdo e a
tragédia na vida da humanidade.
Considerando
as pessoas que ainda hoje mantêm sua fé em Deus, precisamos perguntar: em qual
Deus as pessoas creem? Alguns creem num Deus juiz, implacável em seu julgamento
contra os pecadores. Outros creem num Deus que manda exterminar da face da
terra todos os “infiéis”, isto é, todos os que não creem n’Ele. Outros ainda
creem num Deus que não se importa com o corpo das pessoas – se passam fome, se
estão desempregadas, se são violentadas, se sofrem injustiças – mas apenas com
a salvação da alma delas.
“Ninguém
jamais viu a Deus: o Filho único, que está voltado para o seio do Pai, este o
deu a conhecer” (Jo 1,18). Somente o Filho pode nos revelar o verdadeiro rosto
do Pai. Todas as ideias, conceitos e imagens que possamos ter a respeito de
Deus precisamos confrontar com a revelação que o Filho faz do Pai nos
evangelhos. Nós só podemos conhecer o Pai se nos aproximarmos do Filho:
“Ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar”
(Mt 11,27). Portanto, se dissemos, com toda a razão, que “Jesus é Deus” –
divino como o Pai – precisamos também dizer verdadeiramente que “Deus é Jesus”
(José Maria Castillo), isto é, Deus age, fala e se mostra a nós na pessoa de
Jesus Cristo.
A
maneira como Deus se revela em seu Filho Jesus está expressa no Evangelho de
hoje, pela boca do próprio Jesus: “Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho
único, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo
3,16). Deus amou; Deus ama. Toda pessoa que faz uma verdadeira experiência de
amor, faz uma verdadeira experiência de Deus, porque “Deus é amor” (1Jo 4,8). E
Jesus deixa claro que o amor de Deus se manifestou concretamente ao mundo, isto
é, à humanidade. Foi por isso que Jesus nos ensinou a orar a Deus chamando-O de
“Pai nosso que estais nos céus”; não num determinado templo, não numa
determinada religião ou igreja, mas “nos céus”, acima de todos os seres humanos
porque Pai de todos os seres humanos.
Deus
ama a humanidade, essa mesma humanidade que nós julgamos perdida, na qual a
maioria das pessoas vive como se Deus não existisse; essa mesma humanidade que
muitas vezes se comporta de maneira contrária à vontade de Deus. Porque ama a
humanidade, Deus Pai não tem homens a exterminar, mas filhos a resgatar e
salvar. Porque ama a humanidade, o Pai “deu o seu Filho único”; “deu”
primeiramente no sentido de enviar o seu Filho “para procurar e salvar o que
estava perdido” (Lc 19,10), mas “deu” também no sentido de “entregar”, de
permitir que seu Filho fosse entregue numa cruz. O Pai não enviou o seu Filho
para morrer numa cruz, mas para salvar a humanidade. Se a consequência desse
desejo do Pai foi a morte de seu Filho único, Ele aceitou essa morte por dois
motivos: primeiro, para que o Filho, morrendo como um condenado, nos resgatasse
de todo tipo de condenação (cf. Rm 8,1); segundo, para que a humanidade, ao
olhar para o Filho crucificado, sempre se lembrasse do quanto o Pai a ama.
Deus
não tem imagem, mas Jesus “é a Imagem do Deus invisível” (Cl 1,15). Diante de
tantas imagens deformadas de Deus, precisamos olhar para o Filho crucificado e
compreender: isso aconteceu porque Deus ama a humanidade. É na cruz que se
revela o amor do Pai por todo ser humano. No entanto, é quando as pessoas fazem
sua experiência de cruz que elas duvidam não só da existência de Deus, mas
sobretudo de que Ele as ama. É verdade que “não podemos entender a frase ‘Deus
é amor’ (1Jo 4,8) de um modo muito ingênuo demais, como se Deus dispusesse tudo
com amor. A realidade muitas vezes brutal do mundo nos força a não entender
ingenuamente Deus como Pai amoroso” (Anselm Grün). Para nós, seres humanos,
quem ama não deixa o amado sofrer. Mas para Deus, o amor permite que o amado
sofra quando aquele sofrimento é para o seu bem e a sua salvação. Para Deus, o
amor aceita receber sobre si o ódio do mundo e ser morto por ele, para que
fique claro à humanidade que o ódio só produz morte; o amor é a única coisa que
nos faz viver.
“Deus
é Jesus”; o Pai escolheu revelar a nós o seu rosto na pessoa do Filho, e o
Filho esclarece: “Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo,
mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3,17). Os braços abertos do Filho na
cruz são os braços do Pai que abraçam todos os condenados e os feridos da humanidade.
Todas as pessoas que sofrem precisam se sentir abraçadas pelo Pai na cruz de
seu Filho. Todas as pessoas que neste momento estão crucificadas precisam ser
sinceras e corajosas e fazerem ao Pai a mesma pergunta que o Filho lhe fez:
“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34). Todas as pessoas que,
por diversas situações, estão se sentindo crucificadas precisam se deixar
abraçar pelo Pai, como fez o Filho ao dizer: “Pai, em tuas mãos entrego o meu
espírito” (Lc 23,46); em tuas mãos entrego o meu adoecer, o meu sofrer, o meu
perder, o meu morrer.
Oração:
Deus, nosso Pai, o Senhor disse que as montanhas e as colinas podem até mudar
de lugar, mas o teu amor por nós, pela humanidade, não mudará (cf. Is 54,10).
Queremos pedir perdão pelas vezes em que duvidamos do teu amor, porque a dor, a
injustiça, o sofrimento não nos deixaram sentir a tua presença junto a nós.
Pedimos que os braços da cruz de teu Filho possam abraçar todo ser humano; em
especial, aquele que sofre neste momento, aquele que precisa voltar a crer em Ti,
que precisa se sentir amado por Ti. Liberta a humanidade de todo tipo de condenação.
Fortalece a nossa fé em teu Filho Jesus. Ensina-nos a falar corretamente de ti
para as pessoas do nosso tempo. Que o teu amor misericordioso e fiel se derrame
sobre todo ser humano, curando suas feridas e trazendo-o para junto do teu
coração. Em nome de Jesus. Amém!
Pe.
Paulo Cezar Mazzi
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