Homilia 4º dom. Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 2,14a.36-41, 1Pedro 2,20b-25; João 10,1-10.
Neste domingo do bom Pastor, Jesus
se define como “a porta”. Primeiramente, ele afirma ser a porta para aqueles que
têm a missão de cuidar dos outros: “Quem não entra no redil das ovelhas pela
porta, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante. Quem entra pela porta é
o pastor das ovelhas” (Jo 10,1-2). “Entrar pela porta”, neste primeiro caso,
significa configurar-se a Jesus, tê-lo como único modelo de cuidador, amando
como ele, até o fim, dedicando a existência ao bem das ovelhas, como ele fez.
Mas aqui não podemos nos esquecer de
qual porta é Jesus: “Entrai pela porta estreita, porque largo e espaçoso é o
caminho que conduz à perdição!” (Mt 7,13). Todo cuidador que se espelha em
Jesus deve se lembrar de que a porta das ovelhas é o próprio corpo do pastor.
Durante a noite, ele dorme ali, na porta do redil, porque, se algum animal
quiser se aproximar para ferir ou matar uma ovelha, terá primeiro que enfrentar
o pastor. Portanto, todo cuidador que tem Jesus como modelo de cuidado sabe que
ele mesmo é a proteção do seu rebanho, e que o espírito do mal tem como
principal objetivo ferir o pastor, para, depois, apoderar-se das ovelhas do
rebanho.
Vejamos agora o segundo sentido da
porta: “Eu sou a porta das ovelhas. Quem entrar por mim, será salvo; entrará e
sairá e encontrará pastagem” (Jo 10,7.9). Entrar pela porta que é Jesus é uma
escolha que cada pessoa tem que fazer. A vida nos apresenta inúmeras portas.
Nem todas nos dão acesso ao que é bom. Nem todas nos conduzem à verdadeira
liberdade. Nem todas nos ajudam a encontrar “pastagem”, isto é, meios que
sustentam a nossa vida física, emocional e espiritual. Somente Jesus nos faz “entrar”
em comunhão com o Pai, com o Deus a quem a nossa alma anseia. Somente Jesus nos
faz “sair” de uma situação de escravidão que nos adoece, ou da prisão em que
nós mesmos nos colocamos, por culpa ou por desistência de nós mesmos. Somente
Jesus nos faz “encontrar pastagem”, porque sua Palavra é “espírito e vida” (Jo
6,63), Palavra que nos faz viver a partir de dentro.
Ao longo da vida, nós escolhemos entrar
por muitas portas. Por que será que muitas dessas portas nos conduziram a
situações de destruição? Porque nós nos iludimos com a beleza e a largura da
porta. A escolha de uma porta implica a renúncia a outras portas. Quantas portas
foram deixadas para trás, porque eram estreitas e feias? E, no entanto, elas
nos davam a possibilidade de uma vida mais significativa. Tomemos cuidado com o
medo: ele nos impede de abrirmos muitas portas, e sem abri-las, nós continuamos
a viver presos numa rotina que nos sufoca e nos desencanta. Qual porta a vida
está lhe pedindo para abrir hoje?
Neste domingo do bom Pastor, façamos
nossa a oração do salmista: “Eu me desvio como ovelha perdida: vem procurar o
teu servo!” (Sl 119,176). As inúmeras vozes dos inúmeros influenciadores
digitais falam conosco todos os dias. Além disso, existe a voz da nossa
cobrança interior, a voz do mercado, sempre insaciável em sua fome de lucro, a
voz desorientação e dos contra valores, que ecoa o tempo todo nas redes sociais,
a voz das nossas fantasias e a voz dos nossos medos. Tudo isso nos confunde e
algumas vezes nos desvia de nós mesmos e de Deus. Precisamos diariamente
silenciar, não para ouvir o nada, mas para ouvir a voz do nosso único Pastor: “Ele
chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora” (Jo 10,3).
“Ele chama as ovelhas pelo nome e as
conduz para fora” (Jo 10,3). Em meio à grande massificação em que vivemos,
Jesus nos chama pelo nome; ele nos identifica e sabe que somos únicos. Sua voz
nos retira do barulho que adoece e confunde. Nela encontramos direção. A voz do
nosso bom Pastor nos “conduz para fora”, isto é, para fora do quarto escuro do
nosso medo, para fora da nossa tristeza e da nossa falta de sentido, para fora
da prisão do vício e do pecado, para fora da mentira e do erro. Só é possível ouvir
essa voz quando decidimos silenciar, por fora e por dentro. Deixemo-nos ser
encontrados por Aquele que nos procura. Não continuemos a nos desviar da porta
estreita por medo ou por acomodação. Tenhamos a atitude diária de nos deixar
cuidar pelo grande Cuidador, nosso Pastor Jesus Cristo.
Pe. Paulo Cezar Mazzi
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