quinta-feira, 6 de setembro de 2018

ABRA-SE!

Missa do 23º.dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 35,4-7a; Tiago 2,1-5; Mc 7,31-37

            Jesus cura um homem surdo, que falava com dificuldade. Como anda a nossa capacidade de ouvir? Alguns casais não se escutam mais. A raiva, a mágoa, a decepção ou o pessimismo fez com que as palavras ficassem bloqueadas, represadas dentro da pessoa. Alguns pais não têm tempo para ouvir seus filhos. Alguns pais não estão escutando o grito de socorro de seus filhos, um grito emitido não com palavras, mas com o comportamento e, muitas vezes, com o próprio silêncio e fechamento dos filhos. Enfim, inúmeras crianças e adolescentes não ouvem seus pais, recusando-se a ser educados ou corrigidos, mas mantêm os ouvidos escancaradamente abertos aos seus “amigos” e às redes sociais.
            Apesar de nunca como hoje estarmos nos comunicando com tanta rapidez e facilidade com inúmeras pessoas, a nossa comunicação em família ou no ambiente de trabalho não anda boa. Enquanto alguns não falam o que sentem, porque acham que o outro “já sabe” a razão pela qual eles estão como estão, outros fingem não ouvir e não entender o que está sendo comunicado. Desse modo, nós podemos ter algumas pessoas dentro de uma casa que pouco dialogam entre si, mas cada uma está num cômodo da casa se comunicando com outras pessoas nas redes sociais. Por que será que é mais fácil para nós falar com quem está longe, mas não com quem está perto? Por que será que não conseguimos expressar pessoalmente às pessoas da nossa família aquilo que estamos sentindo, mas nos abrimos e revelamos nossos segredos mais profundos a pessoas “estranhas”, pela internet?        
            Falar sobre aquilo que se sente é importante. Falar liberta, ao passo que reprimir o que se sente adoece. Há pessoas que estão com muita coisa represada dentro delas. Se não houver uma vazão saudável daquilo que está represado, chegará uma hora em que a represa arrebentará, e aí o estrago poderá ser muito grande. Neste mês acontece uma campanha nacional de prevenção ao suicídio, e duas dicas são importantes, neste sentido: 1) Precisamos nos dispor a ouvir a pessoa que não está bem. 2) A pessoa que não está bem precisa ser encorajada a falar sobre como ela está se sentindo. Se ela não encontrar alguém para desabafar, poderá ligar gratuitamente no número 188 (CVV – Centro de Valorização da Vida).   
            O Evangelho de hoje nos convida a sermos 188 para as pessoas que estão à nossa volta. Como aquelas pessoas levaram a Jesus aquele homem surdo que não conseguia se expressar, nós precisamos apresentar a Jesus, por meio da nossa oração, as pessoas que desistiram de ouvir e também as que desistiram de falar. Além disso, nós somos chamados a “tocar” nessas pessoas, comunicando-lhes nossa presença, nosso apoio, nosso afeto. Jesus “tocou” nos ouvidos e na língua daquele homem surdo. Existe a comunicação por meio de palavras e existe a comunicação por meio de gestos e de atitudes. Nós precisamos ser tocados para saber que existimos. Quando foi a última vez que você tocou no seu cônjuge, no seu filho, nos seus pais, nos seus irmãos? Você tem disposição e coragem para se aproximar e tocar numa pessoa que sofre, que se sente rejeitada por todos, que é ignorada devido à indiferença social em que vivemos hoje?
            Depois de tocar nos ouvidos e na língua daquele homem surdo, Jesus “olhando para o céu, suspirou e disse: ‘Efatá!’, que quer dizer: ‘Abre-te!’ Imediatamente seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade” (Mc 7,34-35). Hoje Jesus, por meio da sua Palavra, está tocando em nossa boca e em nossos ouvidos, e dizendo “Abre-te!” Nossos ouvidos se tornaram surdos para a Palavra de Deus, seja porque ouvimos a Palavra desatentos, seja porque a ouvimos com os ouvidos, mas não com o coração, e a palavra “Abre-te!” se dirige muito mais ao nosso coração do que aos nossos ouvidos.
            Contudo, não são somente os nossos ouvidos que precisam se abrir para o Senhor. Nossa língua precisa se destravar. Há inúmeras pessoas necessitando de uma palavra de conforto da nossa parte, uma palavra de ânimo, de coragem, de orientação. “Dizei às pessoas deprimidas: ‘Criai ânimo, não tenhais medo!’” (Is 35,4). No final de cada missa, de cada celebração, cada um de nós é enviado por Jesus a comunicar fé, esperança e amor a tantas pessoas que não têm nenhum contato com o Evangelho. Aqui na missa o Senhor Jesus abre os nossos ouvidos e nos ensina, nos forma como Seus discípulos, para que possamos, ao sair daqui, levar uma palavra de conforto a toda pessoa abatida (cf. Is 50,4). Da mesma forma como não podemos nos fazer de surdos aqui dentro, não podemos nos fazer de mudos lá fora.   
            Portanto, Jesus está dizendo a cada um de nós: “Abre-te!” ‘Abra os teus ouvidos! O falar depende do ouvir. Escute a minha Palavra. Escute o clamor daqueles que sofrem!’ Uma Igreja que não escuta o sofrimento das pessoas não tem nada de significativo a dizer a essas mesmas pessoas. Uma Igreja que não escuta aquilo que a realidade está lhe gritando, tornar-se uma Igreja que fala palavras vazias, palavras sem sentido, palavras que não chegam ao coração das pessoas, palavras que não se traduzem em bálsamo para as feridas da humanidade. “Abre-te!” ‘Abra a tua boca! Fale da minha Palavra ao seu irmão, porque a fé depende do anúncio do meu Evangelho (cf. Rm 10,17), e talvez você seja a única forma de contato que o seu irmão pode ter com o meu Evangelho’.
“Efatá! Abre-te!” – é o clamor de Jesus à nossa Igreja, a cada um de nós. Ao quê estamos fechados? Ao quê precisamos nos abrir?

            Oração: Senhor Jesus, toca nos meus ouvidos e abre o meu coração para que eu aprenda a escutar tua Palavra como verdadeiro(a) discípulo(a). Toca na minha boca e ensina-me a levar palavras de conforto a toda pessoa que se encontra abatida e desanimada. Quero aprender a me comunicar melhor com aqueles que estão perto de mim. Quero, não somente com as minhas palavras, mas principalmente com o meu comportamento e as minhas atitudes, derrubar o muro da indiferença que me separa das pessoas, e construir a ponte do afeto, do toque, da presença, fazendo-me próximo(a) afetivamente daqueles com os quais convivo no meu dia a dia. Abre os meus olhos, Senhor, para que enxergue o que preciso enxergar. Abre os meus ouvidos, para que eu ouça o que preciso ouvir. Toca em meus pés, para que eu caminhe na direção da verdade e não fuja daquilo que sou chamado(a) a enfrentar. Toca em minhas mãos, para que elas se abram para socorrer aqueles que precisam de mim. Toca em meu coração, para romper aquilo que está represado e mim e precisa voltar a fluir. Que as minhas palavras e as minhas atitudes comuniquem fé, esperança e amor a todos aqueles com quem eu cruzar no caminho da minha vida. Amém.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

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