Homilia do 15º dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 55,10-11; Romanos 8,18-23; Mateus 13,1-23.
Deus escolheu se revelar a nós por
meio da Palavra: “Escuta, Israel” (Dt 6,4). O Deus em quem nós cremos é o Deus
da Palavra, o Deus que é Palavra. Se o ser humano interroga, pergunta e busca o
sentido, Deus é Palavra que responde às interrogações do nosso coração, à nossa
busca por sentido. Ouvi-Lo significa viver: “Se não me falas, sou como aqueles
que morrem” (Sl 28,1).
Depois de ter falado à humanidade por
meio dos profetas, o Pai quis falar conosco por meio de seu Filho (cf. Hb
1,1-2), a “palavra que se fez pessoa humana” (Jo 1,14). De fato, é por meio de
Jesus que entendemos que a Palavra é uma Pessoa! O Pai dialoga conosco por meio
do Filho, e espera a nossa resposta, o nosso “amém” à sua Palavra.
Deus sempre cumpre o que diz: “A
palavra que sair de minha boca não voltará para mim vazia; antes, realizará
tudo que for de minha vontade e produzirá os efeitos que pretendi, ao enviá-la”
(Is 55,11). Em contrapartida, o fruto da Palavra semeada em nossos corações
depende do tipo de acolhida (escuta) que ela recebe da nossa parte. Por isso,
frequentemente Jesus diz, ao terminar um ensinamento: “Quem tem ouvidos, ouça!”
(Mt 13,9).
Como está a nossa capacidade de ouvir?
A pressa nos faz ler mensagens sem prestar atenção ao que elas dizem. A nossa
atenção, sempre dispersa, nos impede de meditar e refletir sobre o que Deus
está nos falando. Jesus constata, não sem tristeza, a nossa indisposição em
ouvir a sua palavra: “O coração deste povo se tornou insensível. Eles ouviram
com má vontade” (Mt 13,15). É exatamente a nossa atitude perante a Palavra
(indiferença, recusa, desprezo, acolhimento) que define o nosso lugar no Reino
de Deus.
“Todo aquele que ouve a palavra do Reino
e não a compreende, vem o Maligno e rouba o que foi semeado em seu coração” (Mt
13,19). Compreender significa “abarcar em si mesmo”; “carregar em sua essência”.
Maria é o modelo perfeito de escuta da Palavra: “Faça-se em mim segundo a tua
palavra!” (Lc 1,38). O excesso de informação nos indispõe à escuta, ao ouvir. Quem
está saturado de palavras humanas não tem predisposição para ouvir o Deus que é
Palavra. Além disso, devemos ter consciência de que o Maligno trabalha
incessantemente para não acolhermos a Palavra de Deus em nós. Manter-nos
dispersos e distraídos é a sua tarefa principal, na liturgia da Palavra.
“A semente que caiu em terreno pedregoso
é aquele que ouve a palavra e logo a recebe com alegria; mas ele não tem raiz
em si mesmo, é de momento: quando chega o sofrimento ou a perseguição, por
causa da palavra, ele desiste logo” (Mt 13,20-21). Aqui já existe um acolhimento,
uma escuta da Palavra. O problema é o entusiasmo passageiro. A Palavra ouvida
precisa de tempo para “criar raiz” em nós, mas somos pessoas impacientes. Não
aceitamos ter que esperar, até que a Palavra germine e dê frutos em nós. Somos
pessoas imediatistas, que desistem fácil e rapidamente. Não admitimos sofrer e
ser humilhados por vivermos de acordo com a Palavra de Deus.
“A semente que caiu no meio dos espinhos
é aquele que ouve a palavra, mas as preocupações do mundo e a ilusão da riqueza
sufocam a palavra, e ele não dá fruto” (Mt 19,22). Num copo cheio não cabe mais
nada. Numa pessoa que vive ocupada em trabalhar para ganhar dinheiro, para
pagar contas ou acumular; numa pessoa que prioriza o material e despreza o
espiritual, que é escrava do consumismo e da disputa por seguidores nas redes
sociais, não tem tempo para as palavras de Jesus, que “são espírito e vida” (Jo
6,63).
“A semente que caiu em boa terra é
aquele que ouve a palavra e a compreende. Esse produz fruto. Um dá cem, outro
sessenta e outro trinta” (Mt 13,23). Ainda que a terra que somos tenha
diversidade de terrenos, devemos confiar que há um espaço adequado em nós que
deseja, que espera pela Palavra. Dentro de cada um de nós há um lugar sedento
pela água viva da Palavra, um lugar ferido que aguarda o remédio da Palavra, um
lugar habitado pela morte, e que anseia pela ressurreição que só a Palavra pode
realizar.
Segundo Nilson Perissé, esses quatro
tipos de terrenos, abordados por Jesus na Parábola do Semeador, não significam
quatro tipos de pessoas, mas quatro tipos de situações emocionais em que nos
encontramos diariamente. Há momentos em que o nosso coração está endurecido
pela pressa; em outros, é raso, superficial, facilmente entusiasmado e logo
esgotado; em outros ainda, sufocado por preocupações que disputam espaço com o
essencial. Assim como o clima da alma muda, a vida espiritual conhece períodos
de aridez e de fecundidade, sem seguir uma linha reta. A semente exige
paciência. Nosso progresso espiritual também.
A responsabilidade que nos cabe, diante
da semente/Palavra é cuidar do solo que somos, tornando-o pouco a pouco mais
macio, mais silencioso, mais disponível. Se Deus é Palavra, Ele só pode habitar
em nós por meio do silêncio, um silêncio que é abertura à sua graça, um
permitir que seus passos de Semeador pisem sobre o solo do nosso coração e
possa nos ajudar a limpá-lo, adubá-lo, regá-lo e cultivá-lo, para que o fruto
da salvação seja colhido no chão da nossa vida.
Pe. Paulo Cezar Mazzi
Nenhum comentário:
Postar um comentário