quinta-feira, 23 de abril de 2026

A ALMA DA OVELHA SÓ ENCONTRA DIREÇÃO OUVINDO A VOZ DO SEU PASTOR

 Homilia 4º dom. Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 2,14a.36-41, 1Pedro 2,20b-25; João 10,1-10.

 

            Neste domingo do bom Pastor, Jesus se define como “a porta”. Primeiramente, ele afirma ser a porta para aqueles que têm a missão de cuidar dos outros: “Quem não entra no redil das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante. Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas” (Jo 10,1-2). “Entrar pela porta”, neste primeiro caso, significa configurar-se a Jesus, tê-lo como único modelo de cuidador, amando como ele, até o fim, dedicando a existência ao bem das ovelhas, como ele fez.

Mas aqui não podemos nos esquecer de qual porta é Jesus: “Entrai pela porta estreita, porque largo e espaçoso é o caminho que conduz à perdição!” (Mt 7,13). Todo cuidador que se espelha em Jesus deve se lembrar de que a porta das ovelhas é o próprio corpo do pastor. Durante a noite, ele dorme ali, na porta do redil, porque, se algum animal quiser se aproximar para ferir ou matar uma ovelha, terá primeiro que enfrentar o pastor. Portanto, todo cuidador que tem Jesus como modelo de cuidado sabe que ele mesmo é a proteção do seu rebanho, e que o espírito do mal tem como principal objetivo ferir o pastor, para, depois, apoderar-se das ovelhas do rebanho.

Vejamos agora o segundo sentido da porta: “Eu sou a porta das ovelhas. Quem entrar por mim, será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem” (Jo 10,7.9). Entrar pela porta que é Jesus é uma escolha que cada pessoa tem que fazer. A vida nos apresenta inúmeras portas. Nem todas nos dão acesso ao que é bom. Nem todas nos conduzem à verdadeira liberdade. Nem todas nos ajudam a encontrar “pastagem”, isto é, meios que sustentam a nossa vida física, emocional e espiritual. Somente Jesus nos faz “entrar” em comunhão com o Pai, com o Deus a quem a nossa alma anseia. Somente Jesus nos faz “sair” de uma situação de escravidão que nos adoece, ou da prisão em que nós mesmos nos colocamos, por culpa ou por desistência de nós mesmos. Somente Jesus nos faz “encontrar pastagem”, porque sua Palavra é “espírito e vida” (Jo 6,63), Palavra que nos faz viver a partir de dentro.

Ao longo da vida, nós escolhemos entrar por muitas portas. Por que será que muitas dessas portas nos conduziram a situações de destruição? Porque nós nos iludimos com a beleza e a largura da porta. A escolha de uma porta implica a renúncia a outras portas. Quantas portas foram deixadas para trás, porque eram estreitas e feias? E, no entanto, elas nos davam a possibilidade de uma vida mais significativa. Tomemos cuidado com o medo: ele nos impede de abrirmos muitas portas, e sem abri-las, nós continuamos a viver presos numa rotina que nos sufoca e nos desencanta. Qual porta a vida está lhe pedindo para abrir hoje?

Neste domingo do bom Pastor, façamos nossa a oração do salmista: “Eu me desvio como ovelha perdida: vem procurar o teu servo!” (Sl 119,176). As inúmeras vozes dos inúmeros influenciadores digitais falam conosco todos os dias. Além disso, existe a voz da nossa cobrança interior, a voz do mercado, sempre insaciável em sua fome de lucro, a voz desorientação e dos contra valores, que ecoa o tempo todo nas redes sociais, a voz das nossas fantasias e a voz dos nossos medos. Tudo isso nos confunde e algumas vezes nos desvia de nós mesmos e de Deus. Precisamos diariamente silenciar, não para ouvir o nada, mas para ouvir a voz do nosso único Pastor: “Ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora” (Jo 10,3).

“Ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora” (Jo 10,3). Em meio à grande massificação em que vivemos, Jesus nos chama pelo nome; ele nos identifica e sabe que somos únicos. Sua voz nos retira do barulho que adoece e confunde. Nela encontramos direção. A voz do nosso bom Pastor nos “conduz para fora”, isto é, para fora do quarto escuro do nosso medo, para fora da nossa tristeza e da nossa falta de sentido, para fora da prisão do vício e do pecado, para fora da mentira e do erro. Só é possível ouvir essa voz quando decidimos silenciar, por fora e por dentro. Deixemo-nos ser encontrados por Aquele que nos procura. Não continuemos a nos desviar da porta estreita por medo ou por acomodação. Tenhamos a atitude diária de nos deixar cuidar pelo grande Cuidador, nosso Pastor Jesus Cristo.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi          

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