quinta-feira, 11 de setembro de 2025

QUAL A IMPORTÂNCIA DA IMAGEM DO CRUCIFICADO?

 Festa da Exaltação da Santa Cruz. Palavra de Deus: Números 21,4b-9; Filipenses 2,6-11; João 3,13-17.

 

Celebramos a festa da “Exaltação da Santa Cruz”. Não exaltamos o sofrimento, nem as cruzes de cada dia. Exaltamos o que aconteceu na Cruz: a fidelidade e a entrega radical de uma Vida em solidariedade com todos os crucificados do mundo. A imagem do Crucificado nos diz: “Eu estou com todos os que sofrem”.  

A Cruz de Jesus foi prefigurada, no Livro dos Números, pela imagem da serpente de bronze. A caminhada pelo deserto dos escravos hebreus libertados do Egito foi sofrida. Por isso, a reação deles foi reclamar e esquecer tudo o que Deus havia feito por eles, ou seja: ingratidão. “Porque nos fizestes sair do Egito, para morrermos neste deserto? Aqui não há pão nem água e já estamos com nojo deste alimento miserável” (Nm 21,5). Esse “nojo” que os hebreus sentiram pelo maná que Deus fez descer do céu para que eles não morressem de fome e pudessem caminhar firmemente em direção à Terra Prometida está presente em nós também. A propaganda de consumo nos faz olhar para o que ainda não temos e desprezar o que temos. Desse modo, vivemos insatisfeitos e temos nojo da nossa rotina e da vida que levamos. Ao lamentar o que ainda não temos, nos tornamos ingratos para com a vida e para com o próprio Deus. No lugar da gratidão entra a reclamação e o amargor. Quanto mais reclamamos, mais a vida fica pesada.

A resposta à reclamação e ingratidão dos hebreus foi o surgimento das serpentes venenosas. Esse veneno tem vários nomes: o veneno do egoísmo, da violência, da injustiça, da exploração, do orgulho, da ambição, da mentira, do medo, da maldade... A cura para o veneno que nos adoece passa por uma atitude: olhar para o alto, onde está a imagem de uma serpente de bronze. Ela simboliza a bondade, a misericórdia e o amor de Deus pelo seu povo. A serpente de bronze levantada sobre uma haste é um símbolo de Jesus levantado na Cruz: “Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,32).  

A imagem de Jesus Crucificado é fonte de cura para nossas doenças: “Por suas feridas fostes curado” (1Pd 2,24). Mas a cura que precisamos não acontece sem a nossa participação, como nos lembra Hipócrates, pai da medicina: “Antes de curar alguém, pergunte se ele está disposto a desistir das coisas que o deixam doente”. A Cruz de Cristo não é um símbolo mágico, mas um questionamento: qual é a minha responsabilidade na doença que está me acometendo? Em outras palavras, as nossas opções erradas têm consequências que nos fazem sofrer; esse sofrimento não deve ser atribuído a Deus, mas sim às nossas escolhas egoístas e aos efeitos que elas têm na nossa vida.

O salmo de hoje nos revela o quanto somos parecidos com os hebreus que andavam pelo deserto: “Quando os feria, eles então o procuravam, convertiam-se correndo para ele;  recordavam que o Senhor é sua rocha e que Deus, seu Redentor, é o Deus Altíssimo. Mas apenas o honravam com seus lábios e mentiam ao Senhor com suas línguas; seus corações enganadores eram falsos e, infiéis, eles rompiam a Aliança” (Sl 78,34-37). Em outras palavras, o que nos traz para Deus é mais a dor do que o amor. Quando a vida está boa, nos esquecemos d’Ele; quando fica ruim, O procuramos; quando volta a ficar boa, O esquecemos novamente.

O apóstolo Paulo fala da Cruz de nosso Senhor como “aniquilação” ou “despojamento” (“kenosis” – v.7). Cristo abriu mão da sua condição divina para vestir a fragilidade dos seres humanos e tornou-se homem: experimentou nossas dores e limites, conviveu com os nossos dramas e nos indicou o caminho que leva à salvação, fez-se servo dos homens. Como se tudo isso não bastasse, desceu ainda mais: foi contestado, preso, condenado e sofreu uma morte infame na Cruz, a morte reservada aos malditos e abandonados por Deus (v.8), segundo a mentalidade da época. Exatamente porque Jesus nos amou até o fim, Deus Pai o ressuscitou e o exaltou, dando-lhe um nome que está acima de todo nome: “Senhor”, o que significa que Jesus está revestido do poder e da autoridade do Pai para salvar a humanidade inteira (“os céus, a terra e os infernos”).

No Evangelho de hoje, Jesus aplica a si mesmo a imagem da serpente de bronze. Como ela, Jesus será, para todos aqueles que o contemplarem, sinal visível do amor de Deus; aliás, mais do que a serpente de bronze, Jesus será, para aqueles que nele creem, fonte de vida eterna! A Cruz de Cristo sempre deve nos lembrar desta verdade fundamental: “Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). Portanto, sempre que sentirmos que Deus não nos ama, olhemos a imagem do Crucificado. Mais ainda, sempre que nos sentirmos condenados por causa de algum pecado que cometemos, olhemos para o Crucificado e nos lembremos: “Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3,17). Jesus veio oferecer a todos os homens, sem exceção, a Vida definitiva. Sua Cruz nos ensina que só quando amamos até o fim é que o mal pode ser vencido.

Uma última palavra. Ninguém pode se considerar cristão quando busca a comunhão com Deus, mas se afasta do drama de quem está crucificado. Não podemos separar Deus do sofrimento dos inocentes; Ele sofre nos seus filhos e filhas. A cruz ou o crucifixo que carregamos no peito ou tatuamos no corpo se torna hipocrisia religiosa, se não estamos dispostos a fazer descer da cruz aqueles que estão dependurados nela.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

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