Homilia do 4º dom. comum. Palavra de Deus: Sofonias 2,3; 3,12-13; 1Coríntios 1,26-31; Mateus 5,1-12a.
Muitas pessoas criticam aqueles que
têm uma religião, dizendo: “Religião é coisa para gente fracassada”. De fato,
quanto maior o nível intelectual e financeiro de algumas pessoas, menos elas
buscam a Deus numa instituição religiosa. E nós, por que estamos vamos com
frequência a uma igreja? “Considerai vós mesmos, irmãos, como fostes chamados
por Deus. Pois entre vós não há muitos sábios de sabedoria humana nem muitos
poderosos nem muitos nobres” (1Cor 1,26). A grande maioria das pessoas que
procura por uma igreja ou religião é movida por necessidades não somente
espirituais, mas também temporais: saúde, proteção, consolo, amparo,
restauração afetiva/financeira etc. A pergunta que fica é: se não fôssemos
pessoas necessitadas, iríamos a uma igreja com frequência?
Na verdade, todo ser humano é
necessitado; toda pessoa, cedo ou tarde, experimenta sua insuficiência e sua
necessidade de ser salva, em vários momentos da vida. Por isso, o profeta
Sofonias nos convida à humildade e ao reconhecimento de que somos pobres e,
portanto, necessitados: “Buscai o Senhor, humildes da terra; praticai a
justiça, procurai a humildade” (Sf 2,3). Para a Bíblia, a pessoa humilde e
pobre coloca diariamente sua esperança no Senhor e somente n’Ele. Ela não se
ilude com os bens que porventura possa ter, nem com suas capacidades humanas,
mas sabe reconhecer que, se lhe faltar a graça de Deus, ela nada pode.
O mundo atual exalta o poder, a
força, o sucesso e a vitória, mas o Deus em quem nós cremos escolheu se colocar
junto das pessoas que não podem experimentar nada disso. Ele, na verdade, “faz
justiça aos que são oprimidos; ele dá alimento aos famintos, é o Senhor quem
liberta os cativos. O Senhor abre os olhos aos cegos o Senhor faz
erguer-se o caído” (Sl 146,7-8). Essa preferência de Deus pelos que sofrem foi
explicada pelo apóstolo Paulo dessa forma: “Deus escolheu o que o mundo
considera como fraco, para assim confundir o que é forte; Deus escolheu o
que para o mundo é sem importância e desprezado, o que não tem nenhuma
serventia, para assim mostrar a inutilidade do que é considerado importante”
(1Cor 1,27-28).
É aqui que nos damos conta do quanto
os nossos valores estão invertidos. Vivemos correndo atrás de construir uma
imagem nossa que seja forte, e não fraca; gastamos tempo, dinheiro e energia
emocional para nos tornarmos importantes aos olhos dos outros, para não nos
sentirmos desvalorizados, mas tudo isso nos afasta da nossa verdade: somos fracos,
impotentes e necessitados; a nossa cura, a nossa salvação, não acontece quando
vestimos uma armadura de ferro, mas quando nos despimos dela e nos permitimos
ser humanos verdadeiramente.
Ao vir ao mundo, Jesus se despojou
da glória divina e assumiu a carne humana em toda a sua fragilidade (cf. Fl
2,6-8). Ao inaugurar o Sermão da Montanha, uma síntese do seu Evangelho, ele não
só descreveu a si mesmo, como deixou claro como quer que seus discípulos sejam:
pobres em espírito (colocam sua esperança unicamente em Deus); aflitos (sofrem
com os que sofrem); mansos (se distanciam da violência); com fome e sede de
justiça (trabalham por um mundo mais justo); misericordiosos (se compadecem das
misérias dos outros); promovendo a paz (não se iludem com a força das armas);
aceitando sofrer perseguição e humilhação por viverem de maneira honesta,
justa, verdadeira, segundo o Evangelho de nosso Senhor.
Diante da Palavra ouvida, façamos
nossa oração:
Senhor Jesus Cristo, teu Evangelho me
convida a percorrer um caminho interior de busca pelo fundamental. Eu preciso
de um fundamento para viver, e esse fundamento consiste em colocar minha
esperança unicamente em Deus e viver com humildade no meu dia a dia, buscando a
justiça e não o poder que engana, adoece e destrói valores fundamentais na
minha vida. Ensina-me a amar a minha fraqueza, pois é a partir dela que a
força do Pai age em mim. Liberta-me da busca enganadora por poder e importância
neste mundo de valores invertidos. Forma em mim o coração de um(a)
verdadeiro(a) discípulo(a), através do ensinamento diário do teu Evangelho, e
guarda-me para o Reino dos Céus. Amém.
Pe.
Paulo Cezar Mazzi
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