quinta-feira, 9 de julho de 2026

SEM A ESCUTA DA PALAVRA, NÓS MORREMOS INTERIORMENTE

             Homilia do 15º dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 55,10-11; Romanos 8,18-23; Mateus 13,1-23.

 

            Deus escolheu se revelar a nós por meio da Palavra: “Escuta, Israel” (Dt 6,4). O Deus em quem nós cremos é o Deus da Palavra, o Deus que é Palavra. Se o ser humano interroga, pergunta e busca o sentido, Deus é Palavra que responde às interrogações do nosso coração, à nossa busca por sentido. Ouvi-Lo significa viver: “Se não me falas, sou como aqueles que morrem” (Sl 28,1).

Depois de ter falado à humanidade por meio dos profetas, o Pai quis falar conosco por meio de seu Filho (cf. Hb 1,1-2), a “palavra que se fez pessoa humana” (Jo 1,14). De fato, é por meio de Jesus que entendemos que a Palavra é uma Pessoa! O Pai dialoga conosco por meio do Filho, e espera a nossa resposta, o nosso “amém” à sua Palavra.

            Deus sempre cumpre o que diz: “A palavra que sair de minha boca não voltará para mim vazia; antes, realizará tudo que for de minha vontade e produzirá os efeitos que pretendi, ao enviá-la” (Is 55,11). Em contrapartida, o fruto da Palavra semeada em nossos corações depende do tipo de acolhida (escuta) que ela recebe da nossa parte. Por isso, frequentemente Jesus diz, ao terminar um ensinamento: “Quem tem ouvidos, ouça!” (Mt 13,9).

            Como está a nossa capacidade de ouvir? A pressa nos faz ler mensagens sem prestar atenção ao que elas dizem. A nossa atenção, sempre dispersa, nos impede de meditar e refletir sobre o que Deus está nos falando. Jesus constata, não sem tristeza, a nossa indisposição em ouvir a sua palavra: “O coração deste povo se tornou insensível. Eles ouviram com má vontade” (Mt 13,15). É exatamente a nossa atitude perante a Palavra (indiferença, recusa, desprezo, acolhimento) que define o nosso lugar no Reino de Deus.

“Todo aquele que ouve a palavra do Reino e não a compreende, vem o Maligno e rouba o que foi semeado em seu coração” (Mt 13,19). Compreender significa “abarcar em si mesmo”; “carregar em sua essência”. Maria é o modelo perfeito de escuta da Palavra: “Faça-se em mim segundo a tua palavra!” (Lc 1,38). O excesso de informação nos indispõe à escuta, ao ouvir. Quem está saturado de palavras humanas não tem predisposição para ouvir o Deus que é Palavra. Além disso, devemos ter consciência de que o Maligno trabalha incessantemente para não acolhermos a Palavra de Deus em nós. Manter-nos dispersos e distraídos é a sua tarefa principal, na liturgia da Palavra.

“A semente que caiu em terreno pedregoso é aquele que ouve a palavra e logo a recebe com alegria; mas ele não tem raiz em si mesmo, é de momento: quando chega o sofrimento ou a perseguição, por causa da palavra, ele desiste logo” (Mt 13,20-21). Aqui já existe um acolhimento, uma escuta da Palavra. O problema é o entusiasmo passageiro. A Palavra ouvida precisa de tempo para “criar raiz” em nós, mas somos pessoas impacientes. Não aceitamos ter que esperar, até que a Palavra germine e dê frutos em nós. Somos pessoas imediatistas, que desistem fácil e rapidamente. Não admitimos sofrer e ser humilhados por vivermos de acordo com a Palavra de Deus.

“A semente que caiu no meio dos espinhos é aquele que ouve a palavra, mas as preocupações do mundo e a ilusão da riqueza sufocam a palavra, e ele não dá fruto” (Mt 19,22). Num copo cheio não cabe mais nada. Numa pessoa que vive ocupada em trabalhar para ganhar dinheiro, para pagar contas ou acumular; numa pessoa que prioriza o material e despreza o espiritual, que é escrava do consumismo e da disputa por seguidores nas redes sociais, não tem tempo para as palavras de Jesus, que “são espírito e vida” (Jo 6,63).

“A semente que caiu em boa terra é aquele que ouve a palavra e a compreende. Esse produz fruto. Um dá cem, outro sessenta e outro trinta” (Mt 13,23). Ainda que a terra que somos tenha diversidade de terrenos, devemos confiar que há um espaço adequado em nós que deseja, que espera pela Palavra. Dentro de cada um de nós há um lugar sedento pela água viva da Palavra, um lugar ferido que aguarda o remédio da Palavra, um lugar habitado pela morte, e que anseia pela ressurreição que só a Palavra pode realizar.

Segundo Nilson Perissé, esses quatro tipos de terrenos, abordados por Jesus na Parábola do Semeador, não significam quatro tipos de pessoas, mas quatro tipos de situações emocionais em que nos encontramos diariamente. Há momentos em que o nosso coração está endurecido pela pressa; em outros, é raso, superficial, facilmente entusiasmado e logo esgotado; em outros ainda, sufocado por preocupações que disputam espaço com o essencial. Assim como o clima da alma muda, a vida espiritual conhece períodos de aridez e de fecundidade, sem seguir uma linha reta. A semente exige paciência. Nosso progresso espiritual também.

A responsabilidade que nos cabe, diante da semente/Palavra é cuidar do solo que somos, tornando-o pouco a pouco mais macio, mais silencioso, mais disponível. Se Deus é Palavra, Ele só pode habitar em nós por meio do silêncio, um silêncio que é abertura à sua graça, um permitir que seus passos de Semeador pisem sobre o solo do nosso coração e possa nos ajudar a limpá-lo, adubá-lo, regá-lo e cultivá-lo, para que o fruto da salvação seja colhido no chão da nossa vida.   

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

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