sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

POBREZA E HUMILDADE: VALORES ESPIRITUAIS POUCO DESEJADOS

 Homilia do 4º dom. comum. Palavra de Deus: Sofonias 2,3; 3,12-13; 1Coríntios 1,26-31; Mateus 5,1-12a.

 

            Muitas pessoas criticam aqueles que têm uma religião, dizendo: “Religião é coisa para gente fracassada”. De fato, quanto maior o nível intelectual e financeiro de algumas pessoas, menos elas buscam a Deus numa instituição religiosa. E nós, por que estamos vamos com frequência a uma igreja? “Considerai vós mesmos, irmãos, como fostes chamados por Deus. Pois entre vós não há muitos sábios de sabedoria humana nem muitos poderosos nem muitos nobres” (1Cor 1,26). A grande maioria das pessoas que procura por uma igreja ou religião é movida por necessidades não somente espirituais, mas também temporais: saúde, proteção, consolo, amparo, restauração afetiva/financeira etc. A pergunta que fica é: se não fôssemos pessoas necessitadas, iríamos a uma igreja com frequência?

            Na verdade, todo ser humano é necessitado; toda pessoa, cedo ou tarde, experimenta sua insuficiência e sua necessidade de ser salva, em vários momentos da vida. Por isso, o profeta Sofonias nos convida à humildade e ao reconhecimento de que somos pobres e, portanto, necessitados: “Buscai o Senhor, humildes da terra; praticai a justiça, procurai a humildade” (Sf 2,3). Para a Bíblia, a pessoa humilde e pobre coloca diariamente sua esperança no Senhor e somente n’Ele. Ela não se ilude com os bens que porventura possa ter, nem com suas capacidades humanas, mas sabe reconhecer que, se lhe faltar a graça de Deus, ela nada pode.

            O mundo atual exalta o poder, a força, o sucesso e a vitória, mas o Deus em quem nós cremos escolheu se colocar junto das pessoas que não podem experimentar nada disso. Ele, na verdade, “faz justiça aos que são oprimidos; ele dá alimento aos famintos, é o Senhor quem liberta os cativos. O Senhor abre os olhos aos cegos o Senhor faz erguer-se o caído” (Sl 146,7-8). Essa preferência de Deus pelos que sofrem foi explicada pelo apóstolo Paulo dessa forma: “Deus escolheu o que o mundo considera como fraco, para assim confundir o que é forte; Deus escolheu o que para o mundo é sem importância e desprezado, o que não tem nenhuma serventia, para assim mostrar a inutilidade do que é considerado importante” (1Cor 1,27-28).

            É aqui que nos damos conta do quanto os nossos valores estão invertidos. Vivemos correndo atrás de construir uma imagem nossa que seja forte, e não fraca; gastamos tempo, dinheiro e energia emocional para nos tornarmos importantes aos olhos dos outros, para não nos sentirmos desvalorizados, mas tudo isso nos afasta da nossa verdade: somos fracos, impotentes e necessitados; a nossa cura, a nossa salvação, não acontece quando vestimos uma armadura de ferro, mas quando nos despimos dela e nos permitimos ser humanos verdadeiramente.

            Ao vir ao mundo, Jesus se despojou da glória divina e assumiu a carne humana em toda a sua fragilidade (cf. Fl 2,6-8). Ao inaugurar o Sermão da Montanha, uma síntese do seu Evangelho, ele não só descreveu a si mesmo, como deixou claro como quer que seus discípulos sejam: pobres em espírito (colocam sua esperança unicamente em Deus); aflitos (sofrem com os que sofrem); mansos (se distanciam da violência); com fome e sede de justiça (trabalham por um mundo mais justo); misericordiosos (se compadecem das misérias dos outros); promovendo a paz (não se iludem com a força das armas); aceitando sofrer perseguição e humilhação por viverem de maneira honesta, justa, verdadeira, segundo o Evangelho de nosso Senhor. 

            Diante da Palavra ouvida, façamos nossa oração:

 

Senhor Jesus Cristo, teu Evangelho me convida a percorrer um caminho interior de busca pelo fundamental. Eu preciso de um fundamento para viver, e esse fundamento consiste em colocar minha esperança unicamente em Deus e viver com humildade no meu dia a dia, buscando a justiça e não o poder que engana, adoece e destrói valores fundamentais na minha vida. Ensina-me a amar a minha fraqueza, pois é a partir dela que a força do Pai age em mim. Liberta-me da busca enganadora por poder e importância neste mundo de valores invertidos. Forma em mim o coração de um(a) verdadeiro(a) discípulo(a), através do ensinamento diário do teu Evangelho, e guarda-me para o Reino dos Céus. Amém.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

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