Missa do 5º dom. Quaresma. Palavra de Deus: Isaías 43,16-21; Filipenses 3,8-14; João 8,1-11.
O cardeal Van Thuan
afirmou: “Não há santos sem passado, nem pecadores sem futuro”. Toda pessoa que
hoje está fazendo um caminho de santificação teve um passado em que, algumas
vezes, fez escolhas erradas e também tomou decisões erradas, ou seja, atitudes que
a levaram a pecar. Isso significa que aquele que está num caminho de santidade
hoje não deve se encher de orgulho e olhar os “pecadores” com desprezo,
julgando-os e condenando-os como pessoas que não têm salvação.
Se é verdade que “não
há santos sem passado”, cada um de nós é chamado a se reconciliar com o seu
passado. Qualquer coisa que tenha acontecido nele não pode ser mudada, por
maior que seja o nosso arrependimento. Além disso, sempre é importante recordar
que nós não somos o resultado do nosso passado, daquilo que nós mesmos, os
outros ou a vida fez conosco; nós somos o resultado daquilo que escolhemos
fazer com o que nos aconteceu. Portanto, tomemos cuidado com a síndrome de
Gabriela: “Eu nasci assim; eu cresci assim; eu sou mesmo assim; vou ser sempre
assim: Gabriela, sempre Gabriela”.
Consideremos a outra
parte da verdade: “não há pecadores sem futuro”. Qual futuro existe para uma
pessoa que até ontem foi pecadora? Para os mestres da Lei e os fariseus, somente
um: a condenação – ser apedrejada até morrer. Para Jesus, um futuro de
salvação: “Podes ir, e de agora em diante não peques mais” (Jo 8,11). Na
verdade, nós não temos nenhum controle sobre o nosso futuro, mas ele está sendo
preparado no único tempo que temos em nossas mãos: o presente. É na página
chamada “hoje” que estamos escrevendo a nossa história, a qual pode ser
simplesmente uma continuação do passado ou uma história aberta a um futuro
novo.
O Deus da esperança nos
faz hoje um convite: “Não
relembreis coisas passadas, não olheis para fatos antigos. Eis que eu
farei coisas novas, e que já estão surgindo: acaso não as reconheceis? Pois
abrirei uma estrada no deserto e farei correr rios na terra seca” (Is
43,18-19). A cada dia, Deus nos abre uma estrada e nos convida a dar passos na
direção do futuro que Ele deseja para cada um de nós. A pergunta é: quem de nós
está disposto a caminhar na estrada que Deus nos abre? Quantas pessoas estão
vivendo a sua vida olhando não para frente, mas para trás, como alguém que
dirige o seu carro olhando o tempo todo para o retrovisor e não para a estrada à sua frente?!
Muitas pessoas estão
insatisfeitas com a vida que têm levado, e certamente dirigem a Deus o mesmo
clamor dos israelitas no exílio da Babilônia: “Mudai a nossa sorte, ó Senhor,
como torrentes no deserto” (Sl 126,4). Clamar ao Deus que faz novas todas as
coisas (cf. Ap 21,5) para que mude a nossa vida é muito importante! No entanto,
não podemos esquecer de que, junto com o pedido “mudai a nossa sorte...”, está
um compromisso: “Os que lançam as sementes entre lágrimas, ceifarão com alegria”
(Sl 126,5). Só lança sementes quem tem esperança. Toda e qualquer mudança que
queiramos em nossa vida depende das sementes que hoje estamos lançando. Quem se
recusa a mudar suas atitudes não tem como colher nenhuma mudança.
Jesus não condenou a mulher apanhada
em flagrante adultério, mas a convidou a mudar suas atitudes: “Não peques mais”.
“Pecar” (hamartia, em grego)
significa “errar o alvo”. Assim como aquela mulher, nosso alvo é ser feliz. O
problema está na forma como buscamos alcançar essa felicidade, sobretudo
prejudicando pessoas ou desobedecendo aos mandamentos da Lei de Deus. Além
disso, o alvo de um cristão não pode ser reduzido unicamente em “ser feliz”,
mas em “ser salvo”, em “alcançar a vida eterna”! Todo tipo de felicidade que
compromete a nossa salvação é um erro, um pecado, uma ilusão passageira.
São Paulo nos dá o exemplo do que
significa ser uma pessoa habitada pela esperança, uma pessoa que aprendeu a se
libertar do seu passado e a se abrir ao futuro que Deus quer para ela: “Corro
para alcançar Cristo Jesus, visto que já fui alcançado por ele... Esquecendo o
que fica para trás, eu me lanço para o que está na frente. Corro direto
para a meta, rumo ao prêmio, que, do alto, Deus me chama a receber em Cristo
Jesus” (Fl 3,12-14). Assim como a mulher do Evangelho, cada um de nós já foi
alcançado por Jesus no seu sacrifício de cruz. Ele morreu por todos e
reconciliou a todos com Deus. A partir de agora, não tem mais sentido viver
carregando culpa ou condenação pelos erros cometidos no passado, mas nos lançar
para o que está na frente: a salvação definitiva em Cristo Jesus.
Algumas perguntas: Eu já consegui me
reconciliar com o meu passado? Eu já perdoei a mim mesmo(a), aos outros ou a
Deus pelas coisas ruins que me aconteceram? Hoje eu vivo a minha vida com
liberdade e responsabilidade, dando um rumo diferente para a minha existência,
ou me faço de vítima, como a música “Gabriela”? Eu tomo a cada dia a decisão de
caminhar na estrada nova que o Deus da esperança abre à minha frente? Eu permito
que Ele me faça passar do deserto árido e seco para uma terra fértil e
abençoada pela chuva? Além de pedir que o Senhor mude a minha sorte, eu faço a
minha parte, lançando as sementes da mudança que eu desejo, ainda que em meio
às lágrimas? Eu creio no perdão de Jesus para todos os meus pecados e aceito
mudar minhas atitudes, rompendo com o círculo vicioso dos meus erros? Apesar
dos meus tropeços e quedas, eu me levanto e me lanço para a frente todos os
dias, para a meta que o Pai me chama a alcançar em seu Filho Jesus?
Pe.
Paulo Cezar Mazzi