Festa da Exaltação da Santa Cruz. Palavra de Deus: Números 21,4b-9; Filipenses 2,6-11; João 3,13-17.
Celebramos a festa da “Exaltação da
Santa Cruz”. Não exaltamos o sofrimento, nem as cruzes de cada dia. Exaltamos o
que aconteceu na Cruz: a fidelidade e a entrega radical de uma Vida em
solidariedade com todos os crucificados do mundo. A imagem do Crucificado nos
diz: “Eu estou com todos os que sofrem”.
A Cruz de Jesus foi prefigurada, no Livro
dos Números, pela imagem da serpente de bronze. A caminhada pelo deserto dos
escravos hebreus libertados do Egito foi sofrida. Por isso, a reação deles foi
reclamar e esquecer tudo o que Deus havia feito por eles, ou seja: ingratidão. “Porque
nos fizestes sair do Egito, para morrermos neste deserto? Aqui não há pão nem
água e já estamos com nojo deste alimento miserável” (Nm 21,5). Esse “nojo” que
os hebreus sentiram pelo maná que Deus fez descer do céu para que eles não
morressem de fome e pudessem caminhar firmemente em direção à Terra Prometida
está presente em nós também. A propaganda de consumo nos faz olhar para o que
ainda não temos e desprezar o que temos. Desse modo, vivemos insatisfeitos e
temos nojo da nossa rotina e da vida que levamos. Ao lamentar o que ainda não
temos, nos tornamos ingratos para com a vida e para com o próprio Deus. No
lugar da gratidão entra a reclamação e o amargor. Quanto mais reclamamos, mais
a vida fica pesada.
A resposta à reclamação e ingratidão dos
hebreus foi o surgimento das serpentes venenosas. Esse veneno tem vários nomes:
o veneno do egoísmo, da violência, da injustiça, da exploração, do orgulho, da
ambição, da mentira, do medo, da maldade... A cura para o veneno que nos adoece
passa por uma atitude: olhar para o alto, onde está a imagem de uma serpente de
bronze. Ela simboliza a bondade, a misericórdia e o amor de Deus pelo seu povo.
A serpente de bronze levantada sobre uma haste é um símbolo de Jesus levantado
na Cruz: “Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,32).
A imagem de Jesus Crucificado é fonte de
cura para nossas doenças: “Por suas feridas fostes curado” (1Pd 2,24). Mas a
cura que precisamos não acontece sem a nossa participação, como nos lembra Hipócrates,
pai da medicina: “Antes de curar alguém, pergunte se ele está disposto a
desistir das coisas que o deixam doente”. A Cruz de Cristo não é um símbolo
mágico, mas um questionamento: qual é a minha responsabilidade na doença que
está me acometendo? Em outras palavras, as nossas opções erradas têm
consequências que nos fazem sofrer; esse sofrimento não deve ser atribuído a
Deus, mas sim às nossas escolhas egoístas e aos efeitos que elas têm na nossa
vida.
O salmo de hoje nos revela o quanto
somos parecidos com os hebreus que andavam pelo deserto: “Quando os feria, eles
então o procuravam, convertiam-se correndo para ele; recordavam que o
Senhor é sua rocha e que Deus, seu Redentor, é o Deus Altíssimo. Mas apenas o
honravam com seus lábios e mentiam ao Senhor com suas línguas; seus corações
enganadores eram falsos e, infiéis, eles rompiam a Aliança” (Sl 78,34-37). Em
outras palavras, o que nos traz para Deus é mais a dor do que o amor. Quando a
vida está boa, nos esquecemos d’Ele; quando fica ruim, O procuramos; quando
volta a ficar boa, O esquecemos novamente.
O apóstolo Paulo fala da Cruz de nosso
Senhor como “aniquilação” ou “despojamento” (“kenosis” – v.7). Cristo abriu mão
da sua condição divina para vestir a fragilidade dos seres humanos e tornou-se
homem: experimentou nossas dores e limites, conviveu com os nossos dramas e nos
indicou o caminho que leva à salvação, fez-se servo dos homens. Como se tudo
isso não bastasse, desceu ainda mais: foi contestado, preso, condenado e sofreu
uma morte infame na Cruz, a morte reservada aos malditos e abandonados por Deus
(v.8), segundo a mentalidade da época. Exatamente porque Jesus nos amou até o
fim, Deus Pai o ressuscitou e o exaltou, dando-lhe um nome que está acima de
todo nome: “Senhor”, o que significa que Jesus está revestido do poder e da autoridade
do Pai para salvar a humanidade inteira (“os céus, a terra e os infernos”).
No Evangelho de hoje, Jesus aplica a si
mesmo a imagem da serpente de bronze. Como ela, Jesus será, para todos aqueles
que o contemplarem, sinal visível do amor de Deus; aliás, mais do que a
serpente de bronze, Jesus será, para aqueles que nele creem, fonte de vida
eterna! A Cruz de Cristo sempre deve nos lembrar desta verdade fundamental: “Deus
amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o
que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). Portanto, sempre que
sentirmos que Deus não nos ama, olhemos a imagem do Crucificado. Mais ainda, sempre
que nos sentirmos condenados por causa de algum pecado que cometemos, olhemos
para o Crucificado e nos lembremos: “Deus não enviou o seu Filho ao mundo para
condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3,17). Jesus
veio oferecer a todos os homens, sem exceção, a Vida definitiva. Sua Cruz nos
ensina que só quando amamos até o fim é que o mal pode ser vencido.
Uma última palavra. Ninguém pode se considerar
cristão quando busca a comunhão com Deus, mas se afasta do drama de quem está
crucificado. Não podemos separar Deus do sofrimento dos inocentes; Ele sofre
nos seus filhos e filhas. A cruz ou o crucifixo que carregamos no peito ou
tatuamos no corpo se torna hipocrisia religiosa, se não estamos dispostos a fazer
descer da cruz aqueles que estão dependurados nela.
Pe.
Paulo Cezar Mazzi
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