sexta-feira, 1 de setembro de 2017

A ILUSÓRIA PRETENSÃO DE TORNAR-SE IMUNE À DOR

Missa do 22º. dom. comum. Palavra de Deus: Jeremias 20,7-9; Romanos 12,1-2; Mateus 16,21-27.

            Sofrer nem sempre é uma escolha; quando muito, você pode apenas escolher a forma de lidar com determinado sofrimento. Muitas pessoas chegam a se revoltar contra Deus diante do sofrimento de uma criança, por exemplo, alegando que ela não fez mal algum para sofrer. Para essas pessoas, é totalmente absurdo e sem sentido que uma pessoa boa, inocente e “pura” tenha que passar por algum sofrimento. Elas se esquecem de que não existe vida sem dor: ninguém passa pela vida sem lidar com algum tipo de sofrimento. É por isso que o Evangelho de hoje nos convida a repensar a maneira como entendemos a presença da cruz em nossa vida ou na vida das pessoas que nós amamos.
            Jesus sempre procurou viver com os pés no chão, sendo realista e mantendo-se consciente daquilo que lhe cabia enfrentar. Ele escolheu acolher a vida, não fugir dela; escolheu crescer, não atrofiar-se; escolheu abrir-se à vontade do Pai, não fechar-se no seu próprio egoísmo. Justamente por isso, decidiu deixar os discípulos conscientes do sofrimento que lhe cabia enfrentar. Para tanto, usou uma palavra muito pequena, mas cheia de significado; a palavra dever: “Jesus começou a mostrar a seus discípulos que devia ir à Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da Lei, e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia” (Mt 16,21).
            Quando eu digo que devo lidar com determinado sofrimento, é porque tenho consciência de que ele faz parte das minhas escolhas, das minhas decisões, da minha vocação, do estado de vida que abracei. Eu devo enfrentar aquela situação porque é responsabilidade minha resolvê-la; minha e não de outra pessoa. Eu devo carregar essa cruz por respeito à minha consciência e por coerência à minha verdade como pessoa e como filho de Deus. Dizendo de outra maneira, se eu desejo crescer e amadurecer como pessoa, se desejo superar determinada dificuldade, se desejo me santificar e me tornar um cristão melhor, existem situações que eu devo enfrentar, dores com as quais eu devo lidar, renúncias que eu devo fazer. Simples assim.
            Mas quem está disposto a lidar com a dor? Aí entra a reação de Pedro: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isto nunca te aconteça!” (Mt 16,22). Quem de nós não se identifica com Pedro? A reação mais natural e instintiva em todos nós, seres humanos, é a repulsa à dor, a rejeição ao sofrimento e a todo tipo de cruz, uma rejeição tão grande que nós “naturalmente” a transferimos para Deus, afirmando: “Deus não permita tal coisa!” Segundo a nossa maneira de pensar, onde está Deus não pode estar a cruz, a dor, o sofrimento. Por isso, os “comerciantes” de religião que mais fazem sucesso hoje são os que “vendem” a imagem de um deus que nos quer “felizes”, um deus que não quer que soframos. “Deus não quer que você sofra!” – quem de nós já não ouviu essas sedutoras palavras?
            Reagindo duramente a essa mentalidade mundana de Pedro (“Deus não quer que você sofra!”), Jesus lhe disse: “Vá para trás de mim! Você me escandaliza com a sua imagem de Deus! Você pensa a vida segundo o mundo, não segundo Deus!” (citação livre de Mt 16,23). “Vá para trás de mim!” – foi exatamente isso que Jesus disse a Pedro, segundo a expressão original (em grego) do Evangelho. O nosso lugar é exatamente atrás de Jesus, seguindo-O, aprendendo com Ele a lidar com a nossa própria cruz. “Você me escandaliza” – essa é também a exata expressão original do texto em grego. Sempre que eu uso Deus para justificar a minha covardia diante da vida, acabo por escandalizar as pessoas que creem n’Ele. Toda pessoa que está à frente de outras e que se mostra profundamente imatura e inconsequente na maneira de lidar com seu próprio sofrimento, é um desserviço à humanidade, um “escândalo”, porque passa para os demais a ideia de que o sofrimento não deveria existir quando, na verdade, ele faz parte da vida de qualquer pessoa.
            Para o mundo atual, é escandaloso um Deus que permite o sofrimento na humanidade; para Jesus, é escandalosa a tentativa de fazer de Deus uma caricatura a serviço do bem estar das pessoas, reduzindo-O a uma droga capaz de mantê-las distantes da realidade. Para Jesus, aquilo que acaba com a nossa fé não é o confronto com a cruz, mas a pretensão de esperar de Deus uma garantia absoluta contra a dor. Por isso, Jesus nos convida a rever a nossa maneira de entender a vida. A vida existe para ser vivida e enfrentada, não lamentada. A cruz existe para ser carregada, não amaldiçoada. Cada um de nós precisa se colocar no seu lugar, e o nosso lugar não é na frente de Jesus, dizendo-lhe pretensiosamente o que Ele deve fazer por nós; o nosso lugar é atrás de Jesus, aprendendo com Ele a lidar de uma maneira madura e responsável com a dor que, porventura, possa cruzar o nosso caminho ou o caminho do nosso irmão.
            Talvez essas sejam as palavras mais conhecidas do Evangelho: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mt 16,24). A vida é sempre uma “provocação” à  nossa liberdade. “Se alguém quer”, disse Jesus. Ninguém está obrigado a crescer e a amadurecer; ninguém está obrigado a deixar de se comportar como uma criança mimada perante a vida. O Evangelho é sempre um convite aberto a todos aqueles que desejam enxergar a vida para além do próprio umbigo, que desejam superar-se e santificar-se, que desejam ir além da pergunta vitimista “Por que comigo?”, e terem a coragem de se perguntar “Por que não comigo?”: Por que os outros podem sofrer, mas eu não? Por que a cruz pode atravessar a vida dos outros, mas não a minha? Se nem Jesus passou pelo mundo ileso em relação ao sofrimento, por que alguns de nós queremos ter esse privilégio?
            Uma palavra final: “Renuncie a si mesmo”. Somos pessoas capazes de renunciar? Toda renúncia é, de certa forma, uma “agressão” ao nosso ego, um “não” que dizemos a nós mesmos, uma “frustração” que causamos aos nossos desejos e caprichos. Toda renúncia é um “podar-se”, lembrando que a poda é sempre em vista da produção de um fruto melhor. Pessoas capazes de renunciar tornam-se mais fortes humana e espiritualmente; tornam-se capazes de atingir seus objetivos, porque suas energias psíquicas e espirituais estão canalizadas para a meta a que são chamadas a alcançar. Aprendamos com Jesus a renunciar a tudo aquilo que é necessário para que nos tornemos seres humanos melhores, cristãos melhores. Desse modo, estaremos também ajudando outras pessoas a corrigirem a imagem de Deus que carregam dentro de si e, consequentemente, a forma como elas lidam com a sua própria cruz.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

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