Homilia do 22º dom. comum. Palavra de Deus: Jeremias 20,7-9; Romanos 12,1-2; Mateus 16,21-27.
“Você não pensa as coisas de Deus, mas sim as
coisas dos homens” (Mt 16,23). Como nós, seres humanos, pensamos a vida? A
partir do perigoso princípio do prazer. Segundo esse princípio, viver significa
experimentar ao máximo o prazer, a felicidade, e nos manter o quanto possível
distantes da dor. Para o mundo de hoje, “a vida deve ser equipada de tal modo
que ela esteja ‘armada’ a todo o momento para o confronto com a dor. O corpo que
busca constantemente o prazer, o bem-estar, assume uma constante posição de
recusa diante da dor. A ele, a dor aparece como inteiramente desprovida de
sentido e de utilidade” (Byung-Chull Han, Sociedade paliativa).
Em outras palavras, a dor não serve para nada
e, portanto, deve ser eliminada. No entanto, o mesmo mundo que fabrica
analgésicos e “vende” felicidade através do consumo nos adoece sempre mais,
porque não nos prepara para a dor. Os pais de hoje fazem de tudo para manter
seus filhos longe da dor e, desse modo, não os prepara para a vida. Quando
tiverem que enfrentar a dor, fugirão dela escondendo-se atrás das drogas, de
bebidas alcoólicas e do suicídio. Quem se suicida não quer destruir-se; quer
apenas calar a voz da dor, cujo grito não suporta mais ouvir.
Pedro, ao tomar consciência de que Jesus “devia ir a Jerusalém
e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da Lei, e que devia
ser morto e ressuscitar no terceiro dia” (Mt 16,21), reagiu violentamente
contra essas palavras de Jesus: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Que
isso nunca te aconteça!” (Mt 16,22). Essa reação é também a nossa. Com
frequência, invocamos Deus para livrar do sofrimento não somente a nós, mas
também às pessoas que amamos. Mas, e se determinado sofrimento faz parte do nosso
“eu devo”, isto é, da nossa fidelidade à missão que somos?
Jesus
não veio ao mundo para sofrer, mas quis estar junto de quem sofre. Ele também
não veio incentivar a humanidade a buscar constantemente a dor, mas a não fugir
dela quando é o momento de enfrentá-la. Viver dói. Só sente dor quem está vivo.
Além disso, ninguém se torna “gente” sem passar por alguma experiência de dor.
Na verdade, a vida nasce da dor: dor do parto, dor da semente que morre para
germinar e frutificar, dor de quem decide mudar porque não aceita mais as
coisas como são. Só a dor nos humaniza e nos torna solidários com quem sofre.
A
maneira como Jesus lidou com a dor nos ensina que a pergunta correta diante da
dor não é “Por que isso comigo?”, mas “Por que não comigo?”. Por que nos
consideramos tão “especiais” ou melhores do que os outros que são atingidos por
duros sofrimentos neste mundo? Por sua vez, Victor Frankl afirmou: “O
sofrimento deixa de ser sofrimento no momento em que encontra um sentido”. O
ser humano possui liberdade interior para decidir sempre o que fará com aquilo
que lhe aconteceu. “O sofrimento que encontra sentido não deixa de doer, mas
deixa de ser apenas escuridão, e passa a carregar, ainda que discretamente, uma
possibilidade de transformação” (Elaine Castelo Branco).
A
dor, dependendo da maneira como lido com ela, pode ser uma oportunidade de eu
me transformar num ser humano melhor. Se eu não aceito nenhum tipo de dor, não
consigo ser fiel a nada e a ninguém, nem a mim mesmo. Quando meu principal
objetivo de vida é não sofrer, é me manter distante o máximo possível da dor,
eu me torno incapaz de fidelidade. Nenhuma fidelidade é possível para uma
pessoa que não aceita sofrer.
“Se
alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mt
16,24). “Renuncie a si mesmo”. Somos pessoas capazes de
renunciar? Toda renúncia é, de certa forma, uma “agressão” ao nosso ego, um
“não” que dizemos a nós mesmos, uma “frustração” que causamos aos nossos
desejos e caprichos. Toda renúncia é um “podar-se”, lembrando que a poda é sempre
em vista da produção de um fruto melhor. Pessoas capazes de renunciar tornam-se
mais fortes humana e espiritualmente; tornam-se capazes de atingir seus
objetivos, porque suas energias psíquicas e espirituais estão canalizadas para
a meta a que são chamadas a alcançar. Aprendamos com Jesus a renunciar a tudo
aquilo que é necessário para que nos tornemos seres humanos melhores, cristãos
melhores, discípulos fiéis.
Pe. Paulo Cezar Mazzi
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