sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

CUIDAR DO ESSENCIAL


Missa do 2º. dom. do advento. Palavra de Deus: Isaías 11,1-10; Romanos 15,4-9; Mateus 3,1-12.

            O Evangelho deste segundo domingo do advento nos coloca diante de João Batista, aquele que preparou as pessoas do seu tempo para a primeira vinda de Jesus. Mas antes de nos colocar diante das palavras de João, o evangelista Mateus se preocupou em nos descrever o estilo de vida de João: um homem que vivia no deserto, usava uma roupa feita com pêlos de camelo e se alimentava de gafanhotos e mel do campo. São detalhes que nos dizem que João era uma pessoa que vivia do essencial; sua vida se pautava por aquilo que era essencial.
            Não são poucas as pessoas que, ao analisarem as diversas situações de doença, de sofrimento, de injustiça e de dor em que vive a humanidade, têm afirmado que o nosso grande mal é um só: nós descuidamos ou nos afastamos do essencial; portanto, o caminho da cura, da restauração da vida nos seus diversos aspectos passa pelo resgate e pelo cuidado com o essencial. Mas, o que é essencial? A resposta a essa pergunta sempre vai depender da situação que a pessoa está vivendo no momento: se ela se encontra doente ou com saúde; se vive num lugar pacífico ou numa região de conflito; se tem dinheiro ou nem o mínimo necessário pra viver com dignidade etc.
Cada um de nós precisa ter claro para si o que é essencial. Cada um de nós precisa aprender a distinguir claramente o que é essencial e aquilo que é urgente (ou aquilo que o mundo nos faz pensar que é urgente), e dar prioridade ao primeiro, ao invés de se perder no segundo. O próprio João nos aponta, com suas palavras, para aquilo que precisamos dar prioridade e cuidar melhor: as nossas raízes: “O machado já está na raiz das árvores, e toda árvore que não der bom fruto será cortada e jogada no fogo” (Mt 3,10).   
Todos querem colher frutos. Todos querem desfrutar da sombra que a árvore oferece. Mas são poucos aqueles que se lembram de que a qualidade daquilo que a árvore tem para oferecer depende da saúde das suas raízes. Por não cuidar das suas raízes, muitas pessoas se suicidaram, mesmo estando no auge da fama ou quando esta começou a diminuir; outras, apesar de se tornarem esteticamente muito bonitas, seguem pela vida vazias, sem conteúdo; outras levaram suas empresas à falência. Por não querer cuidar das suas raízes, muitas pessoas vão continuar tombando diante dos ventos que sopram contrário; por descuidar das raízes do seu avião (combustível), um piloto aterrizou na morte, levando consigo dezenas de outras pessoas...
            Mas hoje não foi apenas João Batista quem nos chamou a atenção para o cuidado com as nossas raízes; também Isaías, profetizando o nascimento de Jesus, afirmou: “a partir da raiz, surgirá o rebento de uma flor” (Is 11,1). Tudo começa “a partir da raiz”. A mudança, a cura, a transformação, a conversão, a libertação se dá “a partir da raiz”; se dá cuidando do nosso interior e não maquiando o nosso exterior. E Isaías diz outra coisa importante: “Sobre ele repousará o Espírito do Senhor...” (Is 11,2). O Espírito Santo deve poder tocar as nossas raízes e repousar sobre aquilo que vai nascer delas. O Espírito Santo deve poder “repousar” sobre você, mas aqui é preciso lembrar que Ele não encontra espaço para repousar numa pessoa barulhenta, agitada, dispersa; Ele só pode repousar onde há silêncio, acolhida, docilidade...
            Trazendo a profecia de Isaías para os nossos dias, fica claro que, assim como Jesus, todo cristão é uma pessoa ungida pelo Espírito Santo e tem como missão colaborar para que a justiça seja restabelecida na sociedade humana. Nossas palavras, acompanhadas necessariamente de atitudes coerentes, devem ajudar a minar as forças do mal que ainda fere de tantas formas a humanidade. Desse modo nós, cristãos, vamos direcionando o mundo para o futuro que Deus quer para a humanidade, um futuro que se chama Paraíso.
Se o advento nos prepara para a vinda de Jesus, e se esta vinda vai provocar o nascimento de novos céus e de uma nova terra, a mesma convicção que o profeta Isaías tinha nós devemos ter: o Paraíso não é uma saudade perdida, mas uma esperança a ser construída. E a expressão que sintetiza o Paraíso é esta: “O lobo e o cordeiro viverão juntos...” (Is 11,6). Nós costumamos rotular o lobo como sendo mau e o cordeiro como sendo bom, mas não se trata disso. Lobo e cordeiro simbolizam as diferenças. Nós, seres humanos, somos diferentes quando à raça, à crença e a tantas outras coisas, mas essas diferenças não significam que não possamos conviver juntos, pacificamente, fraternalmente. Na homenagem às vítimas do acidente aéreo, a dor uniu milhares de pessoas dentro e fora do estádio Girardot em Medellín, na Colômbia, na última quarta, no mesmo dia e horário em que aconteceria o jogo entre o Chapecoense e o Atlético Nacional. Não esperemos a dor de uma tragédia para aprendermos a viver juntos. Ainda que instintivamente seja impossível que lobo e cordeiro possam viver juntos, confiemos na ação de Deus também sobre aquilo que temos de mais instintivo em nós, e deixemos nos transformar pela força da Sua graça.  

P.S. 1 – Aproveitando da comoção nacional pela tragédia com o avião que transportava a Chapecoense, os nossos deputados federais (com exceção de um, que votou contra), desfiguraram o pacote que reúne um conjunto de medidas de combate à corrupção propostas pelo Ministério Público Federal e avalizadas por mais de 2 milhões de assinaturas de cidadãos encaminhadas ao Congresso Nacional. Das dez medidas propostas, somente uma não foi adulterada. Como disse Jesus, “uma árvore boa não pode dar frutos ruins, nem uma árvore má dar bons frutos” (Mt 7,18). Lembremos que as raízes dessa árvore que tanto mal provoca ao nosso país também apontam para nós, que escolhemos esse tipo de deputados para nos representar.

P.S. 2 – Na última terça (29), a primeira turma do Supremo Tribunal Federal decidiu que praticar aborto nos três primeiros meses de gestação não é crime. Isso não descriminaliza o aborto no Brasil, porque a decisão não foi tomada pelo plenário do STF como um todo, o que teria dado força de lei à medida. O julgamento foi feito por uma turma formada por cinco dos onze ministros do Supremo. A sentença, no entanto, abre brechas para que o machado do aborto seja desferido sobre as raízes da vida de uma árvore que começa a nascer no ventre da mãe. Diante disso, cabe o nosso protesto profético em defesa da vida.

 Pe. Paulo Cezar Mazzi



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