Missa do 3º dom. Quaresma. Palavra de Deus: Êxodo 3,1-8a.13-15; 1Coríntios 10,1-6.10-12; Lucas 13,1-9.
As tragédias sempre marcaram a história
humana. Concretamente, podemos nos lembrar de duas: 1) Em 25/01/2019, a barragem
da Mina de Córrego do Feijão, da Vale, em Brumadinho (MG), rompeu, matando 270
pessoas. 2) Em 09/08/2024, um avião com 62 pessoas a bordo caiu em um condomínio no bairro Capela, em Vinhedo (SP).
Nenhum sobrevivente. Como interpretamos uma tragédia? Ela seria castigo de Deus
pelos pecados das pessoas que nela morreram?
Existem tragédias que são consequência
das atitudes erradas das pessoas, assim como existem tragédias que são simplesmente
uma fatalidade, ou seja, as pessoas atingidas por elas não foram responsáveis
pelo que aconteceu. Jesus não nos explica a razão de ser das tragédias ou das
fatalidades, mas aproveita esses fatos para nos fazer uma advertência: “Se vós
não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo” (Lc 9,4.5). Em outras
palavras, quando interpretamos que as pessoas morrem numa tragédia porque
pecaram, estamos profundamente enganados. Além disso, a questão principal é: o
que essa tragédia está dizendo a cada um de nós?
Quando recebemos a notícia de vidas que
foram destruídas numa tragédia ou numa fatalidade, devemos revisar as nossas
atitudes, principalmente aquelas que favorecem a destruição de valores, como a
bondade, a justiça, a verdade, como também aquelas que favorecem a destruição
de pessoas em nossos relacionamentos. Neste sentido, precisamos tomar
consciência de que a verdadeira tragédia não é a nossa morte física, mas a
nossa morte espiritual. Tragédia é abandonar nossa vida de oração, é desistir
de ser uma pessoa fiel, honesta e justa; tragédia é deixar os nossos desejos
desordenados tomarem o lugar da nossa consciência e nos jogarem de um lado para
o outro, como uma folha seca que o vento leva para onde quer. Tragédia é seguir
o fluxo, ir atrás da maioria, tornar-se uma pessoa mundana justificando que
todo mundo faz assim.
Para nos ajudar a fazer um exame de
consciência das nossas atitudes, Jesus nos conta a parábola da figueira
estéril: “Já faz três anos que venho procurando figos nesta figueira e nada
encontro. Corta-a! Por que está ela inutilizando a terra?” (Lc 9,7). Cada um de
nós é uma árvore frutífera que Deus plantou em um lugar específico da face da
Terra. Independentemente do tipo de terreno em que nos encontramos, temos a
capacidade de ser fecundos, de produzir frutos, de fazer o bem. A questão,
porém, é: nós temos vontade de fazer o bem? Nós usamos nossa inteligência,
nossa vontade e nossa liberdade para produzir destruição em nossa própria vida,
na vida de outras pessoas e em nosso Planeta, ou fazemos aquilo que está ao
nosso alcance para gerarmos vida à nossa volta?
Nosso mundo está cheio de árvores
inúteis, isto é, de pessoas preguiçosas e com má vontade, pessoas não somente
individualistas, que não se importam com os outros, mas verdadeiras parasitas,
que além de não ajudarem ninguém, vivem à custa do trabalho de outros. O recado
do Evangelho é muito claro: “Corta-a! Por que está ela inutilizando a terra?” (Lc
9,7). Essa ordem de cortar está relacionada com o julgamento de cada um de nós,
e se ela nos parece muito radical, lembremos a advertência da Palavra de Deus: “Aquele
que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado” (Tg 4,17). Em outras palavras,
nós pecamos não somente quando provocamos destruição em nossa vida, na vida das
pessoas ou do Planeta; nós também pecados quando cruzamos os braços e nos
tornamos indiferentes às necessidades à nossa volta.
Antes que chegue o dia do nosso
julgamento, quando o Senhor pedirá contas dos frutos que somos capazes de
produzir, o próprio Senhor nos oferece o tempo da sua misericórdia, pois Ele “é
indulgente, é favorável, é paciente, é bondoso e compassivo” (Sl 103,8). Se, na
parábola da figueira estéril, o Pai é o dono da plantação, seu Filho Jesus é o
servo que intercede pela manutenção da figueira por mais um ano: “Senhor, deixa
a figueira ainda este ano. Vou cavar em volta dela e colocar adubo. Pode
ser que venha a dar fruto. Se não der, então tu a cortarás” (Lc 9,8-9). Cada
vez que ouvimos o Evangelho e permitimos que ele questione as nossas atitudes,
estamos nos abrindo para receber o adubo do Espírito Santo, que transforma
nossa esterilidade em fertilidade.
Finalizando nossa reflexão, é importante
não abusar da misericórdia de Deus. Toda pessoa que morre de forma trágica nos
lembra que, quando menos imaginarmos, nós seremos “cortados” da face da terra e
colocados diante do Senhor, o justo Juiz, para prestar contas dos frutos que
Ele mesmo nos tornou capazes de produzir. Se durante a Quaresma a nossa Igreja
realiza uma Campanha da Fraternidade é justamente para nos lembrar que nossas
atitudes cristãs devem ter uma incidência social, pois, da mesma forma como uma
árvore não produz fruto para si mesma, a Igreja não existe em função de si
mesma, mas da salvação do mundo.
Pe. Paulo Cezar Mazzi
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