Missa do 22º dom. comum. Palavra de Deus: Eclesiástico 3,19-21.30-31; Hebreus 12,18-19.22-24a; Lucas 14,1.7-14.
Com muita frequência, os evangelhos
nos falam de Jesus à mesa, fazendo refeição com outras pessoas. Essas refeições
eram ocasião não só para Jesus estreitar seu laço com as pessoas, mas também
para ele ensinar algo importante a respeito do Reino de Deus. Aliás, no
evangelho de domingo passado (Lc 13,22-30), Jesus afirmou: “Virão homens do
oriente e do ocidente, do norte e do sul, e tomarão lugar à mesa no Reino de
Deus” (Lc 13,28).
O evangelho de hoje acabou de nos
apresentar Jesus como convidado de uma refeição na casa de um dos chefes dos
fariseus. Ali, “Jesus notou como os convidados escolhiam os primeiros lugares”
(Lc 14,7). O que está por trás dessa atitude? Qual lugar você escolheria: entre
os primeiros, ou entre os últimos? Não há dúvida de que, o tempo todo, nós
somos provocados a estar entre os primeiros, nunca entre os últimos! Além de
vivermos numa sociedade competitiva, a indústria do consumo, em vista de lucrar
conosco, nos convence, através de propagandas enganadoras, que a felicidade só
se encontra entre os primeiros; nunca entre os últimos. E nós acabamos caindo
no erro de pensar que nós só temos valor se conseguirmos ocupar um dos
primeiros lugares.
O problema é que existe um preço a
pagar para você ocupar um dos primeiros lugares. Esse preço pode custar a sua
saúde física e mental, a sua paz de espírito, o seu caráter, o seu casamento, a
relação com os seus filhos, a sua espiritualidade, os valores do evangelho etc.
Ainda que você esteja disposto a pagar o preço, assim que você ocupa o seu
lugar entre os primeiros, a sociedade da aparência muda o conceito de “primeiros
lugares”, e aí vai você novamente correr atrás daquilo que todo mundo está correndo,
endividando-se, atormentando-se, desgastando-se, para não ficar para trás e não
sentir-se entre os últimos.
A questão, na verdade, não é saber se
você hoje está ocupando um lugar entre os primeiros ou entre os últimos, mas se
o lugar que você escolheu ocupar te deixa perto ou longe de Deus. O Salmo da
missa de hoje deixa claro que Deus escolheu se colocar junto daqueles que não
têm lugar neste mundo: os órfãos, as viúvas, os deserdados, os prisioneiros.
Exatamente para aquelas pessoas, para as quais não há lugar, ou seja, não há
atenção, nem cuidado, nem consideração, Deus escolher ser lugar, acolher,
proteger, amparar, defender, alimentar. Essa foi também a escolha do Pe. Júlio
Lancelotti: “Sou um padre cancelado, porque ando com pessoas que também são
‘canceladas’ pela sociedade. Quero estar do lado dessas pessoas, das que são
pisadas pelo poder. Quero ser uma delas e não ser as pessoas que pisam. É
preciso amar os que não são amados, e servir os que ninguém quer servir. É
preciso estar do lado de quem ninguém quer estar”.
A busca pelos primeiros lugares é a
busca pela visibilidade. Essa busca se tornou doentia com as redes sociais.
Para ganhar visibilidade, algumas pessoas chegam a fazer coisas absurdas. O
importante é que sua postagem ganhe o maior número possível de curtidas e de
visualizações. São pessoas escravas do reconhecimento dos outros. A busca doentia
pela visibilidade alcançou também pessoas religiosas, cristãs, que deixaram de
seguir Jesus, em seu caminho de humildade, e passaram a se preocupar em fazer
aumentar o número dos seus próprios seguidores. Ainda que falem de Deus, pregam
a si mesmas e prestam culto à sua própria necessidade de reconhecimento.
O contrário da busca por visibilidade é
a humildade. “Na medida em que fores grande, deverás praticar a humildade, e
assim encontrarás graça diante do Senhor. Muitos são altaneiros e ilustres, mas
é aos humildes que ele revela seus mistérios” (Eclo 3,20). Deus não cabe no
coração de uma pessoa cheia de si, com um ego inflado. Humildade vem de húmus,
terra, o que significa que a pessoa humilde não vive fazendo propaganda das
suas folhas e dos seus frutos (aspectos externos), mas cuida das suas raízes
(daquilo que está escondido e que ninguém vê). Enquanto a preocupação com a
visibilidade faz de nós pessoas superficiais, o cultivo da humildade faz de nós
pessoas profundas, que não tombam diante dos ventos contrários porque têm um
alicerce interior.
Depois de nos aconselhar a respeito
da humildade, Jesus nos fala de outro valor importante: a gratuidade. “Quando
deres uma festa, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos. Então
tu serás feliz! Porque eles não te podem retribuir. Tu receberás a recompensa
na ressurreição dos justos” (Lc 14,13-14). Aqui está o segredo da verdadeira alegria:
dar a quem não pode nos devolver; ajudar gratuitamente, sem esperar por
recompensa ou reconhecimento; fazer um trabalho voluntário sem divulga-lo nas
redes sociais para recebermos elogios. “Então tu serás feliz!”. Quanto mais nos
voltamos para nós mesmos, girando em torno da necessidade de reconhecimento e
de visibilidade, mais infelizes nos sentimos. Quanto mais amamos quem não é
amado e mais nos colocamos junto daqueles que o mundo ignora, mais nos sentimos
felizes, porque estamos onde Deus escolheu estar.
Pe.
Paulo Cezar Mazzi
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