sexta-feira, 3 de novembro de 2017

UMA ESCOLHA QUE NOS SEPAROU DO MUNDO

Missa de todos os santos. Palavra de Deus: Apocalipse 7,2-4.9-14; 1João 3,1-3; Mateus 5,1-12a.

            “Minha escolha separou vocês do mundo” (Jo 16,19). Essas palavras de Jesus são importantes para nos deixarmos interpelar pela liturgia de hoje, o dia de todos os santos. Quem é a pessoa santa, aos olhos da Sagrada Escritura? A pessoa santa é aquela que está no mundo, mas tem consciência de não pertencer ao mundo. Como todo e qualquer ser humano, ela vive mergulhada numa realidade onde o bem e o mal, a verdade e a mentira, a graça e o pecado aparecem misturados, sem muitas vezes ter uma diferenciação nítida, clara, entre um e outro. Mas, diferente de tantos seres humanos, a pessoa que busca sua santificação não aceita se comportar na vida como se fosse uma espécie de esgoto, que engole sem discernimento tudo o que o mundo lhe propõe como felicidade. Ao contrário, orientando-se pela Palavra de Deus, ela faz da sua consciência uma espécie de filtro, separando o que presta daquilo que não presta, o que convém daquilo que não convém para a sua verdadeira felicidade, para a sua salvação.
            Ao nos convidar a ser santos, Deus está nos convidando a nos separar de tudo aquilo que nos afasta da nossa própria essência como filhos Seus. Mas a pergunta que fica é: quem de nós quer de fato separar-se de tantas coisas que o mundo de hoje nos apresenta, coisas aparentemente boas, ‘importantes’, quase que ‘essenciais’ para sermos felizes? Quem de nós aceita sofrer e renunciar a um prazer, a um lucro, a um ganho, a uma oportunidade, oferecidos pelo mundo, quando sabe que isso está em contradição com aquilo que o Senhor nos pede na sua Palavra? Aqui precisamos ser muito realistas, sinceros, e reconhecer que nós, embora queiramos pertencer a Deus, também queremos desfrutar de certas coisas que o mundo nos oferece, ainda que nos afastem da santidade do nosso Deus.
            O apóstolo João quer nos tornar conscientes de que a santidade não é um valor para o nosso mundo: “o mundo não nos conhece” (1Jo 3,1); vale dizer: o mundo não reconhece o valor da santidade. Se alguém espera que o seu esforço em viver segundo o Evangelho e se comportar na vida como Jesus se comportou vá ser reconhecido e até mesmo apoiado pelo mundo, está totalmente enganado e vai se frustrar cada vez mais. O mundo simplesmente ignora – quando não, agride e combate – toda pessoa que se esforça em se santificar, da mesma forma como os morcegos preferem a escuridão e fogem da luz, porque se sentem agredidos por ela. Portanto, quem não suporta ser tratado com indiferença pelo mundo, cedo ou tarde abandona sua própria santificação e passa a adaptar-se ao mundo, para ser reconhecido e apoiado por ele.
            Em todas as partes do mundo percebe-se hoje uma tendência ao fundamentalismo e ao conservadorismo: muitas pessoas acharam mais fácil defender-se do mundo do que atuar nele como sal, luz e fermento (cf. Mt 5,13.14; 13,33). Aqui pode nos ajudar o livro do Apocalipse, quando nos lembra que os santos são pessoas que se santificaram passando por uma grande tribulação – sofrendo e enfrentando uma grande tribulação, não sendo poupados dela. São pessoas que permitiram ser marcadas em sua fronte (consciência) com o sinal de pertença ao Deus vivo; pessoas que, se agora estão em pé, ressuscitadas, diante do trono de Deus e do Cordeiro, Jesus Cristo, e vestindo roupas brancas, é porque suas roupas foram lavadas no sangue do Cordeiro enquanto estavam na terra. Portanto, são pessoas que enfrentaram as mesmas lutas que Jesus enfrentou, que sofreram o que Ele também sofreu; pessoas que se depararam com a maldade e as injustiças deste mundo e escolheram diante disso testemunhar a sua fé, e não fugir do confronto com o mundo.
            Jesus deixa claro no Evangelho de hoje que a nossa santificação se dá na terra, entrando em comunhão com a realidade que hoje afeta todas as pessoas, suportando aflições, enquanto esperamos a consolação que vem de Deus; procurando conservar em nós a mansidão, a paciência; sofrendo em nós a fome e a sede de justiça; deixando-nos afetar pela dor dos outros; mantendo em nosso coração o filtro do discernimento; promovendo a paz e aceitando o fato de que sempre sofreremos algum tipo de perseguição quando procurarmos tornar esse mundo mais justo. O apóstolo João, por sua vez, nos recorda que a nossa santificação é um processo que dura a vida toda: já somos filhos de Deus, mas ainda não se manifestou o que seremos (cf. 1Jo 3,2). Portanto, precisamos ter paciência conosco mesmos e aceitarmos essa espécie de tensão espiritual entre o nosso real – a pessoa que somos – e o nosso ideal – a pessoa que somos chamados a ser em Deus. Neste sentido, há algo que pode nos ajudar: é a convicção de que ser santo não é ser alguém que não queremos ser; ser santo é ser aquilo que fomos chamados a ser, pelo Deus que nos criou e nos disse: “sejam santos, porque Eu sou Santo” (1Pd 1,16).
Uma palavra final. Você é chamado à santidade não fazendo coisas extraordinárias para Deus ou em nome de Deus, mas executando as tarefas ordinárias do seu cotidiano mantendo no coração as palavras de Jesus: Minha escolha separou você do mundo (cf. Jo 15,19). Você está no mundo, mas não deve viver a partir dele; e sim viver a partir da voz de Deus em sua consciência. Assim, a sua santidade será buscada e cultivada no ordinário do seu cotidiano, enquanto você estuda, trabalha, navega na internet, joga bola ou faz algum outro esporte, se diverte nas festas, no lidar com seu corpo, sua sexualidade, sua afetividade, no lutar pela justiça, no opor-se ao mal, ao erro, à injustiça, no usar seu celular, enviando mensagens, no usar o controle remoto da sua TV etc.
Abaixo segue uma reflexão muito oportuna sobre a diferença entre perfeccionismo e santidade...

