quinta-feira, 20 de março de 2025

DEIXAR DE SER UMA PRESENÇA INÚTIL E TORNAR-SE UMA PRESENÇA NECESSÁRIA

 Missa do 3º dom. Quaresma. Palavra de Deus: Êxodo 3,1-8a.13-15; 1Coríntios 10,1-6.10-12; Lucas 13,1-9.

 

As tragédias sempre marcaram a história humana. Concretamente, podemos nos lembrar de duas: 1) Em 25/01/2019, a barragem da Mina de Córrego do Feijão, da Vale, em Brumadinho (MG), rompeu, matando 270 pessoas. 2) Em 09/08/2024, um avião com 62 pessoas a bordo caiu em um condomínio no bairro Capela, em Vinhedo (SP). Nenhum sobrevivente. Como interpretamos uma tragédia? Ela seria castigo de Deus pelos pecados das pessoas que nela morreram?   

Existem tragédias que são consequência das atitudes erradas das pessoas, assim como existem tragédias que são simplesmente uma fatalidade, ou seja, as pessoas atingidas por elas não foram responsáveis pelo que aconteceu. Jesus não nos explica a razão de ser das tragédias ou das fatalidades, mas aproveita esses fatos para nos fazer uma advertência: “Se vós não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo” (Lc 9,4.5). Em outras palavras, quando interpretamos que as pessoas morrem numa tragédia porque pecaram, estamos profundamente enganados. Além disso, a questão principal é: o que essa tragédia está dizendo a cada um de nós?

Quando recebemos a notícia de vidas que foram destruídas numa tragédia ou numa fatalidade, devemos revisar as nossas atitudes, principalmente aquelas que favorecem a destruição de valores, como a bondade, a justiça, a verdade, como também aquelas que favorecem a destruição de pessoas em nossos relacionamentos. Neste sentido, precisamos tomar consciência de que a verdadeira tragédia não é a nossa morte física, mas a nossa morte espiritual. Tragédia é abandonar nossa vida de oração, é desistir de ser uma pessoa fiel, honesta e justa; tragédia é deixar os nossos desejos desordenados tomarem o lugar da nossa consciência e nos jogarem de um lado para o outro, como uma folha seca que o vento leva para onde quer. Tragédia é seguir o fluxo, ir atrás da maioria, tornar-se uma pessoa mundana justificando que todo mundo faz assim.

Para nos ajudar a fazer um exame de consciência das nossas atitudes, Jesus nos conta a parábola da figueira estéril: “Já faz três anos que venho procurando figos nesta figueira e nada encontro. Corta-a! Por que está ela inutilizando a terra?” (Lc 9,7). Cada um de nós é uma árvore frutífera que Deus plantou em um lugar específico da face da Terra. Independentemente do tipo de terreno em que nos encontramos, temos a capacidade de ser fecundos, de produzir frutos, de fazer o bem. A questão, porém, é: nós temos vontade de fazer o bem? Nós usamos nossa inteligência, nossa vontade e nossa liberdade para produzir destruição em nossa própria vida, na vida de outras pessoas e em nosso Planeta, ou fazemos aquilo que está ao nosso alcance para gerarmos vida à nossa volta?

Nosso mundo está cheio de árvores inúteis, isto é, de pessoas preguiçosas e com má vontade, pessoas não somente individualistas, que não se importam com os outros, mas verdadeiras parasitas, que além de não ajudarem ninguém, vivem à custa do trabalho de outros. O recado do Evangelho é muito claro: “Corta-a! Por que está ela inutilizando a terra?” (Lc 9,7). Essa ordem de cortar está relacionada com o julgamento de cada um de nós, e se ela nos parece muito radical, lembremos a advertência da Palavra de Deus: “Aquele que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado” (Tg 4,17). Em outras palavras, nós pecamos não somente quando provocamos destruição em nossa vida, na vida das pessoas ou do Planeta; nós também pecados quando cruzamos os braços e nos tornamos indiferentes às necessidades à nossa volta.

Antes que chegue o dia do nosso julgamento, quando o Senhor pedirá contas dos frutos que somos capazes de produzir, o próprio Senhor nos oferece o tempo da sua misericórdia, pois Ele “é indulgente, é favorável, é paciente, é bondoso e compassivo” (Sl 103,8). Se, na parábola da figueira estéril, o Pai é o dono da plantação, seu Filho Jesus é o servo que intercede pela manutenção da figueira por mais um ano: “Senhor, deixa a figueira ainda este ano. Vou cavar em volta dela e colocar adubo. Pode ser que venha a dar fruto. Se não der, então tu a cortarás” (Lc 9,8-9). Cada vez que ouvimos o Evangelho e permitimos que ele questione as nossas atitudes, estamos nos abrindo para receber o adubo do Espírito Santo, que transforma nossa esterilidade em fertilidade.

Finalizando nossa reflexão, é importante não abusar da misericórdia de Deus. Toda pessoa que morre de forma trágica nos lembra que, quando menos imaginarmos, nós seremos “cortados” da face da terra e colocados diante do Senhor, o justo Juiz, para prestar contas dos frutos que Ele mesmo nos tornou capazes de produzir. Se durante a Quaresma a nossa Igreja realiza uma Campanha da Fraternidade é justamente para nos lembrar que nossas atitudes cristãs devem ter uma incidência social, pois, da mesma forma como uma árvore não produz fruto para si mesma, a Igreja não existe em função de si mesma, mas da salvação do mundo.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi  

 

 

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