“O perfeccionista é aquele que pensa que só será amado por Deus, pelos demais e por si mesmo se ele for perfeito. O santo é aquele que se sabe amado por Deus incondicionalmente. O perfeccionista se propõe e se esforça para atingir a perfeição contando unicamente consigo mesmo para eliminar vícios e adquirir virtudes. O santo compreende que a santidade é um dom de Deus, e ele se reconhece dependente de Deus para ser salvo. Para o perfeccionista, o pecado é vivido como uma experiência de fracasso, uma humilhação da sua auto-imagem, uma ruptura com o próprio ideal; as quedas produzem tristeza, desânimo. O santo não se sente humilhado pelo pecado. Ele aceita ser pobre, frágil, limitado, e sabe-se amado em sua pequenez. As quedas não lhe roubam a esperança.             Como não consegue atingir a meta desejada, o perfeccionista se sente constantemente culpado, em dívida, insatisfeito, se condenando. Confiante na misericórdia divina, o santo vive sua fé com alegria e auto-aceitação. Para o perfeccionista, Deus é um juiz mal-humorado. Para o santo, Deus é amor, misericórdia, ternura infinita. A relação do perfeccionista com Deus é marcada pela distância e pelo medo. A relação do santo com Deus é marcada pela proximidade e pela intimidade. A busca da perfeição consiste na subida sofrida de uma escada. A busca da santidade consiste numa descida rumo a uma radical humildade”.
                                                                                                      (José Antonio Netto de Oliveira, SJ, Perfeição ou santidade e outros textos espirituais, Loyola).

                                                                 Pe. Paulo Cezar Mazzi

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